Memórias de colégio não são sempre ruins. || Hélio e André
Da lista de amigos que de alguma forma pareciam com ele em comportamento, André sempre esteve no topo da lista, por mais que Bruno fosse seu melhor amigo, Hélio nunca escondeu o fato de que André era praticamente seu irmão em comportamento. Observar o outro tentar ficar em pé num único pé, bêbado, para provar que estava sóbrio, certamente era algo a se acrescentar na lista de coisas que André já havia feito e que causaram crises de riso em Hélio. Ao ver o outro rir ainda no chão, o rosto do loiro já estava vermelho de tanto que estava rindo, seus olhos pareciam querer lacrimejar com a queda do outro mas ele conseguia ir aos poucos controlando a risada enquanto recuperava seu fôlego. — Eu nunca tive precipício por ela! Ela é muito linda, e agora tá namorando um cara todo quatro por quatro aí, mas eu nunca tive um precipício por ela, já tive uma queda por ela uma vez aí, mas foi nada demais, eu nem tentei ficar com ela! — Sorriu de canto ajeitando seu corpo para ficar sentado na poltrona com as penas sobre o braço e as costas no outro, sentindo-se mais confortável assim — A briga do André com a Clarinha… como esquecer a segunda briga mais épica do colégio? — Riu de forma pouco ainda alterada pelo álcool — Eu lembro que as amigas delas ficaram mó sem saber o que fazer porque você era o crush de algumas delas mas elas todas eram amigas da Clara e aí ficaram sem saber de que lado ficar enquanto isso eu só morria de rir e o resto da sala observava a briga! Foi um dos momentos épicos do colégio! — Sorriu de canto mordendo o lábio de leve — O Ian era bonito…. — Falou pensativo — Enfim… — Levantou da poltrona num pulo e andou até a cama, deitando-se ao lado do outro e ainda olhando para cima — Eu lembro da festa do primeiro ano, foi mó bacana que todo mundo ficou falando dessa festa e como eu não pude ir eu tive que ficar em casa doente e quando eu voltei pro colégio todo mundo ficou falando dessa festa por uma semana sendo que eu não estava lá… era super triste! — Sorriu torto passando a mão no cabelo e logo virando o rosto em direção ao outro com as sobrancelhas arqueadas — Oh wait! Você pegou aquela galera no terceiro ano pra me fazer ciúme? Sério?! — Sorriu rindo e logo levantou o corpo, ficando sentado no mesmo lugar — Cara… Eu tinha mó crush em você no terceiro ano! Sério! — Riu baixo pouco constrangido — Sabe aquele projeto de física que você ficou no mesmo grupo que eu e que o grupo inteiro foi pra minha casa pra fazer o projeto lá e você que era o líder do grupo? Então… cara… eu juro pra você que eu não prestava atenção em quase nada que a gente tava fazendo, porque eu era o tempo todo olhando pra você e pensando se eu deveria ou não deixar claro que eu tinha crush em você! Tipo…, eu comentei com o Bruno sobre isso! Pra você ter noção! — Riu baixo — Ele me chamou de garotinha apaixonada e eu dei com a mão na cara dele. Mas na festa… eu lembro que eu estava muuuito puto da vida com você que eu fiquei a festa inteira te ignorando! E tudo isso porque o Hiago, aquele carinha de cabelo castanho e meio cacheado, que foi de Superman na festa do final do segundo ano, lembra? Pois é… ele sabia que eu não gostava dele, sabia que eu tinha crush em você e aí ele foi dar encima de você, te chamou pra casa dele pra fazer grupo de estudo e depois ele postou no Orkut aquela foto de vocês dois mó de boas estudando no quarto dele, naquilo eu já fiquei mó irritado mas aí depois aquela irmã nojenta dele chega pra mim e fala que o Hiago perdeu a virgindade com você naquele dia… e veeeeeelho…. eu fiquei tão puto, mas tão puto que fiquei a festa toda sem querer nem olhar na sua cara! — Riu baixo — E quem diria, você tinha crush em mim no final das contas! — Sente as bochechas começarem a esquentar de vergonha e leva as mãos ao rosto, começando a rir evitando encarar o outro e apenas olhando para cima.
“Não tentou ficar com ela porque você é um frouxo, Héliozinho, isso sim.” André soltou uma gargalhada, ainda largado no chão, pouco se importando com quão patético poderia estar; não se importava muito com as coisas quando estava com Hélio, afinal de contas, eles eram amigos há tanto tempo que não havia mais espaço para pudor. Por fim, se levantou, sentando-se na cama novamente com certo esforço. “A minha briga com ela foi ótima. E eu briguei por sua causa, seu otário. Não sei se te contei isso, acho que não porque feriria seu oração na época, mas agora posso contar, so... Ela estava falando algo sobre você, eu não escutei bem e nem me lembro, só sei que eu não gostei e fiquei puto. Bons tempos. E elas não tinha um crush em mim, elas eram malucas, só isso, qualquer menino que aparecesse elas queriam, eu acho. Não que haja problema nisso, mas não era crush específico por mim.” Deu de ombros, meio pensativo. Não tinha certeza se o que falava fazia sentido, mas continuava a falar sem parar. “Ninguém mandou você ficar doente, cara. Aliás, você tinha o que, gripe? Com gripe dá pra sair de casa, você ‘tava de frescura!” Soltou uma gargalhada, encolhendo os ombros com o ato. Assentiu sobre ficar com as pessoas para fazer ciúmes nele, um pouco envergonhado por finalmente admitir. Olhava para as suas mãos enquanto Hélio falava. Ele se lembrava de tudo aquilo, e de como doía fingir que não sentia nada por Hélio. Ali, naquele momento, era como se os sentimentos antigos voltassem com tudo e o sufocassem. Era doloroso, era imprevisível. André levou os olhos até os de Hélio, encarando-o, e sorriu. Um sorriso singelo, singular, tão perfeitamente esquematizado que não parecia vir dele. Mas ai o sorriso se desfez, virando uma curva abstrata do rosto do Fonini. Ele não sabia o que dizer. “Eu não tinha só um crush em você, não, Hélio. Eu era loucamente apaixonado. Foi a primeira vez que eu senti algo por um homem e no começo eu me odiei por isso. Eu não sabia o que era aquilo, sabe? Eu lembro de tudo isso. O trabalho em grupo foi uma merda, porque eu tentava te impressionar do jeito errado, sei lá, eu dava os sinais errado, cara.” Deu de ombros novamente, encolhendo os ombros devagar. Era uma confissão e tanto, e ele falava como se ainda sentisse aquilo, o que não era verdade. Hélio era seu amigo, nada além disso, certo? Soltou uma risada abafada, meio nervosa. “Eu nunca encostei no Hiago, cara. Ele tentou me agarrar algumas vezes, mas eu sempre dizia não. Eu era um bobinho apaixonado, no final das contas, né?” De novo, seus olhos foram aos do Hélio. Desceram para os lábios dele, que André encarava descaradamente, parte por culpa da bebida, outra parte porque simplesmente queria. Mordeu seu próprio lábio com a visão que tinha. O que aconteceria com aqueles lábios se, depois de tantos anos, ele os beijasse?













