Foi na manhã desta terça-feira, dia 11 de Janeiro de 2022, que a entrada da Francisco Toledo, vindo pela Avenida Manoel Joaquim Severiano, ficou aglomerada de gente e passou a causar o engarrafamento que podemos ver aqui. As pessoas estão nesse aglomerado, se juntando para poder testemunhar o enorme buraco que surgiu na rua, da noite para o dia. São sete horas e vinte e seis minutos, e o corpo de bombeiros está chegando. Abrindo espaço aqui, com licença, com licença, senhor. Vejam só, o tamanho desse buraco. As pessoas aqui estão numa distância segura, aparentemente, mas não conseguimos ver nada, onde o buraco dá. Do outro lado ali, os bombeiros já estão abrindo espaço e interditando o local, colocando as faixas. Com licença, senhora, você está aqui desde que horas?
- Eu tava voltando cos pão, lá da padaria do Miguel, pra casa né... eu moro ali... e o buraco apareceu agora. A rua já tem anos que não é recapeada, essa por...
Vocês estão vendo, o pessoal revoltado com o descaso do prefeito aqui diante desse buraco que surgiu estranhamente na rua e, certamente, coloca em risco a população que mora e passa aqui. Agora, olha só, o pessoal já todos numa distância mais segura e com o local devidamente sinalizado, evitando que pessoas e até mesmos carros possam cair no buraco aqui da Rua Francisco Toledo. Moço, você pode nos dizer alguma coisa aqui pra Rádio Musa FM.
- É, então, tem que dar um jeito nisso. A molecada que joga taco na rua não vai poder mais, com esse baita buraco aqui. Sem contar que, aqui pela Severiano, não dá pra vir de carro também.
O morador tem razão, o buraco bloqueia toda a entrada da rua aqui pela avenida. Inviabilizando o acesso dos moradores aqui pela avenida principal da cidade. É importante que alguma medida seja tomada, porque o buraco também ultrapassa uma parte da avenida e, mesmo sem esse pessoal aqui em volta, o trânsito pela avenida também será prejudicado. Diretamente das ruas, para o nosso estúdio, voltaremos com mais informações.
O buraco também estava sendo noticiado pelos telejornais da manhã. As pessoas que ainda estavam em suas casas, ali da rua mesmo, saíram na janela para olhar e só conseguiam entrever o vão enorme e as cabeças aninhadas quem observava das varandas dos prédios. Algumas pessoas, insatisfeitas com o trânsito parado, desceram de seus carros para ver o que acontecia.
Num dado momento, quando os bombeiros dispersaram a maioria das pessoas e o trânsito conseguiu retomar seu fluxo parcialmente, um curioso transpassou as faixas de interditado e jogou uma bola furada, permitindo que ela sumisse na escuridão, sem emitir som algum. Frustrado e sem muita gente interessada em correr o risco de adentrar o local proibido, deu as costas para o buraco e voltou para sua casa na Rua Francisco Toledo.
As crianças jogaram bola e taco na rua, distantes do buraco. No dia seguinte chegaram a perder algumas bolas de tênis que usavam para brincar. Outros dias depois também, mais bolas foram perdidas. Certa vez, um carro fiat Palio e com a placa de Campinas, acelerou desde o inicio da avenida, configurando duas multas por velocidade e outras três por atravessar o semáforo quando vermelho, além do prejuízo causado por tentar desviar do buraco em cima da hora e esterçando bruscamente para a esquerda, subindo no canteiro central da avenida e batendo em uma das placas que marcava a velocidade limite em 50km/h. As multas registravam 90.
Passaram duas semanas, o prefeito convocou a TV Local e naturalmente, outros veículos de comunicação compareceram. Seu discurso seria dado na própria rua. Em meio a xingos e panelaços, ele tentou dizer:
- Bom dia a todos. Reconheço a frustração e a revolta de todos pelo tempo em que nada foi feito em relação a esta calamidade pública que temos diante de nós. Sei que o desejo de todos, é que a questão que envolve esse buraco seja resolvida. Que seja tapado ou... Enfim, que vocês possam ter uma vida tranquila e normal. Venho apenas explicar, pois sei que devo satisfação, o porquê nada foi feito até o momento. Conforme o nosso plano de governo, as verbas todas foram direcionadas para o setor de segurança. Este é um evento inesperado, não estavam nos planos. Mas estivemos cientes desde o primeiro momento e estudamos o caso para poder agir da melhor forma possível, pois trata-se de uma logística para o caso... a avenida precisará ser interditada, para realizar a manutenção. Também será preciso estudar a parte das tubulações de água e esgoto que passam ali...
- Não é verdade! - gritou um homem em meio à multidão que estava ali.
- ... Já verificamos com a nossa equipe capacitada para estudar o caso e poder fazer isso da melhor for...
- Não tem tubulação! Venham ver!
Um homem grisalho, de barba rala e igualmente prateada, passou a abrir espaço no meio da massa de pessoas que ali estavam enquanto o prefeito continuava a falar mas ficando cada vez mais inquieto na medida em que visualizava alguns cidadão deixando de ouvi-lo para seguir o homem que desafiava seu alocução.
Mulheres, homens e até algumas crianças acompanharam o provocador ruço, que sacou de dentro da mochila uma lanterna do tamanho de seu antebraço e devia pesar uns três quilos. Passou por debaixo da faixa que tentava impedir o acesso de pessoas, ligou o equipamento, revelando sua potência que, mesmo à luz do dia, era capaz de deixar o lugar para onde apontava ainda mais claro. Quando ele focou o feixe extremo de luz branca no negrume da fissura irregular, a reação de todos que o acompanhavam foi a mesma: uma surpresa assombrosa e um espasmo imediato que os fizeram olhar de volta para a multidão, tentando dizer com os olhos - pois palavras lhe faltavam - que eles deviam ver aquilo também.
Os mais hesitantes que ficaram observando de longe, entenderam a mensagem no olhar e foram averiguar, e num efeito cascata, aos poucos, as pessoas começaram a deixar de ouvir as groselhas do prefeito e foram ver o que o misterioso homem queria mostrar para eles. Burburinhos foram crescendo, as pessoas foram pouco a pouco se inquietando, passando a se recordar quem era o responsável por consertar aquilo e possivelmente estava enganando a todos.
- Não tem nada aqui. Não tem encanamento. Nada. É só o escuro.
Voltaram os olhares para o prefeito. Este, totalmente desorientado sobre o que fazer, olhava de volta para a multidão. Desceu de seu púlpito, caminhou até eles e encarou o buraco.
Passaram dois meses, a cidade não tinha recursos para realizar uma obra daquele porte. O prefeito estava com sua popularidade ridicularizada, após convocar o corpo de bombeiros para tentar chegar o fundo da abertura, mas nada o alcançava, nem suas escadas, nem as cordas, nem mesmo as escadas com as cordas. O buraco apenas descia e descia, sem nunca ter fim. O velho que interrompeu o sermão do prefeito naquele dia, foi à TV, disse que jogou sua lanterna ligada lá, certa vez, e precisou comprar uma nova para suas aventuras espeleológicas. Ele tinha a filmagem feita com seu celular. A internet fazia memes dele, do prefeito, e claro, do buraco. Outras notícias surgiram com o tempo, mais acidentes, mais críticas ao gerenciamento de recursos públicos. O buraco se tornou motivo de discussões políticas, sociais, urbanas, ufológicas, transcendentais, etc.
Passaram dois anos. Nesse tempo, houve algumas mortes. Crianças caíram, jovens com suas bicicletas, carros inteiros com suas famílias desapareceram. Pessoas das cidades vizinhas vinham ver o buraco, tirar foto com ele e vestindo camisetas. Era comum encontrar flores ao redor e todos na cidade já sabiam o porquê. A cidade inicialmente interditou com tábuas de madeirite. Porém, as famílias das vítimas, que nunca tiveram a chance de dizer adeus entraram com uma petição e utilizando-se da internet conseguiu apoio para que outra solução fosse dada. Algo precisava ser feito.
O novo prefeito construiu um desvio na avenida e na rua para poder atender a demanda do fluxo de carros. O Buraco ganhou paredes ao seu redor. Inscrições com os nomes das pessoas que desapareceram ao adentrarem naquele orifício lúgubre adornavam as paredes e os pilares do novo santuário que a cidade ganhara. Uma tampa de acrílico com 12 centímetros de espessura selou o portal, impedindo que mais pessoas se perdessem. Eventualmente, as pessoas visitavam o local, seja para prestar homenagem ou para conhecê-Lo. Muitas rezas foram feitas ali, pessoas de todas as religiões se sensibilizava com as histórias trágicas ocorridas e ofertavam suas preces. O desconhecido, de certa forma, unia as diferentes crenças. Ninguém sabia dizer se estavam mortos, se haviam cumprido sua missão, se encarnariam em outro corpo, se transcenderam para outra dimensão, se encontraram o céu ou o inferno, se seriam decompostos por fungos e bactérias até deixarem de existir de vez.
Passaram duas décadas. Todo o país conhecia o local. Não existiam mais memes, não existiam piadas sobre aquilo, nem as notícias eram tão vorazmente produzidas e consumidas a respeito do Buraco. Muita gente de fora, de outros países, também conheciam a história, e vinham presenciar a magnitude do que aquilo se tornara. Seria injusto dizer que é a mesma grandiosidade de conhecer as pirâmides do Egito, ou a muralha da China, ou o Taj Mahal, pois o Buraco passou a ser louvado por todos que o conheciam. As pessoas respeitavam as famílias e as pessoas que foram escolhidas para entrar Lá, e respeitavam ainda mais o portal. A tampa de acrílico foi removida, e quem quisesse, podia entrar lá.