VocĂȘ queria que as coisas fossem apenas do seu jeito. Queria que a Ășltima palavra sempre saĂsse da sua boca, que cada encontro marcado fosse somente no lugar mais viĂĄvel para vocĂȘ, que cada minutinho de atraso que excedesse o nosso limite proposto, fosse apenas da sua parte. AtĂ© a Ășltima mensagem de texto tinha que ser sua. Quem por diabos Ă© encanado em âĂșltimas coisasâ? Esse era o seu problema. O seu egoĂsmo sĂł nĂŁo falava mais alto porque vocĂȘ queria gritar mais que ele. E gritava. VocĂȘ era o tipo de pessoa que com certeza, teria que falar as Ășltimas e dramĂĄticas palavras antes de morrer, enchia seu peito de ar e as recitava como quem dita uma lei. SĂł que essa lei, vocĂȘ nĂŁo podia me prender por nĂŁo cumprir. TambĂ©m confesso que uma parte dessa culpa era minha, porque enquanto vocĂȘ ditava essas Ășltimas palavras letra-por-letra para que todos entendessem, eu me calava. E quem cala, talvez conceda. Porque eu acabava te dando carta branca e vocĂȘ sempre retribuĂa com um cartĂŁo vermelho, mesmo sabendo que eu odiava essa cor e o significado dela. Mas ainda assim, mesmo com todas imperfeiçÔes que vocĂȘ tinha, eu te aceitava. E fazia isso porque era a Ășnica alternativa que me pertencia naquele momento. E juro que nĂŁo conseguia me imaginar sem ela. Eu aceitava porque apesar da Ășltima palavra ser sempre sua, ela ainda era a Ășnica que eu queria ouvir no final do dia. Aceitava porque mesmo que o lugar fosse escolhido por vocĂȘ, eu gostava de pensar que ele era nosso, que ali a gente encontrava nosso ponto de paz e abrigava nossos desejos mais Ăntimos. A questĂŁo Ă© que tudo era perfeito demais. Ou eu enganava a mim mesmo tentando acreditar que era. Porque sua vida era baseada nisso, num parque onde vocĂȘ se dava ao direito de levar quem quiser, se divertia o tempo suficiente pra fazer alguĂ©m gostar da viagem e depois simplesmente mandava embora e fechava as portas, como se elas nunca estivessem sido abertas. Mas de tanto eu tentar, insistir e bater o pĂ©, os seus conceitos finalmente mudaram. Sua essĂȘncia se perdeu em alguma parte de sua mente egoĂsta, e vocĂȘ jĂĄ nĂŁo pensava mais apenas em si. PorĂ©m, era tarde demais. E apesar de vocĂȘ ser fascinado em Ășltimas coisas, na nossa breve histĂłria, foi eu quem recitei as Ășltimas palavras e dei o Ășltimo adeus. Confesso que vocĂȘ me ofereceu vĂĄrias probabilidades para ficar. O problema, Ă© que eu nunca gostei de exatas.