sintonia e desejo
Algumas das coisas que quero escrever jamais sairĂŁo dos meus dedos, alguns dos pensamentos que me atravessam nĂŁo tĂŞm permissĂŁo de acontecer. Sentimentos nĂŁo brotam do nada, nĂŁo surgem sem emoções. Emoções sĂŁo reais e nos alcançam por entre os mais sutis gestos. Na maior parte do tempo, nĂŁo estamos buscando por reais aventuras ou grandes paixões, nĂłs sĂł estamos ali, matando o tempo, desgastando o ponteiro do relĂłgio, sem mais intenções. É justamente nessas lacunas, nesses espaços vazios, nos jogos mentais entre o ser e o estar, que sentimentos brotam, se constroem, pulverizam-se e se espalham. Nas mais despretensiosas conversas, por entre um flerte e outro, a dopamina Ă© produzida, e bastam alguns encontros para que a adrenalina cause excitação. A expectativa, o carinho, a atenção, nos torna dependentes. É uma reação em cadeia. Na falta de interesse, na carĂŞncia de intenção, surge o inesperado, e este Ă© recompensado pelas toxinas e hormĂ´nios que nos fazem acreditar que estamos apaixonados. Mas o que Ă© paixĂŁo se nĂŁo a soma de todas as reações quĂmicas que o nosso cĂ©rebro cria desde a concepção da ideia de que aquele lugar Ă© bom, de que o outro Ă© confortável, de que sua companhia basta. Nem que seja por poucos minutos, migalhas, dia apĂłs dia, vislumbres de sensações que instigam um corpo reativo, que se alimenta da troca, do desejo, da atração. Essa dança do acasalamento desperta a noradrenalina, que Ă© quando os corpos se correspondem e passam a gerar reações quĂmicas em comum. Esse desejo velado passa a ser visĂvel, perceptĂvel para alĂ©m dos corpos que dançam em real sintonia. Parece Ăşnico, exclusivo, por que no fim das contas realmente Ă©. O que dois corpos produzem juntos nĂŁo poderia ser repetido com tanta facilidade, nĂŁo nos mesmos termos e condições. O que duas pessoas sem reais intenções de se apaixonar compartilham a partir de uma sintonia Ăşnica e de um desejo que se excede, está alĂ©m do controle de qualquer regra ou convenção social. Está na sutileza dos pelos arrepiados, da pupila dilatada, do toque na pele e das covinhas que se formam nos sorrisos trocados. A simples complexidade da paixĂŁo Ă© como um paradoxo, atravessa a racionalidade e alcança a nossa humanidade naquilo em que somos melhores: na facilidade do deleite, na nossa capacidade quase irracional de nos entregarmos Ă s emoções, ao prazer. É aĂ que qualquer lucidez morre, Ă© na falta de lucidez que nasce o inato. É a loucura que cria a poesia, e Ă© a falta de sentido que nos faz ser quem nĂłs somos.



















