ele pensa na pergunta. o ser humano é um mero produto do meio onde vive; caso a mãe não tivesse morrido, talvez fosse um homem diferente do que é atualmente. se fosse criado com carinho, amor e calor de um abraço, talvez fosse capaz de igualmente amar, demonstrar as próprias aflições, talvez não precisasse usar drogas e se distanciar da realidade, de tudo e todos. porém, não passava de um ‘se’ e de inúmeras hipóteses irreais e que, se existissem universos paralelos, estariam acontecendo. mas, para aquele victor, o qual provavelmente morria de câncer de pulmão por tanto fumar, não havia outra maneira de ser. ‘ você sempre esteve doente? ’ o rosto dele formiga. os olhos não olham mais a figura ao lado, prendem-se na xícara em sua frente e é capaz de ver a própria expressão refletida no líquido escuro. o vazio não o surpreende, pois bem, a vida o consumiu por completo. agora, ele é apenas um carcaça que não vive, mas sobrevive. ‘ com o que preciso me preocupar, lydia? ’ o sarcasmo na risada curta e seca é palpável. ‘ sequer tenho a necessidade de fingir algo. viajei para cá unicamente pela curiosidade. ’ poderia atear fogo naquele jardim e reduzir tudo à cinzas, mas não se importa o bastante para tamanho esforço. porém, caso outrem o fizesse, não impediria. o victor no chá se distorce em uma expressão perturbadora, o sorriso tão largo a ponto de rasgar os cantos da boca. é rápido em acabar com o chá, engolindo-o de uma única vez. ‘ porra… ’ leva a mão até os olhos e os aperta; não devia ter usado nada.
a resposta para a pergunta de victor era simples. sim. lydia tinha nascido doente, fraca demais e pequena demais, e tinha compartilhado a fraqueza com sua mãe. uma menina sem mãe e depois sem pai, com pulmões mais delicados que vidro. ela gostaria de dizer que isso era uma figura do passado, uma versão de si mesma abandonada junto com seu quarto de infância em thornhil... mas talvez uma parte de lydia sempre seria aquela garotinha de porcelana, quebrada e remendada um milhão de vezes. "a minha família começou a se preparar para minha morte no dia em que eu nasci." ela deu de ombros. pensar naqueles anos miseráveis durante a infância era como se lembrar de algo que aconteceu com seu personagem favorito em um livro. distante e ainda assim dolorido. "todos se preocupam com algo. algumas pessoas só conseguem disfarçar e mentir sobre isso melhor do que as outras." lydia era boa em mentiras, mas ultimamente ela estava cansada delas. talvez ela tivesse se importado tanto, com tudo, por tanto tempo que agora tudo que a preocupava era o cansaço. a incerteza. e aquela maldita casa. "victor...?" sua voz ganhou um leve tremor, um flash de preocupação passando por sua feições. "tudo bem aí em cima?" apontou para a cabeça do outro vagamente.














