A terra já estava sendo salgada.
O sangue das criaturas da Praga encharcava o solo até onde a vista alcançava, transformando o campo em um pântano de carne, lama e corrupção. Purificar a terra era dever dos sacerdotes — figuras vestidas de branco imaculado, rostos cobertos por véus espessos e chapéus altos que lhes davam silhuetas quase fantasmagóricas.
Ethel nunca entendera a cordialidade que os combatentes demonstravam por eles.
Homens e mulheres arriscavam a vida, perdiam membros, amigos e a própria sanidade diante da Praga… enquanto aqueles sacerdotes só surgiam quando o pior já havia passado, com suas vestes absurdamente limpas e mãos que jamais haviam rasgado a garganta de um monstro com os próprios dedos.
Seus olhos amarelos brilhavam na escuridão.
De longe, quem observasse o acampamento de primeiros socorros veria apenas dois pontos dourados, imóveis, pairando entre as sombras.
Uma enfermeira, também coberta de branco da cabeça aos pés, enfaixava o ferimento no pescoço de Ethel. Suas mãos eram habilidosas, gentis — delicadas demais para aquele lugar.
— Vai ficar tudo bem, querida… — murmurou ela, em voz baixa e melodiosa. — Eles se foram. Você conseguiu dar paz a todos.
Seus dedos afastaram cuidadosamente os cabelos escuros e brancos de Ethel, buscando melhor visão do ferimento.
Então hesitou. Franziu o rosto estreito.
Os cortes não pareciam causados por garras, presas ou mandíbulas deformadas da Praga. Eram cortes retos.
Precisos.
Limpos.
Quase cirúrgicos.
Lâminas.
A enfermeira conhecia carne dilacerada — costurava corpos rasgados diariamente e auxiliava em autópsias quando os Ciprianos exigiam relatórios. Sabia reconhecer violência animal.
Aquilo não era animal.
Aquilo fora intencional.
Controlado.
Humano.
Ela engoliu as perguntas.
Ao servir junto à Ordem de São Cipriano, aprendia-se cedo que o silêncio preservava vidas. Na maioria das vezes, era melhor não questionar.
Muito menos perguntar.
Ethel manteve-se imóvel, seus pensamentos alternavam entre o cenário escabroso a sua frente e memórias distantes, talvez sua mente estivesse tentando se apegar ao que restava de humano nela.
Quase sentia falta de Nathaniel.
Da tagarelice constante. Da maneira metódica com que ele organizava o caos ao redor. Das orações murmuradas entre um suspiro e outro, como se palavras sagradas fossem capazes de conter qualquer coisa — até mesmo ela.
Nathaniel Gagneux era sufocante.
Protetor em excesso. Mas sua ausência deixava um vazio irritante. Agora, sem ele por perto, Ethel via a Praga com crueza.
Ela era suja.
Podre.
Profanadora.
A carne dos mortos derretia ainda presa aos ossos a cada borrifada dos sacerdotes. O ar se enchia com o cheiro de sal, pus, ferro e matéria apodrecida. Preces ecoavam mais altas sempre que uma criatura maior resistia à purificação, como se a corrupção se recusasse a abandonar a carne.
A noite gelava seu rosto.
Ao redor, inquisidores cruzavam o acampamento carregando feridos, distribuindo ordens, arrastando corpos.
Uma maca passou.
Sobre ela, um corpo coberto por pano branco.
Um braço pendia para fora. Na mão, um anel cipriano, polido com orgulho, preso aos dedos enegrecidos por uma morte dolorosa. Consumidos pela Praga. Ethel travou a mandíbula.
Ela não precisava ouvir para sentir. Os olhares diziam tudo. Devia ter sido você.
A maldita.
A profana.
A arma viva.
Uma arma que não se coloca de volta na bainha e se esquece até o próximo uso.
Ela estava sentada próxima ao posto médico, respirando devagar. Devagar o bastante para parecer menor. Menos perceptível. Menos ameaçadora. Mas predadores sempre percebem quando estão cercados por medo.
Ethel sentia cada batida de coração ao redor, podia sentir o cheiro do sangue quente e fresco correndo nas veias de cada um. O cheiro da carne macia coberta por belos uniformes.
Cada gota de suor. Cada músculo tensionado não passava despercebido pelos seus sentidos.
Então—
A lona da barraca foi aberta com violência. Todos os sentidos de Ethel se voltaram na mesma direção. Um homem emergiu em passos pesados, cobertos por uma bota negra que afundava na lama rubra.
Longos cabelos loiros claros desciam pelas costas como prata líquida. O sobretudo estava jogado sobre os ombros, deixando visível parte do peito, braços e pescoço cobertos por faixas e curativos recentes. Sob as bandagens, cicatrizes antigas desenhavam marcas de penitência sobre sua pele branca — traços de dor transformados em devoção.
Belo.
Assustador.
Implacável.
Isaak Von Everic.
Seus olhos azuis pousaram sobre Ethel.
Gélidos e afiados. Ódio, desprezo e Julgamento. O ar entre os dois pareceu endurecer.
Silêncio.
Ela não desviou.
Não recuaria, tal qual um animal encurralado, a única opção que vinha em sua mente toda vez que os olhos de Isaak a seguiam era de continuar em frente e atacar.
Esperou que os lábios franzidos de Isaak se movessem, que algum insulto cortante finalmente escapasse, mas algo em sua disciplina monstruosa o continha.
Apenas seus olhos se moviam. Descendo por seu pescoço ferido e recém enfaixado. Pela curva dos ombros. Pelas mãos. Procurando vestígios da monstruosidade que vira momentos antes.
Voltando aos olhos dela.
A intensidade daquele olhar fez algo primal dentro de Ethel despertar. Suas pupilas se dilatavam e seu corpo se aqueceu subitamente, podia sentir o cheiro de Isaak mudar.
O lobo se debatia em seu peito como um animal preso em uma jaula minúscula, se lançando contra as grades e sacudindo sua estrutura.
Ela conhecia aquele tipo de fixação.
Predadores reconhecem predadores.
Ethel percebeu, com uma clareza brutal, aquilo que talvez nem Isaak aceitasse. Aquilo já não era apenas dever. Havia raiva, sim. Mas também havia outra coisa. Algo cru. Algo faminto. Algo que queimava por trás da disciplina.
Isaak a odiava.
Porque a desejava.
Porque cada vez que ela se entregava ao monstro, cada vez que ele enxergava as costas gigantescas de pelos ouriçados daquele demônio, algo arranhava as correntes que ele passara a vida inteira forjando ao redor de si mesmo.
A existência dela despertava nele impulsos que ele jurou se manter longe, todo o pecado que ele trancou dentro de si borbulhava em um caldeirão de sentimentos profanamente confusos.
A mandíbula de Isaak travou. Seu punho fechou com força suficiente para embranquecer os nós dos dedos.
Ethel inclinou levemente a cabeça para o lado, desafiando o homem a sua frente a quebrar o silêncio mortal entre eles.
Provocação.
Quase um sorriso surgiu em seus lábios rosados. Porque agora ela sabia.
O inquisidor que jurara destruir monstros carregava um dentro do próprio peito. E ele sabia que ela tinha visto, seu rosto queimava, como quem foi visto pelo buraco da fechadura.
Mas não seria naquela noite. Não diante de todos. Não enquanto sua disciplina ainda vencia.
Isaak desviou primeiro. Virou-se com rigidez militar. Mas, antes de partir, sua voz finalmente cortou o silêncio:
— Controle-se, Brandguard.
Baixa.
Rígida.
Perigosa.
Ethel sentiu o lobo sorrir dentro de si. Desdenhoso. Salivando entre os caninos afiados e com a longa língua pendurada para fora da bocarra.
Porque por trás da ordem, ela ouviu o que ele realmente queria dizer.
Não me provoque. Não me faça querer mais.
Não me obrigue a escolher entre meu dever… e você. Não. Não seria agora que Isaak acertaria suas contas com ela.
Mas ambos sabiam.
Aquela guerra entre eles já havia começado.











