𝓢𝐎𝐋𝖣𝖤𝓜𝐎𝐑𝐀𝐍𝐆𝐎, um diário de pessoas perdidas em mundos que não deveriam estar. Transcrito por 𝐀lina, uma 𝐄scritora que vive atrasada e desorganizada.
ఌ · 𝓑𝖺𝗋𝖻𝖺𝗋𝖺 𝓜𝖾𝗋𝗅𝗂𝖺𝗁 𝓢𝗎𝗆𝗆𝖾𝗋𝗌 𝓡𝗈𝖻𝖾𝗋𝗍𝗌 (Barbie em Vida de Sereia) ⸻ sereia do Westbridge Aquarium e atendente na Bakey Bitty Berry. É conhecida por ser competitiva, paqueradora e espirituosa. Tem vinte e quatro anos e mora em Bridge Quarter. De longe, lembra Madelyn Cline.
ఌ · 𝓒𝗈𝗇𝗇𝗈𝗋 (Detroit: Become Human) ⸻ carregando!
ఌ · 𝓒𝗈𝗋𝖺𝗅𝗂𝖾 𝓗𝗈𝗇𝗀 (Alice no País das Maravilhas) ⸻ proprietária da Bouquet Pie e atriz, cantora de ópera e antiga prima-ballerina do Bridge Theatre. É conhecida por ser elegante, dramática e romântica. Tem trinta anos e mora em Westmere. De longe, lembra Bae Suzy.
ఌ · 𝓙𝗂𝗇𝖺 𝓚𝖺𝗇𝗀 𝓖𝗈𝗋𝖽𝗈𝗇 (Arcane) ⸻ conhecida como Powder, garçonete do Foundry Pub. É conhecida por ser engenhosa, agitada e imprevisível. Tem vinte anos e mora em Eastline. De longe, lembra Jang Wonyoung.
ఌ · 𝓟𝖾𝗋𝗂𝗐𝗂𝗇𝗄𝗅𝖾 𝓡𝗈𝗌𝖼𝗈𝖾 (Disney Fairies) ⸻ meteorologista e pesquisadora na Universidade de Westbridge. É conhecida por ser dócil, aventureira e ingênua. Tem vinte e sete anos e mora em Ashgrove. De longe, lembra Kristine Froseth.
ఌ · 𝓨𝗈𝗋 𝓑𝗋𝗂𝖺𝗋 (Spy × Family) ⸻ pesquisadora da Oscorp, voluntária na fundação Nalbantoğlu e assassina de aluguel. É conhecida por ser paciente, cortês e reservada. Tem vinte e sete anos e mora em Westmere. De longe, lembra Ju Jingyi.
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𝓤m pedido para a mesa de 𝓙amie 𝓣aylor, preparado no 𝓡iverside 𝓟ark ⸻ @crimsonchars, venha buscar!
Jina zanzava de um canto para o outro feito uma formiguinha desorientada, carente de lar e de uma missão de vida, mas seria impossível possuir um objetivo mais claro. Destroçada pela constatação de que, não, Fishbones — o tubarão de pelúcia — não estava escondido no banco onde ela já procurara mil vezes, ela cedeu. Derreteu como sorvete preso ao calor do sol, colapsando no frescor enervante da grama, deixando que ela pinicasse e beliscasse à vontade a pele pálida.
❛❛ É o fim ❜❜, ela resmungou, com a vozinha abafada pelo braço, feito de escudo para protegê-la do mundo e de almofada. ❛❛ Vou me demitir. E vou sair da cidade. Na verdade, não vou fazer nadinha de nada, já que não tenho mais razão pra viver. ❜❜
Aquele era o castigo que ela merecia por ignorar sua intuição. A sua cama parecia especialmente confortável e convidativa, perfeita para Jina desperdiçar o resto do dia dormindo até precisar acordar para enfrentar o caos adorável do Foundry Pub. Se não fosse a sua decisão insensata de abandonar o seu ninho de pelúcias e cobertores, Fishbones ainda estaria com ela.
❛❛ Isso é culpa do prefeito. ❜❜ Ainda não entendia como, mas era. Jina pescou a força que precisava para conseguir se reerguer e sentou-se, esmagando as bochechas nas mãos. ❛❛ E se algum pirralho catarrento levou o Fishbones quando eu virei a cara? Pior, e se um corvo passou e o levou para o covil do diabo? Eu odeio corvos! Menos um. Ele nunca roubaria o Fishbones. Isso não existe! Eu sempre deixei o Fishbones sentadinho e nada nunca aconteceu. Agora, quando eu resolvo fazer a melhor coisa do mundo, ele some?! ❜❜ A melhor coisa do mundo em questão era rodopiar num balanço improvisado até as pessoas que passavam começarem a suspeitar que os órgãos de Jina pulariam corpo afora a qualquer momento. Ignorantes, claro, que desconheciam seu recorde na montanha-russa do Dreamsselmeyer. ❛❛ Não! Alguém fez isso. Alguém precisa pagar. Eu… eu… eu vou… ❜❜
O que ela faria?
❛❛ Explodir a prefeitura ❜❜, decidiu. Parecia uma solução razoável. Pela primeira vez desde que começara a entrar em desespero, ela olhou para Jamie, vítima do infortúnio de passar perto de Jina bem quando ela percebeu que Fishbones não estava onde ela o deixara. ❛❛ Perfeito, Jamie-jam! Por que não pensou nisso antes? ❜❜ Jina levantou-se, apoiando as mãos nos ombros. ❛❛ Agora eu só preciso… ❜❜ Silêncio. ❛❛ Mas eu não quero explodir pessoas! Vai ter sangue pra todo lado! E cadáveres! Nãããããão! ❜❜ Parecia até que alguém estava apontando uma arma para a cabeça dela e a obrigando a explodir a prefeitura. Coisa que ninguém estava fazendo. Tropeçando adentro da espiral de desespero mais uma vez, ela começou a andar em nervosos círculos. Sua vida estava acabada.
Preocupar-se com Powder era um post-it constante em sua mente, pintado em pequenos desenhos como aqueles que ela fazia quando mais nova, ainda guardados em uma caixa que levara consigo quando se mudou de casa. Tentava não ser uma irmã helicóptero, mas era difícil ignorar o ímpeto de checar como ela estava constantemente, principalmente após algumas reclamações de vizinhos quanto a barulhos e um aviso de bombeiros que fez com que Barbara e Jim corressem com medo de algo ter acontecido com ela. No fim, foi uma das criações inventivas de Powder, como costumava se referir aos seus experimentos, e o resto do dia foi reservado a acalmar os vizinhos e trocar o papel de parede (não livrando a irmã de ouvir sermões). As duas eram opostos em muitas coisas, onde Barbara era o cérebro, Powder era o coração, ao menos era assim que via as coisas.
Seu olhar seguiu o dela, sabendo exatamente o que passava em sua cabeça. Não foram poucas as vezes em que objetos acabaram sendo jogados quando Barbara estava distraída e ela chegava sem cerimônias. Não sabia dizer porque fazia isso, tão assustada com imprevisibilidades de sons e movimentos. Suspirou, um suspiro que indicava o quão cansava estava pelo dia de trabalho. "A diferença é que eu trabalho aqui, e o lugar estar vazio e escuro é indicativo que pessoas de fora não deveriam estar aqui a essa hora." Explicou, não concordando com a justificativa alheia. "Aliás, há quanto tempo você está aqui? Eu não te vi entrando." Não era como se Barbara prestasse atenção em todas as pessoas que entravam o tempo inteiro, mas sabia pelo histórico da irmã aquela pergunta poderia trazer respostas inesperadas.
Não gostava também de ser a irmã chata, a que apenas briga e repreende, e Powder parecia ter vontade de ajudar, e gostava de passar um tempo com ela. O suspirou que soltou dessa vez foi como uma trégua. "Estou terminando de organizar os livros daquelas mesas. Tivemos um momento de leitura com as crianças" Indicou com a cabeça o espaço infantil, onde ficavam a maioria dos livros infantojuvenis. "É só recolher os livros das mesas das crianças e colocar na mesa maior, e eu coloco nas prateleiras." Tinha um sistema de onde cada livro ficava, caso se perdesse precisaria atualizar o acervo.
Olhando para a mais nova, Barbara sorriu e colocou a mão sobre a cabeça dela em um carinho em seus cabelos, como fazia quando eram crianças. "Obrigada pela ajuda, Pow. Vamos começar?"
Um alerta mudo ressoou na cabeça de Jina, banhando de vermelho os pensamentos irrefreados — vermelho piscante, como piscavam as sirenes de ambulância e os alertas impacientes de uma viatura. Ergueu suavemente as sobrancelhas, preocupada com a exaustão arrastada no suspiro da irmã. Barbara parecia querer, sozinha, levar nos ombros o fardo do céu e suas estrelas. Se fosse fácil, Jina a faria entender que ela não precisava, repetiria até que as palavras escorressem e adentrassem a cabeça de Barbara, mas poucas coisas eram fáceis com as irmãs Gordon.
❛❛ Tá tudo bem? ❜❜, ela perguntou mesmo assim. Claro que perguntaria. ❛❛ Como é? Mas eu não conto como pessoa de fora! Sou a irmã da bibliotecária-chefe. Tenho meus privilégios. ❜❜ A lógica do argumento equilibrava-se, frágil e inconsistente, em mero afeto familiar e nada mais. Os donos do Foundry Pub deixavam Powder fazer mais coisas do que ela provavelmente deveria, mas ela não arriscaria pensar que eles deixariam Barbara entrar no bar fechado para… preservar o laço de irmãs. Se bem que aquele era um exemplo condenado ao fracasso. A própria Powder sempre era dispensada antes do bar fechar. ❛❛ Sou muito discreta ❜❜, brincou, com um sorriso mais do que orgulhoso. ❛❛ Na verdade, não sei. Minutos? Horas? Queria um lugar quieto… quieto de verdade! Daí me enfiei debaixo de uma mesa e saí quando vi que estava começando a esvaziar. Preciso de espaço pra ler em paz. Muito espaço. E a biblioteca estava cheeeia! Daí fiquei sem luz e liguei o celular, mas daí o meu celu… meu celular! Esqueci meu celular! ❜❜
Jina olhou para o vazio aterrorizante em suas mãos, sacudindo os dedos como se o seu desespero pudesse materializar o aparelho, mas se acalmou num piscar de olhos. Só ela e Barbara estavam ali. Seu celular não criaria pernas e sairia andando. Provavelmente.
❛❛ Depois eu pego. ❜❜ Não era como se vivesse colada a ele, afinal — vivia esquecendo de ligá-lo e vivia ignorando o acúmulo criminoso de mensagens aguardando a sua resposta. Voltou-se para a irmã com uma espécie de calma renovada, especialmente ao perceber o renascer da paz entre elas. ❛❛ Fácil! Um instantinho e eu já acabo. ❜❜
O estalo dramático das juntas foi o efeito escolhido para ornar o momento. Powder mirou os livros espalhados, distraindo-se ao considerar a estratégia mais eficaz para coletá-los. Surpreendeu-se com o peso repentino e delicado em sua cabeça, mas logo desabrochou no mais verdadeiro dos sorrisos. Assentiu, entusiasmada, e se apressou para ocupar as mãos. O silêncio concentrado não perdurou por mais do que minutos insignificantes.
❛❛ Mentira! Não acredito. Olha o que eu achei! ❜❜ Mantendo um suspense que pareceu eterno, Jina demorou até pescar, do fundo de um amontoado confuso de livros e revistinhas infantis, o Big Book of Big Sea Creatures. Era apenas um entre vários livros que Barbara lia para ela quando mais nova, mas sustentava o seu posto como um dos prediletos da pequena Jina. ❛❛ Faz eras que não vejo essa carinha! Nunca mais o achei lá em casa. E olha que revirei tudo! ❜❜ E ela não costumava aventurar-se pela sessão infantojuvenil da biblioteca, senão para buscar exemplares específicos para uma das crianças que cuidava. Abriu a boca para falar mais, mas um som seco ecoou do fundo obscuro da biblioteca. Jina quase largou o livro azul de susto e o abraçou ao próprio corpo para prevenir o desastre, procurando instantaneamente o olhar da irmã mais velha. ❛❛ Ouviu o que eu ouvi? Ou eu tô viajando de novo? ❜❜ Era uma possibilidade. Quando sozinha, era impossível dizer se um som era real ou não, mas acompanhada, existia ao menos a palavra de outra pessoa.
❝ regra número um em encontros: a roupa é tudo! ❞ clover anunciou enquanto surgia do estoque da loja com uma pilha imensa de roupas. não sabia para onde powder iria, mas era importante que estivesse bem vestida, então clover garantiria que a amiga saísse daquela loja com uma peça babilônica em mãos. ❝ vai ser o primeiro impacto, sabe? é lá que a pessoa que você está saindo vai dizer: ah, então essa é a personalidade dela! moda é expressão. ❞ por mais que ainda acreditasse que seu verdadeiro destino fosse nascer herdeira de alguma fortuna absurda de grande, ela gostava de trabalhar ali porque estava mexendo com alguma coisa que realmente se considerava boa e levava a sério. clover se orgulhava do fato de que muitas clientes voltavam depois para contar como suas sugestões tinham funcionado perfeitamente. ❝ não só em encontros românticos, podemos dizer o mesmo para entrevistas de emprego, fazer novos amigos, primeiro dia conhecendo os familiares da pessoa que está namorando... ❞ continuou, enquanto começava a separar as peças no balcão. em seguida, ergueu os olhos castanhos para powder e a analisou com atenção. queria tentar decifrar mais detalhes do programa que a tinha levado até a chic boutique naquela tarde. ❝ eu trouxe as combinações mais fashions que temos aqui! agora precisa me dizer, qual é o tipo de programa e o que você quer passar para a pessoa que vai encontrar. isso muda tudo! ❞
Powder irrompeu em aplausos ao assistir à ressurreição de Clover, animada como uma fiel que via a santa erguer-se das águas. Já estava começando a se preocupar com a demora, mas a pilha imensa era prova de que a paciência era uma virtude. Vez ou outra.
❛❛ A roupa sempre é tudo! ❜❜ Clover parecia uma das únicas — senão a única — pessoas da cidade que compreendiam a obsessão de Jina. Poderiam não viver de estilos em acordo, mas uma poderia entender a outra quando diziam que, se a roupa delas do dia não estivesse boa, então já era um dia condenado. Nada de bom viria dele. Jina preferia afogar-se em mares de velharias de brechós desordenados do que comprar em lojas comuns, mas a Chic Boutique era uma das poucas exceções. Por adorar a extravagância vibrante das peças, sim, mas por culpa esmagadora de Clover. Ela era a sua fada da moda! ❛❛ O que é que você vestiria pra conhecer a família do seu futuro consorte? Já sei o que você usaria num primeiro encontro com o amor da sua vida, mas a família já é outra coisa! ❜❜
Jina aproximou-se do balcão a passinhos entusiasmados, bisbilhotando as peças com uma curiosidade faminta cintilando nos olhos. Quase ia esquecendo de que existia uma missão a cumprir, e estalou, boquiaberta, os dedos.
❛❛ É verdade! Escuta só: é uma emergência. Emergência emergencial! Meu amigo vai dar uma festa de aniversário hoje… o aniversário dele foi na terça-feira, mas ninguém podia dar as caras na terça… sabe aquela lojinha abandonada que fica lá no finalzinho da rua do Dreamsselmeyer? A que é assombrada? Já que estava vazia mesmo, descontando os fantasminhas, começaram a usar pra eventos desde que o salão de festas… sabe… desabou. Até aí tudo bem: fui me aprontar, lavei meu cabelo… dá pra sentir o cheiro? É xampu novo! ❜❜ Jina agitou os cabelos, como se quisesse espalhar o aroma de laranjinhas pela boutique inteira. ❛❛ Sequei o cabelo, abri o guarda-roupa, passei pela pior coisa que qualquer pessoa poderia enfrentar, Clovie! A roupa! Não tinha nada pra vestir! Nada, nadinha, nadica de nada! ❜❜ O monte desordenado de peças que Jina abandonara no quarto quando partiu correndo para a loja poderia, infelizmente, discordar. ❛❛ Meu coração quase caiu pra fora do peito. Tá, deixa eu pensar, deixa eu pensaaar! Não quero estar vestida pra caçar o meu futuro consorte, mas quero estar vestida pra possibilidade de achar, por acaso, o meu futuro consorte. Não quero estar preparada pra atacar, mas quero estar pronta pro ataque. Tô pronta pra queimar o tribufu e dar as cinzas pro primeiro fumante que eu achar na rua! ❜❜
O alvo em questão era o primeiro e último namorado de Powder, universalmente odiado por seus amigos, família e até clientes do bar — que nem sequer o conheciam para além das fofocas soltas — por fazer da adolescência de Powder o pior dos pesadelos. Ela parou, franzindo o nariz para o nada.
❛❛ Se bem que não sei se eu quero achar meu futuro marido… ou futura esposa… numa lojinha abandonada de Eastline. Queria uma coisa mais romântica. Escuta, escuta, escuta! Eu estou aqui, você está ali… você é o futuro marido no cenário… estamos no aquário, vendo os tubarões, e daí você me pergunta se eu sei algo sobre o triaenodon obesus, eu uso o meu arsenal de anos de fatos pra te impressionar e a gente passa o dia olhando tubarões. Você pede o meu número na saída do aquário, anos se passam, a gente se casa e compra uma casinha na praia e vivemos felizes pra sempre e sempre e sempre! ❜❜ Jina agarrou as mãos de Clover, pulando em círculos de euforia só de imaginar. Poderia até parecer que ela estava vibrando enlouquecida pela ideia de casar e construir o seu final feliz, mas era por imaginar-se passando o dia no aquário, sem fazer nada que não fosse olhar seus animais prediletos. Um suspiro encantado escapou pelos lábios. ❛❛ Ai. Quero ir no aquário. ❜❜ Desvencilhando-se delicadamente da pobre Clover, ela relembrou, num susto, que precisava resolver seu problema antes do anoitecer. ❛❛ A festaaa! Clovie, a festa! O que eu faço? O que eu vou vestir? Eu vou morrer! ❜❜
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Dançando entre a desordem de mesas do bar e o vozerio que desalinha da melodia dos discos envelhecidos, ainda está para nascer uma espécie de caos que 𝓙𝐢𝐧𝐚 não domine. Não precisamente por aptidão, mas por consagrar-se uma força imparável da natureza que excede qualquer outra: um perpétuo furacão azul que dorme pelo dia e acorda ao despertar da noite. Se não estiver servindo bebidas pelo Foundry Pub e nem importunando as irmãs e o pai, é provável achá-la realizando experimentos científicos duvidosos, costurando novas pelúcias, inventando engenhocas peculiares ou se enfurnando em propriedades abandonadas da cidade — por mera curiosidade insaciável. Aos vinte anos, vive em uma busca constante de formas de matar o ócio e reacender seu interesse por uma vida que, apesar de querida, carece de uma coisa que ela não ousa nomear e nem conhecer por medo do que poderia encontrar.
Jina mal se lembra dos olhos dos pais de sangue e do carinho que ressoava em suas vozes. Mortos em uma intervenção policial, o futuro ordinário da pequena família foi quebrado em mansa e simples indiferença. O responsável nunca foi punido, mas as irmãs, carentes de qualquer laço familiar que não fossem os cadáveres dos pais, foram deixadas aos cuidados precários do orfanato. Inundado de mais crianças do que poderia suportar, crianças diferentes e suas demandas intermináveis eram sufocadas por olhos que nunca queriam demorar-se nelas, rejeições ensurdecedoras e quietas, e o crescente ressentimento de cuidadores sobrecarregados. Por mais fervoroso que fosse o desejo do orfanato de ver Jina porta afora, nenhuma família a suportava por mais do que alguns dias. Encantavam-se pela aparente quietude da menina — era medrosa, e confundiam o seu medo por educação —, e só depois descobriam os choros que não paravam mais. Os acidentes constantes e pertences quebrados. As visões de coisas que ninguém, senão ela, via. As manias incompreensíveis, a saudade da irmã de sangue, a agitação. Era mais do que qualquer família era capaz de suportar, diziam, lembrando ao orfanato com rostos consternados que aquela não era a filha que esperavam. Não era a criança que queriam. Selavam mais uma devolução e buscavam a filha dos sonhos em outro berço.
De cada cicatriz de abandono, passou a acreditar nos sussurros das famílias que a deixavam e nas vozes conspiratórias em sua cabeça. Quando fugiu do orfanato, não foi com um destino ecoando na cabeça. Não conhecia nada e nem ninguém. Não queria ser nada e nem ninguém. Não sobreviveria mais do que um dia sozinha na rua, e quiçá a primeira concessão de sorte do destino foi colocar James Gordon em seu caminho. O acolhimento não foi planejado, e a permanência ainda menos. A única família que não a recebeu com a pretensão de continuar com ela foi, enfim, a única família que nunca se desfez de Jina. Um dia, ela percebeu que não queria mais ser abandonada. Queria ser alguém. A única coisa que demorou a compreender foi que já fazia parte da família.
Cresceu junto de Barbara, adorando-a apesar do contraste marcante entre as duas, e esperou até que ela estivesse longe para chorar feito uma criança quando Barbara mudou de casa — quem a olhasse até pensaria que as irmãs estavam prestes a ser divididas por um enorme continente, e não por um bairro. Ainda mora com o pai, sempre procurando espacinhos para colorir (missão que se prova cada ano mais difícil) e, enquanto não decide o que quer cursar na faculdade e muito menos o que fazer com a própria vida, acomodou-se no Foundry Pub.
ଓ⠀ ؛⠀ CURIOSIDADES.
Tem obsessões que perecem, nascem, cedem lugar e existência para outras, às vezes caem no esquecimento, e em outras vezes só vivem aguardando o momento de renascer. Um exemplo de obsessão que resistiu aos desafios do crescimento, mudanças de fases e de ideias, foi a sua paixão por tubarões. Acumulou, ao longo dos anos, um repertório decorado de documentários, enciclopédias, pesquisas e imagens eternizadas em seus pensamentos. Quando alguém precisa presenteá-la, objetos que lembram o animal são a primeira das ideias consideradas — uma escolha previsível, mas sempre certeira.
Recebeu dos pais de sangue o sobrenome “Kang” e do pai adotivo o sobrenome “Gordon”. Veste ambos como amuletos, e assim se fez Jina Kang Gordon. É conhecida como Powder, apelido concedido a ela no orfanato — não por lisonja. Pequena, esquelética e pálida como era, as outras crianças viam nela um alvo fácil. Foi ressignificado como afetuoso por pessoas queridas, mas o outro apelido, inventado na mesma época, foi enterrado e afundado nas lembranças de Powder.
Seu quarto é uma overdose de cores, pertences e barulhos: uma avalanche de arco-íris brilhantes e barulhentos, ensurdecendo os sentidos de visitantes desavisados. É a inimiga mais pavorosa do minimalismo. Tem casas de bonecas, sapatilhas coloridas e velhas de balé, pelúcias vibrantes, uma mesinha de chá e cadeiras para ela e seus amigos, fotos da família penduradas, materiais intermináveis de costura e pintura, pilhas de livros e DVDs de capas personalizadas, penteadeira, rádio e vitrola (azul e cor-de-rosa, respectivamente), uma cabana que ela usa de refúgio quando não quer ver a cara de ninguém, lâmpadas que lembram águas-vivas pendendo do céu do quarto, uma coleção avassaladora de coisas de tubarões e… se continuarmos, nunca mais acabaremos. Durante o dia, os vidros coloridos das janelas — um improviso da própria Jina, que queria imitar o efeito dos imponentes vitrais das igrejas — realçam ainda mais os desenhos das paredes, acumulados e espremidos pela falta de disposição de espaço, e os armários e prateleiras pintados à mão. No chegar da noite, quando ela se apronta para desligar o sistema quase imparável do próprio corpo, ela liga o projetor de estrelas que recebera de presente do pai ainda menina, quando não conseguia dormir em uma casa desconhecida, desencaixada em uma família que ainda não entendia como a sua. Powder acredita que as estrelinhas do projetor carregam um poder quase religioso: nas poucas vezes em que ousou dormir sem ligá-las, foram as noites de piores pesadelos da sua vida. Segue um sistema próprio de organização e limpeza para o seu quarto e, apesar do amontoado vibrante provocar até mesmo vertigem para quem o vê pela primeira vez, ainda reserva caminho para locomover-se livremente, dançar e pular pelo quarto — coisas indispensáveis para Jina, conhecida por não conseguir parar quieta por mais de um minuto.
É fluente em coreano, alemão, dinamarquês, francês, português, mandarim e japonês, feitos conquistados a vapor da monomania e a mais crua e pura força de vontade. Quando cisma com uma ideia, ninguém é capaz de arrancá-la da cabeça de Jina. Aprendeu coreano para aproximar-se mais dos falecidos pais, mas absorveu os demais idiomas, na vasta maioria dos casos, por acabar obcecada por um artigo ou livro de algum pesquisador marinho e estar disposta a qualquer loucura para lê-lo em seu idioma original. Quando decide que quer aprender um novo idioma, isola-se no quarto com uma quantidade preocupante de latinhas de energético e ameaça começar a rosnar para quem ousa conversar com ela em qualquer língua que não seja o foco de seu aprendizado — é bom preparar o Google Tradutor!
Apesar do histórico escolar impecável, não ingressou na faculdade após formar-se no ensino médio por… razões que ela mesma desconhece, ela diria, mas a verdade é um pouco mais embolada e vulnerável. Não faz a menor ideia de qual é seu propósito — se é que existe algum —, e sente, no fundo, medo de descobri-lo. Uma profunda insegurança a afunda ainda mais em sua inércia: apesar de espertíssima — mais avançada do que a maioria dos alunos da classe —, era detestada pelos professores. Conversava demais, não conseguia ficar parada na cadeira, queria escapar das salas de aula quando acabava inevitavelmente entediada pela falta de desafios e estímulos intelectuais, e assim acumulavam-se reclamações intermináveis. Sensibilizada pela rejeição escancarada dos professores e de alguns colegas, começou a duvidar cada vez mais de si mesma, até chegar ao que é hoje.
É ciumenta. Muito ciumenta. Sente ciúmes de amigos, família e até mesmo de certos objetos, comidas e canções. É assim desde… sempre — já chorou de ciúmes quando era pequena e viu o pai elogiando outra criança que não era Jina e nem Barbara, e passou dias emburrada com a irmã quando ela acariciou a cabeça de outra menina que não era ela —, e nunca conseguiu curar de fato o sentimento venenoso. Hoje em dia, até que exerce razoavelmente bem o seu autocontrole — parou de fazer caretas para amizades recém-conquistadas de seus melhores amigos, por exemplo — em frente a outras pessoas, mas o risco de vomitar de ciúmes em seu quarto continua altíssimo. Uma ameaça constante. A suposta evolução espiritual ainda é incapaz de impedi-la de dizer “não sei, vai ver com o seu amiguinho” e coisas parecidas, mas quem sabe um dia…
Seus cabelos crescem a uma velocidade inconveniente. Para evitar acidentes e distrações desnecessárias, Jina os arruma em longas tranças — que podem ser usadas como arma de provocação, quando ela as agita e mira bem no nariz de alguém —, escorridas até as coxas. Já pintou o cabelo de loiro, rosa, azul e arco-íris, mas sempre volta para a cor azul. É sua cor mais elogiada, e brincam pela cidade que é a sua cor natural. A verdadeira cor natural dos cabelos, infelizmente, sempre reaparece pouco após um retoque da raiz, revelando o preto monótono outra vez.
Desconsiderando a sua mania de invadir lugares interessantes, fazer experimentos duvidosos e perambular a cidade de madrugada, é surpreendentemente comportada. Não bebe — o conviver constante com bêbados certamente afastou qualquer possível interesse —, nem fuma, e não faz nada que considere verdadeiramente errado, o que… confunde quem acha que ela faz parte dos piores elementos de Eastline. Não só foge de confusões que desaprova, como ainda conta para o pai e para a irmã mais velha — uma verdadeira fofoqueira.
É a pior vizinha que alguém poderia desejar. Liga músicas a um volume de estremecer a rua ainda cedo da manhã, martela e quebra coisas em momentos inconvenientes, e já quase matou os vizinhos de susto quando, num experimento mais do que questionável, botou fogo em uma cadeira e em uma das paredes de casa. De vez em quando, compensa pelos atentados contra a paz da vizinhança: resolve problemas que exigiriam eletricistas que cobrariam uma fortuna, conserta coisas quebradas e agracia-os com potinhos de comida ou convites para o almoço quando prepara mais comida do que deveria… Ela pensa em acatar as queixas e baixar o volume do rádio? Claro que não. Isso já é pedir muito. Até demais!
Extremamente vaidosa, não renuncia à sua maquiagem, seus acessórios e unhas feitas por nada no mundo. Diverte-se em experimentar estilos diferentes de maquiagem — brilhantes, coloridas, cheias de adesivos e pedras —, ama vestir-se com sobreposições e combinações inusitadas, e possui um verdadeiro arsenal de manicure em seu quarto. Vive de plataformas escandalosamente altas para disfarçar a pouca estatura (um metro e meio não é razão de orgulho para ninguém), e construiu seu armário com muita paciência, visitas a brechós e personalizações feitas a partir dos próprios dedinhos.
Costuma desbravar a cidade em sua bicicleta ou em seus patins. São reconhecíveis de longe, já que, como absolutamente qualquer coisa que pertence a Jina, são escandalosamente coloridos e decorados, rivais da discrição. Orgulha-se, em especial, dos patins, personalizados com rodinhas que brilham e brilham no escuro.
Tem um coração mais sensível do que aparenta. Chora facilmente por inconveniências que qualquer outra pessoa julgaria por ridículas, emociona-se — para o bem e para o mal — com igual facilidade, e apesar de sua impulsividade lembrar a face da coragem, é medrosa para certas coisas. Tem pavor de ver sangue (especialmente o seu próprio — até aguenta vê-lo em poucas quantias sem ser abalada por mais do que um formigamento, mas quando o limite é extrapolado, chega a desmaiar), não é particularmente afeiçoada a brigas violentas, e foge de médicos sempre que possível. Curiosamente, possui uma afinidade natural com armas de fogo, como se o seu dedo pertencesse ao conforto depredador do gatilho.
(Aviso de gatilho ⸻ menção a autoagressão, sem descrições gráficas) ؛ Tem alucinações frequentes. A maioria delas é inofensiva, meros adesivos colados aos cenários do cotidiano — um felino que não existe para ninguém além dela esfregando-se no calor de um poste, rostos conhecidos passando por ruas que não frequentaram de verdade, vozes indistintas conversando atrás dela em uma calçada vazia, o aroma de um perfume que ninguém mais usa, cores derramadas em sons. Mas as que a ameaçam… Jina vê as imagens e as vozes das pessoas que ama dizendo as coisas mais cruéis para ela, até ver o rosto deles perder o sentido — derretem, crescem, renascem como monstros distorcidos, cravando os dedos em sua pele. Às vezes, ouve as vozes das famílias que a abandonaram ecoando em seus ouvidos, convencendo-a a não deixar a cama, a se esconder do mundo. Em um episódio particularmente intenso, acabara machucando o pai por acidente e, desde então, quando percebe ou suspeita de uma alucinação, usa a dor para voltar a si mesma. Nem sempre funciona. Recebe o devido acompanhamento profissional e medicamentos para amenizar os sintomas. Existem, entre as alucinações ordinárias e as perturbadoras, as que beiram… o reconfortante, salvando-a da escuridão e de si mesma.
Carinhosa até não poder mais, vive por contato físico com os amigos e a família: abraços, beijos no rosto, braços entrelaçados na calçada, ombros para repousar a cabeça e mãos para agarrar. Vive presenteando-os com coisas feitas à mão, achados de brechós e antiquários, comidas que ela mesma prepara e avalanches de mensagens entusiasmadas (e vagamente legíveis) quando lembra da existência do celular.
Nas costas, um mar de estrelas se une e se confunde com as pintinhas da pele. Tatuou-as em um ato impulsivo, sem avisar ninguém, e abominou cada instante da dor, o que não a impediu de tatuar uma nuvem de fumaça azul na barriga logo depois.
Três aquários vivem em seu quarto: um onde cultivou um ecossistema invejável para a sua pequena coleção de peixinhos, um aquário onde vive apenas o Mr. Sparkles — o axolote rosa —, e um aquário ainda desocupado (por pura indecisão de Jina). Fora da água, mora a Pompompompori — uma dragoa-barbuda estranhamente dócil — e, recentemente, Isha — uma filhotinha miúda de gato — juntou-se ao lar. Jina jura que a estadia de Isha é temporária, mas já até começou a costurar roupinhas com o nome dela.
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ conversando com Finni 💛🌙 ⠀﹚ …
﹙ ⠀১ ✉️ ⏤ ✿ Finni 💛🌙 ⠀﹚ Eu estava prestes a te mandar uma mensagem dizendo a mesma coisa! Estamos conectados via Bluetooth de insônia
﹙ ⠀১ ✉️ ⏤ ✿ Finni 💛🌙 ⠀﹚ Quer sair?
﹙ ⠀১ ✉️ ⏤ ✿ Finni 💛🌙 ⠀﹚ Acabei de assar uma leva de bolinhos. Estão quentinhos! ☺️
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﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ respondendo waterman #4 ⠀﹚ ovce ta num Aplicatvi de namoRO?????
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ waterman #4 ⠀﹚ OMG VEM AI A WATER LA DUY! <3 <# 3 3 <3 <3! 111 !
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ waterman #4 ⠀﹚ ou water lord sei la nao ligooooo love is i love sempre vou te apoiar !!!! #lgbts
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ waterman #4 ⠀﹚ ose bwm que seria hilario vc se apaixonar por uma pessoa viciada em provcar incendioo s
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ waterman #4 ⠀﹚ waterboy .. fi re girl…
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ waterman #4 ⠀﹚ nossa pera agora que vi que vc falou que so mentem pra vc wcei
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ waterman #4 ⠀﹚ voce foi catfishado??!w ?2 # @2 ?????!!!
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ waterman #4 ⠀﹚ gracas a deus nao tenho esses problemas. espero ser cortejadade forma bem antiga e classica
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ waterman #4 ⠀﹚ meu mariposa vai batr gna minha porta com um anel pedido de casamento!! 1 !! e uma viagem d cr uzeiro TOTALMENTE PAGAAAA
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ waterman #4 ⠀﹚ vamos ver o mar o mundo marinho o oceano junti
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ waterman #4 ⠀﹚ dai eu vou mergulhar com tubaroe s 2<@!!3,2l23j2ll3k2 <##<33, 🦈 🦈 🦈 🦈
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ waterman #4 ⠀﹚ dai um tubarao vai me MORDER E ARRANCAR EUM PEDACO
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ waterman #4 ⠀﹚ vdai eu vou aparecer no meu casamento mordid a por um tubarao e vou me casar f e liza ss com o amwr da minha vid asbendo qu e nadei com um tubarao e ele vai viver com uma parte minhfa pra sempre dentro dele!!MRlrk ✧・゚: *✧・゚:* ♡ *:・゚✧*
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ waterman #4 ⠀﹚ isso se ele nao me cuspir. nao vamos pensar em coisas ruins agora.
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ respondendo carrick 0.0 ⠀﹚ HA
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ carrick 0.0 ⠀﹚ palavras classicas de um perdedrv
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ carrick 0.0 ⠀﹚ eu disjfe que descobriria a fofoca antes de vc.
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ carrick 0.0 ⠀﹚ pode ja ir separando o dinheiro da aposta1!
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ carrick 0.0 ⠀﹚ ( ⌒ ‿ ⌒ )
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ carrick 0.0 ⠀﹚ PERDEDOOOOOOOOR r r r R R R R R r r r r <g,44
Um silêncio fúnebre arrastava-se pela rua. Postes de luz piscavam, cansados, em uma ameaça indiscreta de apagarem de vez. Se cedessem, condenariam ambos ao escuro mortal de Eastline. Powder, já mais do que acostumada a perambular em Eastline quando nem os fantasmas ousariam escapar, era a perfeita imagem da despreocupação. Falta de noção, quem sabe, seria uma descrição mais precisa. Mais saltitava do que caminhava ao ritmo de uma melodia imaginária, enchendo os ouvidos do amigo com os acontecimentos dos últimos dias, fatos sobre o mar, reclamações fúteis de pessoas aleatórias e estratégias para o iminente apocalipse zumbi de Eastline. Ela era cética em relação a possíveis apocalipses, mas se divertia arrancando respostas dos amigos e imaginando como poderiam sobreviver juntos.
Sendo a máquina de palavras que era, o calar repentino dos lábios foi alarmante. Powder ergueu o dedo e o levou até os lábios, pedindo silêncio, e apontou vagarosamente para o problema. Olhos e mais olhos brilhantes os observavam na escuridão, de orelhas eriçadas e rabos balançando em um ritmo perigosamente lento.
Uma matilha de cães de rua aguardava. O maior deles cravou o olhar no âmago da alma de Powder.
❛❛ Quê? Não. Que nada! Vamos só… passar. Normalmente. Assim como pessoas normais e sãs fariam. Pessoas normais e sãs que nem a gente! Coragem, Stark. A gente consegue ❜❜, sussurrou, puxando a manga da blusa do amigo em ingênua cumplicidade. Ensaiando naturalidade, ela desviou rapidamente o olhar dos cães, fingindo que nada no mundo acontecia. Parecia um bom plano. Powder só ouvia as batidas do próprio coração, os passos de Stark e a respiração dos cães.
O estalo de um galho se quebrando, esmagado — pelo pé dela ou pelo de Stark, ela já não sabia —, ecoou na rua.
Powder paralisou. O mais puro desespero espalhou-se pelo rosto pálido como uma doença. O cão enorme — o pai da família, Powder pensou — se levantou, ansioso, preparado.
❛❛ Esquece. Esquece tudo o que eu falei. A gente não consegue nada e a gente vai morrer. ❜❜ Ela recuou um passo, sem conseguir desviar os olhos da ameaça, que mais lembrava um lobo sanguinário do que um animal supostamente doméstico. Powder bateu no braço de Stark, mais por instinto do que nada, e agitou as pernas. ❛❛ Corre. Corre, corre, corre! ❜❜
Os cães latiram e rosnaram, disparando atrás do borrão azul e do borrão vermelho com a fome de uma bala rumo ao alvo. Powder amaldiçoou-se por soltar os cabelos logo naquela noite amaldiçoada, ao invés de contê-los em tranças amáveis, enfeitadas por laços e presilhas coloridas. Fios colavam em suas bochechas, seus cílios e sua boca. Ela empurrou os cabelos para longe do rosto, quase caindo para frente no ato. Foi só então que ela olhou para o lado e percebeu que Stark não estava mais ali. Desesperou-se mais uma vez. Powder olhou para frente, para os lados e para o abismo negro da rua, encontrando-o uns passos atrás.
Praguejando, ela correu de volta para ele e para os cães de bocas enormes, abertas, loucos para despedaçá-la… Powder já lamentava por eles. Ela não consideraria a sua carne particularmente desejável. Nunca provara para descobrir, mas sabia que o frango frito da barraquinha dos Mo a rebaixaria num instante. Se bem que ela estava perfumada com o novo creme maravilhoso que recebera de presente… Horrorizada ao perceber-se como um jantar possivelmente desejável, Powder apressou-se ainda mais, agarrando Stark com força e o levando junto dela. Ela não poderia deixá-lo ser devorado!
Silenciosa como estava, a Bouquet Pie resgatava a melancolia de uma catedral abandonada, deixada aos beijos pegajosos das chamas. A extinção de um deus em seu berço, uma casa de adoração carente de qualquer adorador. O passado ecoava nas luzes inseguras das velas. Se um dia o fogo foi uma força de destruição, agora não era mais do que um companheiro acanhado, iluminando os olhos de Coralie e abrindo os caminhos certos para o garfo dourado entre os dedos. Afundou-o no mar vermelho de cereja doce e o levou até os lábios vermelhos.
Nada pensava e tudo pensava. Imaginou ouvir um som e o relevou, enterrando-o em uma pilha de considerações inúteis. Às vezes, sua mente a enganava e a empurrava para o abraço de lembranças que ela não queria reviver. Não cairia outra vez. Não admitiria a existência de um desejo desesperado que não poderia envolver em sua mão. O som cresceu e cresceu. Ergueu enfim o rosto, levantando uma das sobrancelhas para a escuridão da doceria. Não era a sua imaginação, então. Mesmo quando o imaginava voltando para casa, voltando para ela, ela era incapaz de aprofundar seus devaneios para mais do que uma névoa leve, uma impressão ecoando em seu corpo.
❛❛ Estamos fechados… ❜❜, anunciou ela para o vazio. O vazio mudou e mudou até assumir um rosto diferente. Um rosto que ela conhecia, mas que ela não esperava ver. Pendeu delicadamente a cabeça, surpresa. O primeiro instinto de Coralie foi virar-se para o relógio pendurado e para os seus ponteiros, presos entre as luzes e as sombras. Ora. Ainda não estavam fechados. Coralie lembrou-se vagarosamente de expulsar, com beijos e abraços, os funcionários da Bouquet Pie antes do verdadeiro fim do expediente. Queria ficar sozinha, mas aquilo ela não dissera. ❛❛ Sempre pontual. ❜❜ A observação dançava entre a lisonja e um amargor seco.
Ela poderia expulsá-lo. Quieta, contentou-se em contemplá-lo. Ele ainda lembrava uma pintura clássica, etéreo até em seu desconforto. Se era pelo escuro, pelo vazio ou por ela, ela seria incapaz de responder. Coralie estendeu os dedos enluvados, sugerindo o ocupar da cadeira fria com um movimento suave.
❛❛ Por que não se senta? É incômodo vê-lo… congelado como uma estátua. ❜❜ Fingindo estar distraída com a mesa, reorganizando-a para acolher a solidão de duas pessoas ao invés de apenas uma, Coralie conteve a vontade instintiva de voltar a olhá-lo. ❛❛ São as últimas fatias do dia. Temos quinze minutos até fecharmos. ❜❜ Não conteve o sorrisinho discreto ao falar como se não fosse a proprietária, capaz de abrir e fechar as portas da Bouquet Pie conforme bem entedia.
Receava que ele poderia convencê-la a ceder mais do que quinze minutos. Temia que ele poderia convencê-la a ceder a noite inteira, se fosse para ouvir a voz dele outra vez, se fosse para olhá-lo de perto outra vez.
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[ TXT ] : just checking to see if you've blocked me... — cora & percy!
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ respondendo Coelhinho 🐇 ⠀﹚ Ainda não.
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ Coelhinho 🐇 ⠀﹚ Mas que coragem da sua parte! Estou dividida entre o fascínio e o orgulho.
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ Coelhinho 🐇 ⠀﹚ Nunca pensei que você conseguiria mandar uma mensagem como essa.
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ respondendo Coelhinho 🐇 ⠀﹚ Não sei, Percy. Fez algo que poderia me irritar?
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ Coelhinho 🐇 ⠀﹚ Se acha que não, não existe razão coerente para fazer uma pergunta como essa.
﹙⠀ ১ ✉️ ⏤ ✿ Coelhinho 🐇 ⠀﹚ Mas se acha que sim…