apesar de ainda ser nova, beirando seus trinta e um anos, ahra já tem uma considerável coleção de feridas abertas. através de pequenos gestos, ela tenta repará-las todos os dias e passar o fio de sutura que seria capaz de fechá-las, mas de vez em quando, é interessante deixá-las abertas, em frente à janela para pegar a brisa que vem de fora, ou em cima da mesa, onde ahra examina o sangue que segue pingando de seus ferimentos - físicos e emocionais.
trabalhando com mutantes, cedo percebeu que eles também tem suas feridas, sendo tão difícil falar sobre elas quanto fazer ahra falar das suas. muitos sofreram abuso por seus poderes, tamanha violência que ela não é capaz de medir e, portanto, mesmo seu trabalho sendo visto como uma ameaça por certos mutantes, ela faz seu melhor para deixá-los confortáveis e sem medo perto dela. custou para que seungwoo se sentisse assim, mas quando finalmente cedeu, ahra notou que o laço que começaram a desenvolver era uma amizade. ela sendo a única pessoa que sabia de seus segredos e ele consentindo ao compartilhamento dos mesmos.
mas amizades entre mutantes e humanos tem seu limite, e certa noite, ahra acidentalmente o ultrapassou. é dela esse modo obsessivo de começar uma conversa e levá-la ao pior dos assuntos, a mais cruel das situações. achar o fundo e a origem do problema para cortar o mal pela raiz. seungwoo deve ter percebido e foi evasivo, como esperado, ninguém fala sobre seus traumas de infância com tanta liberdade, mas ahra ainda tem trabalho a fazer e, agora, tornou-se preocupação pessoal também. “ boa tarde, seungwoo”, as mãos nervosas ajeitam uma pilha de papéis na mesa antes de sentar-se em frente ao divã. “ como você está hoje? ”
ㅤㅤpéssimo, exausto, sinto como se houvesse elefantes pisando sobre meus ombros, era o que seungwoo desejava responder para ahra e em um dia comum poderia ter falado com certa honestidade sobre o assunto - talvez não comentasse de forma tão enfática - mas aquele não era um dia comum. as consultas já tinham virado rotina, tanto com o ex-psicólogo do instituto, agora já aposentado, quanto com ahra, entretanto naquele dia sentia que se tinha voltado a estaca zero, não somente na relação entre os dois, mas como em seu progresso. não duvidava que hora ou outra acabaria voltando a se calar, mesmo que temesse essa ideia.
“ah, acho que estou um pouco cansado...” não era uma mentira, mas omitir para seu psicólogo também não era a melhor das ideias. "dormi um pouco mal essa noite, talvez algum sonho conturbado então acordei um pouco cansado, aí tiveram os treinos e tudo mais…” de novo, não estava mentindo, realmente tinha acordado ainda mais exausto do que quando foi dormir, porém não foi nenhum sono agitado ou travesseiro mal colocado que tinha lhe causado isso e sim os pensamentos quase obsessivos que teve até finalmente cair no sono. ficou repassando a conversa que os dois tiveram e não parecia satisfeito até analisar cada palavra que foi inocentemente trocada entre os dois até seguirem por um caminho que o mutante odiava, coisas que nem mesmo o ex-psicólogo do instituto conseguiu desbloquear completamente e seungwoo duvidava muito que aquele tinha sido o momento correto para tocar naquele assunto.
“e você, como está? sei que normalmente nosso papel é o contrário, não é? você faz as perguntas… eu respondo, mesma coisa toda a vez, então… para mudar um pouco as coisas hoje, como é que você está?” o garoto tinha uma certa impressão que ahra faria a mesma coisa que ele fez, mentiria - ou pelo menos omitiria - algumas informações e então os dois saberiam que são grandes mentirosos, afinal similares se reconhecem mesmo sem trocar uma palavra. talvez tenha sido isso que tinha aproximado os dois a ponto de conseguirem o resquício de uma amizade fora do divã, talvez no fundo soubessem que havia algo em comum entre os dois.
ou talvez seungwoo só estivesse lendo demais uma relação simples de trabalho.
se ajeitou melhor no sofá, permitindo que os ombros finalmente relaxassem um pouco e consequentemente soltando um suspiro aliviado. ao menos ele poderia fingir que os nós que estavam se formando ali eram puramente causados pelo cansaço físico dos treinos e não pelas dores mentais que estava carregando.