É como se eu fosse essa estante vazia. E tem esses ótimos livros para ocupar os espaços vazios em mim. Porém, apesar deles ficarem organizados em boa parte das prateleiras, existe esse pequeno vão que nenhum deles consegue preencher. E não adianta quantos livros a mais eu compre, eles nunca são do tamanho exato necessário para tapar esse buraco. Uns são largos demais que machucam só de tentar. Outros tão pequenos que nem parece que foram deixados ali. E eu só fico aqui, aguardando o dia em que eu encontre o livro que encaixe nessa lacuna da minha vida.
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“Did he hit it better? Did he eat like me, did he get you wetter? Girl, you mind change more than the weather 'cuz you told me how I do, he can't even measure.”
Alguns raios de sol ultrapassaram a cortina do quarto de Summer, fazendo-a despertar com uma dor de cabeça horrorosa. Ela se sentou na cama, passando as mãos pelos cabelos embolados e percebeu que havia dormido nua. Coçou seus olhos e quando decidiu que iria se levantar para pegar um remédio para a enxaqueca, notou dois pés a mais além dos seus.
Ela foi subindo os olhos pelo corpo coberto pelo lençol branco e se deparou com um rosto desconhecido dormindo tranquilamente.
- Puta que pariu! - ela falou em um sussurro para si mesma, sentindo a cabeça voltar a latejar.
“O que aconteceu ontem?”, Summer perguntou para si mesma, mas a única coisa que vinha em sua mente era a conversa com Marvin. O pensamento de que poderia ser ele em vez do desconhecido passou pela sua mente, mas ela o afastou com a mesma rapidez.
- Sum? - ela ouviu uma voz familiar vindo da porta de seu quarto e encarou a figura ali parada com uma cara que misturava surpresa e decepção.
- Marvin? O que você tá fazendo aqui? Como você entrou aqui? - ela perguntou tudo de uma só vez, confundindo um pouco até ela mesma.
- Eu sei onde você guarda sua chave reserva, Summer – Marvin disse com a voz repleta de ressentimento. - Quem é ele?
Ele apontou para a pessoa que se sentava na cama, fazendo Summer se levantar na mesma hora, vestindo o roupão roxo que estava no cabideiro ao lado de sua cama. Marvin não conseguiu controlar o pensamento pervertido que apareceu em sua mente ao olhar o corpo nu da garota mesmo que por poucos segundos. Ele engoliu em seco tentando relembrar o que estava fazendo ali.
- Summer, me responde, quem é ele?
“Ele não é você”, ela pensou.
- Eu não te devo explicações – foi o que disse, indo em direção a porta do quarto, parando de frente para ele e o encarando.
- Pelo visto estou sobrando aqui – o rapaz desconhecido falou e começou a colocar suas roupas que estavam espalhadas pelo chão do quarto preguiçosamente.
- Eu concordo. - Marvin disse e Summer lhe lançou um olhar de repreensão.
Assim que o rapaz terminou de se vestir, Sum desceu as escadas, sendo seguida pelos outros dois. Ela parou perto da porta do apartamento e a abriu. O rapaz seguiu até ela, parando antes de sair.
- A noite foi ótima, gata – ele disse e ela levou a mão à testa. - Se quiser, pode me ligar – ele sorriu mostrando os dentes e Summer apenas assentiu com a cabeça, desejando que ele fosse embora o mais rápido possível. - Ah, e meu nome é Mike – ele riu e ela semicerrou os olhos. - Você não deve ter ouvido direito, poque ontem a noite ficou me chamando de Marvin – Sum abaixou a cabeça sentindo as bochechas corarem e ouviu a gargalhada do outro ao fundo. - Bom, já vou indo. Até mais.
Summer fechou a porta assim que o rapaz saiu. Ainda não conseguia encarar Marvin depois do que o outro havia falado.
- Então você grita meu nome enquanto transa com outro cara? - ela não viu o rosto dele, mas tinha certeza que estava com um sorriso sacana por causa do tom de divertimento em sua voz.
- Ah, por favor, não enche – ela disse se virando para ele. - Eu já tô confusa o suficiente, não preciso da sua ajuda - ela viu o sorriso desaparecer do resto dele.
Eles se encararam por algum tempo, com o silêncio dominando a sala.
- Isso realmente machuca – ele disse com o olhar vagando por algum lugar.
- Eu sei – ela suspirou e ele olhou para os olhos dela. - Me desculpe.
- Não achei que você superasse tão rápido assim – a boca dela se abriu e não conseguia acreditar no que ele estava dizendo.
- Você acha mesmo que eu queria ter dormido com aquele cara? - ela se aproximou dele com os braços cruzados. - Eu não vou mentir dizendo que não aconteceu nada, mas eu não vou ser tão hipócrita como você! - ela gritou sentindo como se tivessem acabado de dar um tiro em sua cabeça.
- Eu disse que estava arrependido! - ele devolveu no mesmo tom. - Eu vim aqui tentar consertar as coisas, Summer! Não haja como se eu fosse o único errado da história.
- Dois errados não fazem um certo.
- Eu sei que cometi erros, não precisa ficar jogando na minha cara.
- Você disse que seguraria minhas mãos até o fim, Marvin. Mas no mesmo dia em que você foi embora, segurou em outras mãos.
- Então porque você dormiu com outro cara?! - ele deixou a raiva lhe dominar, soltando as palavras em cima da garota. E essa era um resposta que nem ela mesmo sabia.
- Você tinha prometido! Você sabe! - ela gritou. - Por que você não vai lá transar com a vadia da sua namorada?!
- Porque ela não é você! - ele disse fazendo o estômago de Summer revirar dentro dela. - Ela não é você... - Marvin sussurrou colocando as mãos nos ombros dela e lhe beijando em seguida.
Havia tanto tempo que não sentia aquele gosto de pasta de dente de menta que ela não conseguiu afastá-lo. Apenas reprimiu o impulso de enlaçar seus dedos nos cabelos bagunçados dele, e deixou o beijo suave continuar. Ele desceu as mãos pelos braços cobertos pelo roupão, indo até a cintura e parando na bunda dela, onde ele apertou. Aquilo fez o pensamento de Summer voltar ao normal, e ela o empurrou.
- Por mais que não se lembre, você ainda tem uma namorada – aquelas palavras engasgaram em sua garganta. - Você não vai me fazer trair ela.
- Eu não tenho mais namorada – ele disse simplesmente e Summer sentiu como se tivesse acabado de ser ligada na tomada. - Eu vim te dizer isso. Te dizer que eu quero você como nunca quis ninguém e que fui um idiota por te deixar ir – Marvin disse verdadeiro e a beijou novamente.
Dessa vez ela não reprimiu o impulso, e deixou seus dedos brincarem com os cabelos dele, enquanto Marvin apertava sua cintura levemente. O beijo começava a passar de suave para algo mais caloroso, pedindo a maior aproximação possível entre os dois. Summer tirou a camisa dele, arranhando levemente o abdômen de Marvin, ele soltou um gemido baixo por entre os beijos, fazendo ela rir. As mãos dela brincavam em suas costas e a única coisa que ele queria no momento era se livrar de todas aquelas roupas.
Marvin subiu as mãos pelo corpo da menina, afrouxando um pouco o roupão que ela usava e apertou seu seio por dentro dele. Ela levou as mãos até a barra das calças dele, abrindo o cinto e empurrando para baixo. Ele ajudou soltando as roupas pelo chão da sala enquanto caminhavam até a escada sem quebrar o beijo. Ele a levantou, fazendo-a enrolar suas pernas na cintura dele, subindo os degraus que os levavam de volta até o quarto.
Ele empurrou a porta com o corpo, parou de frente para a cama e a colocou no chão. Tirou o roupão que ela usava de uma vez, passando as mãos pelo corpo nu dela. Ele sentiu todos os pelos do corpo dela se arrepiarem e sorriu com a constatação. Marvin tirou a cueca box preta que ainda usava e deitou-a gentilmente na cama.
Seus beijos desceram pelo pescoço de Summer, indo até os ombros e chegando aos seios, deixando um rastro de mordidas por todo o local. Ela puxou os cabelos dele com força, o que só o deu mais prazer. Os beijos retomaram o caminho de volta para a boca dela, mas pararam antes. Ele encarou os olhos de dúvida dela e sorriu.
- Eu te amo, louca – ele falou fazendo-a rir alto.
Summer beijou os lábios dele enquanto Marvin parecia procurar algo na gaveta da mesinha de cabeceira. Ele colocou a camisinha em seu membro já ereto e dobrou a perna esquerda dela, apertando a coxa fortemente. Ele começou com estocadas leves, fazendo-a gemer baixo e pedir por mais. Quando aumentou a velocidade, ela cravou as unhas nas costas dele, fazendo-a ficar com grandes listras vermelhas.
Cada vez que ela gritava seu nome era um incentivo para ele continuar, e ele não parou até ter certeza que os dois haviam chegado ao ápice.
Ele deitou ao lado dela, com a respiração pesada e algumas gotas de suor escorrendo por sua testa. Summer o abraçou e apoiou o queixo em seu peito nu, encarando os olhos claros dele.
- Eu também te amo, idiota – ela falou.
Marvin gargalhou e deu um beijo na testa da garota, fazendo-a deitar a cabeça em seu peito e dormiu ouvindo o coração dele batendo acelerado.
“I'm just saying, you can do better. Tell me have you heard that lately? I'm just saying, you could do better. And I'll start hating only if you make me.”
- Ah, não! - Marvin ouviu um de seus amigos falar e olhou na direção em que seus olhos estavam.
Ele sentiu como se uma corrente elétrica tivesse acabado de passar por seu corpo ao vê-la ali. Havia um bom tempo que não se viam, apesar de ele continuar insistindo nas ligações. “Ela conseguiu ficar mais linda do que nunca”, ele pensou mas se proibiu de dizer isso em voz alta.
Summer estava com uma blusa amarela de alça que brilhava um pouco quando alguma luz passava por ela e um decote que somente lhe favorecia, uma saia preta que tinha várias correntes nas cores dourado e azul penduradas deixando parte de suas coxas amostra e sneakers pretos. Seus cabelos compridos caiam sobre os ombros e um sorriso não havia abandonado seu rosto desde que ela entrara na boate. Ela era facilmente uma das mulheres mais encantadoras ali.
Marvin sentiu-se um pouco tonto com a visão e virou-se para o bar, pedindo outra bebida. Sua namorada dançava entretida com as amigas e uma vez ou outra lhe lançava olhares sedutores. Porém, naquele momento, ele havia até mesmo se esquecido de como ela se chamava. Sum foi direto para a pista de dança, nem parecendo notar a presença do garoto ali.
De longe ele podia ver os movimentos leves do corpo de Summer ao ritmo da música. Ele engoliu em seco passando as mãos pelos cabelos tentando pensar em qualquer coisa que não fossem os momentos que passaram juntos, mas parecia cada vez mais impossível. Ela parecia um imã que só o que fazia era atraí-lo e o que ele mais queria no momento era exatamente ter seu corpo grudado no dela.
A garota começou a se aproximar, fazendo as pernas dele tremerem. Sua mãos começaram a suar e ele as enxugou em suas calças jeans. Ela se debruçou um pouco sobre o bar, fazendo o bar man lhe lançar um olhar cheio de desejo, e pediu uma bebida.
- Você vai continuar agindo como se não me conhecesse? - ele disse ao perceber que os minutos se passavam e ela não havia nem mesmo olhado para ele.
Summer o olhou com o canto dos olhos, sem dizer uma palavra, e depois voltou para onde seus olhos estavam anteriormente. Ela riu e o rapaz franziu o cenho.
- Sua namorada é rápida ou vocês planejam fazer um menagé - ela disse e Marvin olhou para o mesmo ponto que ela.
Um rapaz havia se aproximado do grupo de amigas em que ela estava, e no momento tentava dançar colado com a menina. Marvin passou as mãos pelo rosto e virou de costas para a pista de dança.
- O que você tá fazendo aqui? - ele perguntou irritado. - Sabia que nós estávamos aqui, por isso veio?
- Nem tudo é sobre você – ela disse calma tomando um gole do que estava em seu copo. - Isso é sobre mim sendo fiel a mim mesma e não deixado nada me colocar para baixo – ele viu algum sentimento desconhecido nos olhos dela, então desviu o olhar.
- Eu vou voltar para os meus amigos – ele disse já saindo.
- Isso mesmo, volte correndo para os babacas dos seus amigos – Summer disse erguendo o copo. - E pare de dar chilique só porque eu estou aqui. Você não é meu namorado – Marvin fechou as mãos em punho em sinal de raiva e respirou fundo. - Só me responde uma coisa, ela sabe sobre a história que tivemos?
Ele virou-se para ela tentando decifrar seu olhar. Não conseguiu nada.
- Sum, me desculpe, eu não sabia o que estava fazendo quando terminei com você – ela ergueu uma das sobrancelhas não entendendo aonde ele queria chegar com aquilo, mas o deixou continuar a falar. - Ela não significa nada para mim.
- Eu não vou cair nessa, Marvin. Você sabia muito bem o que estava fazendo – ele mordeu o lábio inferior como sempre fazia quando estava tentando se acalmar e ela não podia deixar de lembrar o quanto isso era sexy. - Aquela vadia não apareceu para se fuder sozinha. Ela precisou de ajuda e você deu uma mãozinha – Summer falou sarcástica e ele encarou os sapatos como uma criança envergonhada.
A bebida no copo dela já havia acabado e ela se virou para pedir outra.
- Olha, porque você não vai lá fuder com a sua namoradinha e me deixa em paz? - Marvin percebeu a irritação já tomando conta do tom de voz dela. Ele a conhecia muito bem para saber quando ela começava a perder a paciência com algo. - Você me deixou ir embora tão rápido quanto ela apareceu.
- Para de agir como se você não se importasse mais comigo, com a gente – seu tom era firme porém suave. - Fica por aí, dançando e bebendo, mas eu sei que você ainda liga – ele disse e ela riu. - Será que você não percebe que eu estou arrependido?
- Você quer sabe, foda-se essa garota. Ela não é louca como eu, e eu sei que você gosta disso – ela sorriu sem amostrar os dentes. - Uma vez que você teve o melhor você não pode fazer mais nada! - ela gritou apesar da proximidade que eles estavam não deixar dúvidas de nenhuma palavra dita. - E sim, eu estou dançando e tem algo muito bom no meu copo! Aliás - ela se aproximou mais ainda para poder sussurrar as palavras no ouvido dele -, vou te mandar uma foto sensual para você lembrar do que abriu mão – Summer disse passando a língua pelos lábios percebendo Marvin paralisar e saiu, deixando-o sozinho.
Ele a observou voltar graciosamente para a pista de dança e não demorou muito para um cara se aproximar dela e eles passarem a dançar juntos. Marvin sentiu todo o sangue ferver em suas veias e decidiu que não precisava ficar assistindo aquilo. Ele saiu da boate como uma rapidez incrível, deixando todos para trás, inclusive a sua própria namorada.
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“Baby, what the hell you thinking? By the way you screaming at me, thinking you been drinking.”
O telefone tocou pela terceira vez no bolso da calça jeans de Marvin. Ele olhou no visor o número que ainda estava gravado em sua memória e atendeu rapidamente.
- Alô? - ele disse tentado falar mais alto que a música eletrônica que tocava no lugar. Marvin se afastou um pouco da multidão para entender melhor o que a pessoa do outro lado da linha falava. Se é que a pessoa já havia falado algo. - Eu não tô em casa no momento, só... - ele olhou ao redor dele – Só bebendo um pouco – silêncio. - Sum?
Havia semanas que ele não tinha notícias da ex-namorada. Depois de quase quatro anos juntos, Marvin terminou com Summer porque acreditou estar apaixonado por outra pessoa.
- O que você tem feito? - ele engoliu em seco antes de continuar, vendo que a única coisa que ouvia era a respiração pesada do outro lado da linha. - Eu sinto sua falta – Marvin percebeu a respiração de Summer ficar descompassada. - Você quer vir até aqui? - o barulho de algo se quebrando ao longe ecoou pelo telefone e ele ficou tenso ao imaginar que poderia ter outra pessoa com ela – Quem tá com você? Você tá sozinha? - Marvin disse rápido, quase tropeçando em suas próprias palavras.
- Eu estou acordada há três dias – Summer falou como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. - Adderall e Redbull – ela respondeu para ninguém em particular e respirou fundo, tentando não cair sentada no sofá da sala por conta da tontura repentina. - Essa ligação é um erro. Tem algo forte nessa garrafa de água – ela riu sozinha seguida de um soluço. Marvin ainda não conseguia dizer nada, estava estático por ouvir a voz da garota novamente depois de tanto tempo. - Eu soube que você tem uma nova namorada. Uma pequena boneca Barbie – a voz de Sum soava seca e aquilo pareceu ter rasgado o peito do garoto.
Um silêncio perturbante se formou por alguns segundos, mas parecia um século para os dois.
- Eu me sinto tão patética – Summer falou deixando transparecer todo o ressentimento em sua voz e os músculos de Marvin se enrijeceram. - Mas você ainda não ouviu nada. Foda-se essa nova garota que tem estado na sua cama! - ela soluçou – Porque quando você está nela eu sei que sou eu que estou na sua cabeça! - Sum terminou de falar soltando um riso sarcástico e Marvin estremeceu.
- Você está bêbada? - ele perguntou mesmo já sabendo a resposta.
- Sempre excitei você todas as vezes que estávamos juntos – a visão dele começava a ficar turva e não conseguia mais entender porque ela estava falando aquelas coisas.
- Você sabe que eu nunca disse isso.
- Amor, eu sou a melhor então você não vai conseguir nada melhor – a voz de Sum se suavizou como um sussurro, fazendo os pelos do corpo de Marvin se arrepiarem.
- Você deveria vir pra cá, o que você tá fazendo? - ele disse e um novo silêncio invadiu a ligação, mas não demorou muito para Summer quebrá-lo.
- Claro – ela respondeu irônica e desligou.
Marvin olhou para o telefone incrédulo e o guardou, seguindo em direção ao banheiro. Ele podia sentir cada parte de seu corpo quente e não conseguia entender porque, apesar de tudo, ela ainda conseguia causar aquelas sensações nele. Ele jogou um pouco de água no rosto e na nuca, tentando controlar o que estava sentindo.
Ele saiu do banheiro indo direto ao encontro dos amigos, avisando que estava indo embora. Só precisava de um tempo sozinho para pensar nos últimos acontecimentos.
***
Summer estava arrumando seu quarto, com uma camisa do tipo wife-beater e calças de um pijama preto de bolinhas brancas. Seu celular tocou como um bip em cima da cama, fazendo-a pular para ver a mensagem que tinha recebido. Era de uma de suas amigas dizendo que havia acabado de ver seu ex com a atual namorada. E que ela era uma vadia horrorosa.
Ela riu e apagou a mensagem segundos depois de ler. Não queria mais pensar que o cara que ela amava a trocou por outra. Já havia ficado cansativo se afogar em suas próprias mágoas e não ter ninguém para salvá-la.
- Foda-se essa garota que ele ama tanto! Eu sei que ele ainda pensa no que nós tivemos – Sum disse jogando o celular de volta para a cama com força.
A garota deu um pequeno grito de susto ao notar que assim que jogara o telefone na cama, ele havia começado a tocar. Ela o pegou novamente, suspirando alto quando viu quem era. Já era a quinta vez que Marvin a ligava só naquela semana.
- Quem ele pensa que é me ligando mesmo quando está com ela? - ela falou encarando o telefone que ainda tocava alto em suas mãos.
Summer desceu irritada até a cozinha, onde pegou uma de garrafas de champagne, que havia guardado para alguma ocasião especial, em cima da geladeira e encheu uma taça, virando tudo de uma só vez. Ela foi para a sala com a garrafa e a taça, jogando-se no sofá e ligando a Tv em um canal qualquer.
- Quer saber – ela disse já alterada para a TV – aquele cara tá precisando ouvir umas coisas a mais.
Ela levantou do sofá cambaleando e subiu as escadas aos tropeços até o quarto. Pegou o celular que indicava duas chamadas perdidas do mesmo número e ligou de volta.
- Summer – Marvin sussurrou ao atender o telefone. - Espere um segundo.
- Não, espere um segundo você – ela falou com gestos exagerados que ninguém via. - Estou cansada disso tudo, Marvin! Para de me ligar...
- Sum, você não entende! Não me deixou nem explicar nada da última vez que nos falamos e...
- Para! - ela o interrompeu gritando desesperada e se controlando para não chorar. Todas aquelas taças de champagne não a estavam fazendo bem. - Você desistiu de nós, não eu! Você nem tentou, apenas me deixou ir embora.
- Me escuta, eu prometo que vou mudar – ele falou tão baixo que Summer teve que se esforçar para entender.
- Eu queria poder te amar de novo, Marvin, mas agora eu tenho medo. Eu não acredito em você, isso tudo pode ser apenas um jogo seu. Confiança não é algo que se dá assim, é conquistado – ela já não lutava mais para parar as lágrimas que escorriam por sua bochecha e se sentou na cama, sentindo-se extremamente cansada de uma hora para outra.
- Eu te quero de volta – ele disse com a voz tão decidida que até fez Summer se assustar.
- Você diz isso agora mas não sabe merda nenhuma do que passei. Eu vejo todas as suas ligações e devo admitir que... também sinto sua falta – sua voz falhou um pouco ao dizer aquelas palavras, mas ela precisava tomar uma decisão, e não ia voltar atrás agora. - Eu só te liguei pra dizer que eu quero seguir em frente e você também deveria.
Após o acidente que acabou causando a morte de minha mãe, meu pai e eu ficamos sozinhos. Eu acabei me perdendo, passei a andar com pessoas erradas e meu pai que tem que arcar com as consequências dos meus atos. O problema é que ele já está cansado de repetir a mesma coisa todas às vezes que eu faço uma besteira – o que geralmente é todos os dias -, e resolveu, diga-se de passagem sem o meu consentimento, que seria melhor para todos nós que eu passasse um tempo num esquecido sítio da nossa família, longe o suficiente de qualquer perigo que eu possa arrumar. Só que o que nem eu e muito menos ele sabíamos, é que exatamente neste lugar histórias do passado seriam reveladas e transformariam completamente a minha vida.
As folhas da enorme árvore voavam soltas pelo vento, anunciando o início de mais um outono. Ela parecia tão frágil sem as folhas verdes de sua copa para lhe proteger. Igualmente assim parecia Sarah, que a cada dia que se passava ficava mais fraca.
Enquanto Thomas segurava sua mão, as memórias de cada momento dos cinco anos que passaram juntos rondavam a mente dele. Thomas sorriu ao lembrar-se do dia em que se conheceram. Ela tinha apenas quinze anos de idade e toda a timidez da menina o fez se apaixonar no mesmo instante em que a vira. A cada dia que ela ia desabrochando, como uma rosa, o sentimento de ambos somente aumentava e nenhum deles nunca se imaginou sentindo seu coração bater tão rapidamente com apenas o sorriso do outro.
Sarah achava que vê-lo sofrer por ela era pior do que sentir na pele as consequências de sua doença.
A garota desviou seu olhar perdido da folha que havia caído da árvore frondosa, vista pela janela do pequeno quarto branco do hospital em que se encontrava, e encarou sua mão entrelaçada com a de Thomas.
- Como será o amanhã sem você? - ela disse docemente acariciando a mão do rapaz – Esse é o nosso último adeus? - ela perguntou com a voz fraca.
Thomas odiava ouvi-la falando assim. Ele só descobriu a doença de sua namorada quando a mesma desmaiou durante uma briga boba do casal. Lembrar dela lhe dizendo que iria morrer era horrível, mas pior ainda era pensar que não demoraria muito para que o inevitável acontecesse. Desde então, ele tentou fazer com que os dias da garota fossem perfeitos, não hesitou em realizar nenhum desejo da mesma. Ele havia se tornado seu salvador. Mesmo sabendo que foi ela que o salvou, dando sentido à sua existência.
Sarah se ajeitou em sua cama e olhou para os olhos brilhantes de Thomas que tanto amava.
- Thomas... - ela sussurrou – como foi o verão para você? - ela perguntou a ele com um sorriso singelo em seus lábios – Me responda como será o amanhã sem você?
Ele lhe respondeu apenas com o silêncio de seu medo em perdê-la. Fechou os olhos e uma lágrima escapou deles, escorrendo por sua face e deixando um gosto salgado em sua boca.
- Por favor, amor, não chore. - ela disse cada vez mais fraca – Thomas, olhe para mim. - ele abriu os olhos e fitou Sarah, tentando controlar suas lágrimas – Preste muita atenção no que eu vou te dizer, porque eu não sei se aguentarei até o final. - os olhos dela lacrimejavam pronunciando as palavras.
- Sarah, não diz...
- Thomas, por favor, me deixe falar. - ela implorou a ele, que apenas balançou a cabeça para que ela prosseguisse - Eu sempre estarei com você. Eu sou a âncora do seu sofrimento. - as lágrimas já dominavam a face de Sarah, que tentava lutar para poder dizer suas últimas palavras – Não há fim para o que eu irei fazer. Sabe por quê? - Thomas balançou a cabeça negativamente deixando algumas lágrimas escaparem – Porque eu te amo. – Ela apertou a mão dele e respirou profundamente – Eu te amo até a morte.
Sarah levou as mãos entrelaçadas até a sua boca e a beijou. Fechou os olhos uma vez, respirou fundo todo o ar que aguentava e abriu os olhos novamente. Thomas enterrou sua cabeça na beirada da cama, apertando fortemente suas mãos com a da menina. O sofrimento era profundo demais para tudo o que ele conseguia sentir. E as últimas palavras de Sarah ficavam ecoando em sua mente como um disco no replay. Ele tinha plena consciência de que aquelas feridas nunca curariam, porque a dor daquela perda seria maior do que aquele pequeno quarto branco podia suportar.
Ele levantou sua cabeça e encarou as montanhas que o sul da Califórnia proporcionava por trás daquela mesma árvore que, há alguns minutos atrás, os olhos de Sarah fitaram. Thomas olhou para a face molhada pelo choro da menina, acariciou-a e disse:
- Eu sempre estarei com você, ao lado da âncora do meu sofrimento. - ele sorriu tristemente ao pronunciar aquelas palavras ainda carregadas de dor – Tudo o que eu sei, ou tudo o que sempre soube é que eu te amo. E vou te amar até a morte. - ele se levantou e selou seus lábios com os dela – Como será o meu amanhã sem você?
Sarah deu um leve sorriso ao ouvir as palavras de Thomas. O aparelho de batimentos cardíacos ia diminuindo aos poucos e as lágrimas de Thomas aumentavam vendo o que estava acontecendo. Ela deu um pequeno sorriso antes de fechar os olhos novamente, mas desta vez, para sempre. Ele tentou chamar por algum médico, mas já era tarde demais, Sarah já havia partido.
Os médicos pediram para o garoto se retirar do quarto e assim ele o fez. Enquanto tentava prender o choro assistia a tentativa de reanimação de Sarah pelo vidro do quarto. Porém, a única coisa que viu foi os médicos cobrindo Sarah com o lençol. Suas lágrimas aumentaram incessantemente e sentiu suas pernas bambearem. Sentiu seu coração quebrar em dois e logo em seguida, um imenso vazio tomou conta de seu ser.
- Porque eu te amo... - foi a última coisa que disse antes de ser retirado do local por alguns enfermeiros que chegavam ao quarto da menina.
Thomas deixou o hospital aos prantos e nem mesmo os fracos raios solares conseguiram aquecer seu coração partido pela ausência de Sarah. Foi em direção ao seu antigo apartamento, porém parou na praça que havia na esquina de sua rua. Sentou em um dos bancos de madeira e desabou a chorar. Chorou todas as lágrimas cabíveis a ele. Chorou feito uma criança perdida dos pais. Enquanto deixava suas lágrimas escorrerem por sua face, sentiu uma leve brisa tocá-lo. Sorriu e pensou em Sarah.
- Eu sei, você sempre estará comigo. - ele sussurrou enquanto uma última lágrima morria em seus lábios.
Thomas havia feito uma promessa à menina, e não seria agora que iria quebrá-la. Levantou do banco e seguiu em direção à sua casa.
Ainda era cedo, mas Thomas tentaria seguir seu caminho como Sarah pediu que o fizesse, porque o fato de que ela era a âncora de seu sofrimento é a lembrança do quanto foram felizes juntos, e saber que Sarah foi feliz em seus últimos dias era o suficiente para fazer a dor valer à pena.
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