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O Amor Que Só Existiu Em Mim
Desde que me lembro de ser gente, Miguel sempre esteve lá. Éramos duas crianças de rua, crescendo lado a lado, dividindo picolés no verão, correndo de bicicleta até o entardecer e dividindo segredos que ninguém mais poderia ouvir. Ele tinha esse jeito calmo, um sorriso que abria o rosto todo, e um olhar doce que, por anos, eu jurei que brilhava só para mim.
Ele me tratava com um cuidado que parecia mais do que amizade. Me segurava a mão quando atravessávamos a rua, me defendia de qualquer brincadeira maldosa dos outros meninos, me ouvia por horas quando eu chorava por qualquer bobagem ou quando sonhava alto demais. Quando saíamos com o grupo de amigos — tardes no parque, noites de conversa na calçada, passeios até a praça principal — tudo parecia perfeito. Eu ria com ele, ele ria de mim, e cada gesto seu, cada palavra doce, cada vez que ele me puxava para mais perto para me proteger do vento ou da multidão, eu guardava no peito como uma prova: ele sente o mesmo.
Eu cresci com esse amor quieto, guardado, mas vivo. Aos poucos, a menina que brincava de boneca ao lado dele virou uma jovem que olhava para ele com o coração apertado, cheia de sentimentos que já não cabiam mais só na amizade. Cada dia que passava, a certeza crescia: era ele. Sempre foi ele. O meu primeiro e único amor. E eu tinha absoluta fé que, se eu tivesse coragem de falar, ele diria sim. Que ele também esperava por mim.
Até que o dia chegou. Uma tarde de maio, o céu azul claro, nós dois sentados no nosso lugar preferido — o banco de madeira no fim da rua, onde passamos tantas tardes. Minhas mãos suavam, meu coração batia tão forte que eu achava que ele podia ouvir. Respirei fundo, reuni toda a coragem que eu tinha, e falei. Falei de cada momento, de cada olhar, de como ele era o meu mundo desde pequena, de como eu o amava com tudo o que havia em mim. Falei com a voz trêmula, mas cheia de esperança, esperando que ele me abraçasse e dissesse que sentia o mesmo, que também esperava por esse momento.
Mas o silêncio que se seguiu foi pesado, doloroso. Miguel abaixou os olhos, aquele olhar que eu amava agora cheio de uma ternura triste, e quando ele falou, cada palavra pareceu uma facada.
— Eu amo você, sim — disse ele, devagar, com aquela voz doce que eu conhecia tão bem — mas é um amor de amigo. O maior, o mais verdadeiro amor de amigo que alguém pode ter. Você é a minha irmã de alma, a pessoa mais importante da minha vida, mas… nunca foi amor, não desse jeito.
O mundo parou. O chão pareceu desaparecer debaixo dos meus pés. Todo aquele tempo, todos aqueles gestos, todo o carinho que eu interpretei como amor… era só amizade. Só. A dor veio forte, súbita, cortante — como se alguém tivesse partido o meu peito ao meio. Eu senti vergonha, tristeza, desespero, tudo de uma vez. Tudo o que eu acreditei, tudo o que eu sonhei, desmoronou naquele instante.
Eu não consegui dizer nada. Apenas olhei para ele, sentindo as lágrimas queimarem os olhos, e então virei as costas e fui embora. Não olhei para trás. Não queria ver a expressão dele, não queria ouvir mais nada. Corri para casa, tranquei meu quarto, e ali, sozinha, deixei toda a dor sair.
Nos dias que se seguiram, eu me fechei. Me isolei do mundo, dos amigos, e principalmente dele. Não atendia as mensagens, não saía de casa, evitava passar na rua onde ele morava, evitava qualquer lugar onde pudesse encontrá-lo. Cada lembrança doía — cada risada, cada passeio, cada gesto doce que agora eu via com outros olhos. O meu amor, que sempre foi algo bonito, leve, cheio de esperança, agora era um peso, uma ferida aberta que eu carregava comigo para todos os lados.
Eu o amava ainda. Amava com a mesma força, com a mesma profundidade de sempre. Mas agora, esse amor não tinha lugar. Ele não podia ser dito, não podia ser vivido, não podia ser correspondido. Ele era meu, só meu — um segredo doloroso que eu guardava trancado no peito, entre as memórias de uma infância feliz e o coração partido de quem descobriu que nem todo amor que parece ser, realmente é.
E ali, no silêncio do meu quarto, eu aprendi a conviver com isso: que o amor pode ser imenso, verdadeiro e bonito, mas ainda assim, não ser suficiente. E que às vezes, a pessoa que mais amamos no mundo… é exatamente a pessoa que só pode ser nosso amigo. E dói. Dói mais do que qualquer coisa que eu já senti. Mas ainda assim… eu o amo. E talvez, por muito tempo, eu ainda vá amar. Em silêncio. Sozinha. Com o coração partido, mas cheio dele.
— T.
Nadie esta listo para huir de donde quiso quedarse para siempre.
La vida nos enseña que hay personas que no son malas, simplemente no son sanas para nosotros.
Éramos bom em tudo
Inclusive na intuição
Só por hoje eu não vou querer dormir
Andamos estranhos demais
Eu nunca mais vou dormir se ela me deixar
Agora ela está procurando uma saída
Tudo bem
Não há justificativa para sua partida
Mas isso iria acontecer algum dia
Uma hora as coisas vêm à tona
E as máscaras caem
Se eu estivesse pensando direito
Éramos bom em tudo
Inclusive na intuição…
- O Alcoólatra

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A coisa com ciclos é que eles se repetem. Há uma naturalidade inerente nisso que deveria ser reconfortante. Não é. A minha coisa específica com ciclos é que eu sempre sei onde estou, sempre sei pra onde eu vou, mas essa consciência não é o suficiente para que algo seja, de fato, feito com isso. Então eu só sigo. Como uma corrente marítima presa ao seu caminho natural, revolta e confusa porque não há um destino final. Há? Não sei dizer. Também não sei dizer há quanto tempo eu estou aqui embaixo, sem respirar. Em algum momento acabei me convencendo que não preciso de oxigênio. Que a água salgada é tudo que existe, e que a pressão da corrente é ao mesmo tempo meu algoz e minha única companhia. Como eu poderia viver sem a única coisa que me impulsiona pra frente? Como eu poderia viver sem as bolhas que são meu único contato com o ar? A coisa >real< com ciclos é que eles são a única forma que eu sei existir. Talvez eu só esteja dando uma grande volta no oceano. Ou uma pequena. Ou uma média. Não importa. O que importa é que, às vezes, a corrente perde a força. E isso deveria ser bom, mas quando ela não existe, nada me tira do lugar. Eu quero sair do lugar. Eu não quero sair do lugar. Eu quero existir além deste oceano. Eu não quero existir. Eu queria que o ciclo acabasse. Mas se ele acabar, quem eu sou? Quem eu sou além de todo o sal e o lodo e a falta de ar? Não importa. Porque a corrente tá puxando de novo, e agora não tem bolhas, mas eu vou, inevitavelmente, continuar a nadar, mesmo que eu tenha desaprendido a como respirar.
aa.
Vida. Ou me mata ou me deixa viver...
A gente quer fazer durar, quer esticar o final, quer inventar um "pra sempre" onde só cabia um "enquanto isso".

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domingo con D de:
- depresión
- disociar
-desaparecer
-dormir
o perigo de verdade acontece quando a gente confundi a mascara com nosso próprio rosto.

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Eu me afastei não porque deixei de amar, mas porque amar também é saber parar.
RFC
“Talvez desejar que nunca tivesse acontecido seja o modo mais sincero de confessar que ainda dói.”
— Pobre Saturno.