Octavia Butler, Paper Boy e Isaías Caminha
Uma pessoa negra caminha num mato. Eu diria parque, mas num parque um policial ou uma Karen ainda interromperia seu trajeto. Uma pessoa negra caminha numa espécie de bosque onde não há mais ninguém e caminha para nenhum lugar específico, caminha para pensar melhor, caminha muito concentrada em não se concentrar na dor. Não está perdida mesmo que não tenha a mínima ideia de onde está e apesar de seu desejo de voltar para o conhecido há outra vontade dentro dela que gostaria de ficar perambulando para sempre. No meio de uma floresta. Sabe que o mundo que rodeia essa trilha neste bosque ainda estará lá quando sair daqui. A arte de perder-se nesse mundo está cada vez mais difícil. Uma pessoa na capoeira recomeça sua vida, sua finalidade... As I walk through the valley of the shadow of death I take a look at my life and realize... How many roads must a person walk down before you call him a man person?... Uma pessoa caminha pensando naquele filme dos anos 90 em que a Michelle Pfeiffer é professora numa escola de uma quebrada nos Estados Desunidos, naquele documentário do Eduardo Coutinho, naquele jogo de futebol na CoHab.
Uma pessoa caminha entre árvores de tamanho mediano, aqui e ali pitangueiras e olhos-de-boneca, bem-te-vis e quero-queros longe dos pampas, a ponderação do Martírio de São Matheus na cabeça dos seres ali presentes, um pensamento coletivo, raio que não toca o chão e logo a jornada da vida contra a gravidade segue seu rumo. A brisa, os pios, os raios de sol e a sombra, os caules, as flores, a trilha dos animais, a memória dos animais incluída a pessoa que caminha, os fios de água, os pedacinhos de céu azul entre as árvores, entre duas sensações, a de querer ficar neste mato e a de querer voltar sem conseguir justificar o porquê.
Uma vez lá em Biguaçu sonhou que o pátio gigantesco terraplanado para mais uma construção era um ponto de pouso de naves alienígenas. Toda vez que caminhava lá com seu cachorro (Pingo? Tóbi? Bolinha? Bituca?) ficavam o tempo que quisessem sem que ninguém lhes interrompesse, como se ao entrar naquele lugar ele se fechasse para outros. Não era um dia de sol por isso puderam ficar muito tempo descobrindo as inúmeras trilhas criadas por diferentes animais naquele grande quadrado. De onde estavam viam um pedaço de mar onde ninguém tomava banho e apenas lá longe se via um barco (um OVNI?). A partir de um viés analítico disseram que era vontade de ficar só. Mas o canídeo acabava com o argumento.
No meio dessa pequena mata existem trilhas. Na verdade essas trilhas não existem pelo bosque em si, mas porque no final dela existe uma praia. O desejo de refazer a trilha incontáveis vezes às vezes é realizado às vezes não. Os dois não lembram quantas vezes fizeram hoje a mesma trajetória por diferentes caminhos, o mesmo sentido por diferentes direções. Não se pode esquecer por influência das árvores de onde viemos e como somos classificados, mas pode-se sim levar junto a si uma leveza e um torpor próprio desse espaço. A palavra seria refrescância ao invés de torpor? Talvez. E a eletricidade no corpo de se estar vagando sem rumo, perdido ou não, porque afinal não importa. O que importa é que somente abandonando algumas trilhas é que descobrimos outras, as que levam à agua, à comida, aos abraços, à cerveja, aos rituais diurnos e noturnos, sabendo que poucas vezes o que está no final é algo novo, mas sim a mesma praia vista de outra pedra. O mesmo riacho mergulhado em outro ponto. Uma pessoa negra caminha com um cachorro e no fim da trilha encontram uma casa, gente, postes de energia elétrica, lixeiras e dunas. E o mar.