Entre Baconzitos e Banquetes: o que as migalhas me ensinaram sobre o amor
Interessante como pequenas características em mim — tão pequenas — têm o poder de anular tantos elogios que já recebi na vida.
E acredito, de coração, que todo corpo minorizado entende isso. Não falo de militância, nem de vitimismo. Falo de vida sentida na pele, de cicatriz que pensa. De existir fora do molde e ainda assim ser chamada de forte, como se força fosse sinônimo de solidão.
Já ouvi que sou um mulherão. Que sou inteligente, daquelas mulheres que intimidam sem querer. Que converso sobre tudo, que sei cuidar, que tenho um tipo raro de presença — dessas que preenchem um quarto.
Mas basta que a verdade apareça, e ela sempre aparece, para que o encanto vire silêncio.
Basta que o que sou — inteira, vulnerável, trans, fora da norma, viva — se revele, para que o olhar que me admirava se torne o olhar que se despede.
E então, o que antes era fascínio vira medo. Ou fetiche. Ou fuga.
Não sei se é covardia do sexo dito forte ou só a dificuldade humana de amar algo que exige profundidade. Porque amar alguém como eu é mergulhar sem mapa, é atravessar um espelho que não deforma, mas devolve.
E muitos não suportam o reflexo.
Eu, ao contrário, não temo quem sou. Fui forjada no fogo, no cansaço de provar o óbvio: que existo, e existo com dignidade.
A coragem me habita desde sempre — mesmo quando o mundo me chamava de erro.
Mas há dias em que cansa. Há dias em que ser forte tem gosto de ferrugem. E eu só queria poder descansar o escudo, sem que o amor fugisse ao ver as marcas no meu peito.
Ser trans — assim como ser preta, gorda, fora do padrão — não é limite. É diferença. E diferença é a única coisa que impede o mundo de ser um cemitério de espelhos.
Por isso, digo com calma e veemência: eu quero, mereço e desejo.
Não me bastam amores apressados, afetos pela metade, olhares que me reduzem à coragem que carrego.
Não me alimentam migalhas travestidas de afeto. Não quero amores que pedem silêncio onde há fogo. Não quero pena, nem pedestal.
Quero um jantar completo. Quero o amor que senta à mesa, me serve com presença, e permanece até o prato esfriar.
E se for só baconzitos — essas promessas salgadas que enganam a fome — que ao menos me digam antes: é só isso que tenho para oferecer.
Porque eu e todas nós — as não normativas, as indomáveis, as inteiras — já aprendemos a escolher.
E entre um salgadinho que vicia e um banquete que nutre, eu fico com a fome digna. A fome de ser amada por inteiro. Com carne, alma, lágrima e riso.
A fome de existir sem precisar pedir desculpa por ter sobrevivido a tudo e ainda querer amor.

















