Wolfgang sabia que não era nada educado invadir a casa alheia, mas naquele momento ele pouca se importava com aquilo. O alemão era impaciente e só a ideia de ter que ficar esperando do lado de fora sem saber quando Lyra chegaria, fazia com que ele agisse impulsivamente. Fazia poucos dias desde sua chegada a Inglaterra e ele havia se mantido afastado de sua noiva enquanto se ajeitava em sua nova casa. Mas já tinha passado da hora daquele encontro acontecer, a alemã precisava saber da chegada dele e de a partir de agora ela tinha todos os seus passos monitorados por ele.
No fim da tarde, horário que o loiro acreditava que ela já teria chegado do trabalho, ele apareceu no endereço que a mãe dela havia lhe passado. Wolf sempre foi bom em fazer com que os pais alheios gostassem dele, talvez fosse pela imagem educada e gentil que ele costumava passar para eles. Algo fazia com que eles confiassem no ex-durmstrang e ele sabia que não era a melhor coisa que eles podiam fazer. Após bater incansavelmente na porta do apartamento alheio, enquanto xingava mentalmente a morena sem nem saber se era porque ela não estava em casa ou se era por causa daquela maldita ideia de viver no meio de trouxas. A única coisa que ele conseguia sentir por cada pessoa que passava por aquele corredor era repugnância e ele não disfarçava sua cara de insatisfação em estar ali tendo que respirar o mesmo ar que eles.
E foi assim que ele havia decidido esperar pela mulher dentro do apartamento dela, sem sequer se importar com regras de etiquetas. Sacou a varinha do bolso, disfarçadamente e destrancou a porta. Adentrou o apartamento sem nem pensar duas vezes e fechou a porta, completamente indignado com a inocência de sua noiva em deixar uma casa desprotegida. Todo bruxo que se preze protegia sua casa com feitiços antes de sair, mas Lyra parecia confiar demais naquela vizinha trouxa. Meneando a cabeça em negativo em forma de reprovação, ele acendeu a luz. Não fazia ideia de quanto tempo ela demoraria para chegar, mas enquanto ela não fizesse isso, ele ficaria ali dando uma conferida no lugar, tentando acabar com o tédio da espera.
O Kuester caminhava pelos cômodos pequenos com um sorriso no rosto, algo que raramente aparecia naquele lábios de forma verdadeira, geralmente era apenas uma expressão cordial ou até mesmo uma implicância. Mas naqueles momentos em que ele estava sozinho, ele se permitia que eles aparecessem seu rosto sem problemas e sem segundas intenções. Ele apenas apreciava o ambiente, quase esquecendo que ficava no meio daquela sujeira trouxa. Após analisar o local, o alemão decidiu esperar sentado no sofá e apagou as luzes. Faria uma surpresa para Lyra, mas tinha quase certeza que ela não gostaria nenhum pouco daquela surpresa, principalmente por conta dos anos em Durmstrang, onde ela havia escolhido andar com a escória do lugar ao invés de se juntar a ele e seus amigos influentes.
Já estava começando a ficar entediado novamente quando ouviu o barulho da porta, um sorriso de canto apareceu e ele estava louco para ver a reação dela quando lhe encontrasse ali. Assim que ela acendeu a luz, ele soltou um suspiro. Então escondendo o sorriso, fazendo sua melhor cara de impaciente. “Sabe, você deveria proteger sua casa melhor. Dessa vez foi apenas seu noivo que entrou, mas poderia ter sido qualquer um.” Disse usando um tom de repreendimento, enquanto a encarava na espera da reação alheia. “Olá, Lyra.”
Todos os dias, quase sem exceção, Lyra Schneider agradecia pela decisão de ter finalmente se libertado das garras de seus pais. E se convencia, também diariamente, que apesar da escolha de ter voltado para a Alemanha quando adolescente ter sido um erro, mesmo tento sido escolha sua, a fez valorizar ainda mais cada defeito e qualidade do Reino Unido, especialmente da cidade em que morava e de que nunca deveria ter se afastado, Londres. Qualquer lembrança, por menor que fosse, que remetesse à sua família, era ignorada. Não odiava seus avós, longe disso, mas seus pais, pareciam ter como missão de vida atrasá-la. E isso era algo que a Schneider havia aprendido a não tolerar. Estava feliz ali, livre e tomando conta da vida com as próprias mãos em muito tempo, não deixaria que eles estragassem tudo de novo.
O dia no Ministério havia sido exatamente como todos os outros: entediante até que algo desse errado. Lyra nunca gostara de surpresas, era verdade, mas parecia ter vocação para lidar com imprevistos, principalmente no departamento onde trabalhava. Seu trabalho se resumia a isso e a pesquisar mais detalhes sobre sua família, ou melhor, seus dois meio-irmãos que também moravam ali. E, por sorte, suas esperanças não pareciam ser uma perda de tempo, afinal a cada dia que passava, a morena sentia que estava ainda mais perto do uma resposta concreta. Algo que poderia usar para chegar até eles definitivamente, sem se expôr, ou expôr qualquer um deles.
Precisou ficar até um pouco mais tarde àquele dia, depois de ter entregado seus relatórios, Lyra acabou encontrando Leonard e, como esperado, acabou esquecendo do tempo enquanto estava com o melhor amigo. Voltou para casa aparatando, o que raramente fazia, mas sabia que sua coruja estaria faminta à sua espera e não queria precisar escutar suas reclamações pelo resto da noite. Aparatou para duas quadras de sua casa e seguiu o caminho à pé, até adentrar no hall do apartamento que morava, cumprimentando brevemente os vizinhos e se direcionando para a entrada de seu apartamento, tirando as chaves do bolso do sobretudo escuro que trajava.
Encaixou a chave na fechadura e destrancou a porta sem dificuldade, finalmente acostumava a usar o artigo trouxa. No começo, Lyra sempre tentava abrir a porta trancada sem a chave, ou tirava a varinha do bolso para destranca-la e acabava se xingando mentalmente, completamente frustrada com a falta de atenção. Não fora à toa que escolhera um bairro trouxa, Lyra queria ser discreta e não queria que nenhuma visita indesejada aparecesse e conhecendo sua família bem o suficiente, saberia que eles nunca a visitariam ali. -- I’m sorry, Frida. I’m late. -- Falou em alto tom para a coruja que deveria estar esperando na janela, enquanto ligava as luzes e tirava o sobretudo, parando abruptamente quando ouviu uma voz masculina vindo da sala e pressionou os olhos com força antes mesmo de virar para olhar para ele. -- Ela não fez isso... -- Sussurrou baixo, xingando todas as gerações de sua mãe mentalmente e até a si mesma por duvidar da mulher, só então virando na direção do homem sentando no sofá, com o maxilar rígido e o olhar frio fixo nele. -- O que diabos está fazendo aqui, Wolfgang? -- Questionou séria, ignorando o comentário anterior e, principalmente a palavra que ele fez questão de dizer com tanta ênfase.