Reflexão em "O Morro dos Ventos Uivantes" – parte I: confiança ante a adversidade
“Um nutria esperanças, e o outro desesperava-se [...]” (O Morro dos Ventos Uivantes - Emily Brontë, p. 195). Essa foi a descrição feita pela narradora-personagem da história, Ellen Dean.
Para ela, tanto Edgar Linton quanto Hindley Earnshaw, personagens de “O Morro dos Ventos Uivantes”, tiveram a mesma situação triste em suas vidas; ambos perderam a esposa e tiveram que lidar com a dor da perda, do luto e as demais dificuldades a sua volta.
Como descrito, os dois eram apegados aos filhos e eram maridos carinhosos. De um lado, temos Linton, que sempre pareceu fraco e frágil para as pessoas de seu contexto; quando veio a morte, teve seu período de tristeza cruel, mas confiou em Deus, e depois de um tempo se reergueu e conseguiu seguir em frente, amando a filha e a lembrança de sua falecida amada. Do outro lado, temos Hindley, que sempre pareceu forte e tenaz, mas ao perder a mulher de sua vida, tornou-se endurecido pela tristeza e pela amargura que permitiu crescer em sua alma, negligenciando a vida e as pessoas a sua volta, inclusive o filho.
Conforme apontado no trecho da página 194, a narradora fica perplexa ao compará-los e perceber que eles tiveram circunstâncias similares, no entanto responderam a elas de forma diferente. A diferença é apresentada na página 195: um “acreditou em Deus, e Deus o confortou”. Esse foi Linton. Ao contrário deste, durante toda a obra de Emily Brontë, podemos ver Hindley praguejando, amaldiçoando e odiando as pessoas a sua volta por longos e pesados anos para ele, o que lhe custou bem mais caro o pouco tempo de vida que teve.
A reflexão entre esses dois personagens não está no contraste de suas personalidades, embora ela exista, mas no como eles reagiram a situações iguais que os abalaram profundamente. E pensar sobre isso talvez possa nos levar a refletir a maneira como reagimos a acontecimentos dolorosos em nossa vida, uma vez que todos nós passamos por eles em algum momento. Se nenhum de nós está isento disso, o que fazer quando estivermos passando por algo semelhante? Se pensarmos como Ellen Dean, a resposta é confiar em Deus. Diante disso, é necessário lembrar que ter esperança na adversidade nem sempre fará um problema desaparecer instantaneamente, contudo nos conduzirá a uma postura diferente, apesar das aflições, que fará com que consigamos superar no fim.
Portanto, o milagre da confiança em Deus na adversidade não reside no fato de ele fazer desaparecer a situação difícil, mas sim em moldar nosso interior para passar por nossos momentos mais sombrios sem sucumbir. Para isso acontecer, precisamos confiar nele e permanecermos leais até o fim. É verdade o que diz em sua palavra, que Ele jamais abandona os que nele confiam. Então, que a mesma esperança que brotou no personagem leal de Emily Brontë, no momento da adversidade, possa brotar em nós também.
Salmo 23.4: “Mesmo que eu ande por um vale de densas trevas, não temerei perigo algum, pois tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me confortam.” (NVI)
Por: Solange Lago
2 de março de 2024














