wasted younger years;
fabrizioardengo:
Não era de agora que seus olhos não brilhavam tanto ou que seu sorriso não se fazia mais tão largo. Não era de agora que os gestos sempre grandiosos tornaram-se diminutos, que a espontaneidade deu lugar a melancolia quase palpável, que os sentimentos antes tão nobres que sentia por Redmayne o impediam de expressar. Ou será que apenas se enganara por tanto tempo que, agora, já não mais sabia como fingir? A verdade é que as atuações de Fabrizio perante o comportamento do namorado já não eram tão mais precisas.
Dentro dele, algo se corroera ao longo daqueles dois anos, ao longo dos dias passados ao lado do mais velho e que se substituíam lentamente pela memória das noites amargas e acompanhadas da solidão e do ranço sentido ao imaginá-lo nos braços de um outro alguém. Se há dois anos a ideia de um relacionamento lhe parecera boa, se lhe parecera que ao menos parte de Rocco seria sua, agora não o era mais. Fabrizio viu sua irritação com coisas pequenas morrer e aquele sentimento que era tão bom, tão puro, vinha sendo manchado por uma mágoa que fazia o peito se apertar.
Dilacerava de dentro para fora e, em decisão aparentemente súbita, na verdade teve meses de preparação. Um apartamento apenas para si, alugado após três meses de debate interno, malas que foram sendo feitas aos poucos e que Rocco, em sua ausência, não notou no fundo do armário. Na semana anterior, conquanto, Fabrizio mudara-se de vez.
Ele não poderia deixar que mais um dia dos namorados escorresse por seus dedos, que cada boa lembrança fosse sufocada por uma nova ruim, não queria isso. E no bilhete de adeus, forçou-se a não colocar o novo endereço. A tentação em voltar, conquanto, fazia grande agora que largado sobre o sofá do apartamento ainda não propriamente montado, de caixas abertas e desarrumadas enquanto o cobertor lhe aquecia naquele Valentine’s Day e o sorvete Häagen Dazs o alento que encontrara; um bem pequeno, porque já era a terceira vez que se fazia pronto a lacrimejar enquanto assistia Titanic na TV pela milésima vez.
Ele só estava tão cansado e sentia tanta saudade que bastava fechar os olhos para ver os azuis de outrem. E nada, nunca, nem os primeiros anos afastados fora tão doloroso. Mas Fabrizio sabia que merecia mais e estava na hora de parar de fazer papel de idiota. Afinal, se chegaram naquele ponto, era sua culpa também.
Autoconfiante por demais, era isso que Rocco era e justamente isso que estava lhe custando o próprio relacionamento. Era um completo idiota, verdade fosse dita, e de modo que algumas vezes mal possuía ciência do fato, como na exata situação em que estava agora. Talvez insensível fosse a palavra para a ocasião também, tendo em vista que não tinha a mínima ideia de que estava magoando alguém tão importante para si, mas ah, como estava.
Não haviam exatamente estabelecido uma coisa fixa e Redmayne, despreocupado como bem era, deixou que as coisas fossem continuando em um tipo de relacionamento mais aberto, dormindo e flertando com outras pessoas, embora não se envolvesse emocionalmente. Ele parecia ok com isso, certo..? mais uma vez, errado. Era uma pessoa um tanto prática com as coisas ao seu redor e costumava manter tudo simples, essa era a maneira que tinha aprendido a fazer as coisas conforme os anos se passavam, seus endereços mudavam e ele era forçado a se desprender de pessoas com as quais esteve, tanto em quesitos de amizade como de casos amorosos. O fato é que no meio de sua volta, por mais que sua intenção fosse ganhar o único ex namorado que o importava – mesmo que em mente, na época dizia ser apenas um tipo de coincidência, uma coisa que acontecera. – essa simplicidade e autoconfiança juntas o fizeram ser tão cego. Se iludiu pensando que estava tudo bem, que um relacionamento aberto era sim o que Fabrizio queria. Mais uma vez, como fora burro de pensar dessa maneira. E agora, com os olhos passando pelo bilhete que lhe fora deixado sem indicações de para onde exatamente tinha ido, sentiu uma dor como nunca antes. Uma dor pior do que a sentida quando precisou ir embora, deixando o italiano para trás sem mais explicações. Não era uma pessoa de chorar e não foi agora que começou, entretanto sentiu um aperto tão forte no coração, uma agonia descomedida e a ciência de que a culpa era inteiramente sua. Claro que era, Ardengo não era nada menos do que o melhor para ele e a realidade bateu em sua cara com força.
Era insistente, no entanto, e não deixaria essa passar, tinha que dar um jeito de ajeitar as coisas outra vez e para sempre. Era a hora de ter um relacionamento maduro e fixo com a pessoa da qual amava e que tinha magoado. Sua mente imediatamente passou a funcionar para que conseguisse achar o endereço oculto no bilhete deixado, se o namorado – ou ex – poderia ir para qualquer lugar em Londres, ou até mesmo fora de Londres, teria que dar um jeito de achá-lo que não fosse sair de lugar em lugar perguntando pelo moreno com a esperança de encontrá-lo. Depois de um tempo de reflexão dolorosa, lhe veio em mente que possuía o número do cartão de crédito do mais novo, de modo que poderia o encontrar pelas informações do que fora pago nos últimos tempos e voilá! Lá estava, o extrato do apartamento que se situava um pouco mais longe, como havia descoberto após mais pesquisas. Considerando que tinha de fato se estabelecido na Inglaterra, o australiano agora tinha um carro, do qual dirigiu o mais rápido possível até que chegasse no destino desejado, uma sensação de afobação envolvendo alguém que normalmente era tão calmo. Talvez esse fosse o problema, estava calmo demais durante esses anos, uma calmaria que chegava a ser acomodada no que dizia respeito ao relacionamento dos dois.
Tinha começado a chover lá fora, o cenário romanticamente perfeito para alguém arrependido, voltando como um cachorro com o rabo entre as pernas e a esperança de ser aceito de volta, após ter feito algo de muito errado. Tinha o violão em mãos e um presente que havia comprado alguns dias atrás, para que o desse. Entrou no prédio ensopado, convencendo o porteiro que tinha vindo de muito longe para fazer uma surpresa ao namorado, de modo que pôde entrar sem problemas. Assim que parou de frente para a porta certa, respirou fundo, desprovido de frio por mais que estivesse todo ensopado, pois o corpo inteiro era tomado por sensações ruins como nunca antes: havia perdido parte de sua autoconfiança dessa vez. — Mi amore... — O chamar veio alto o suficiente para que ele escutasse do outro lado da porta. — Sono stato stupido. — Seu italiano continuava muito bom pois, embora os anos houvessem se passado, a convivência com ele o fazia usá-lo com frequência, o tom de voz realmente demonstrando o arrependimento, a culpa. — Me deixa entrar, mi amore. — Pela primeira vez em muito tempo, suas palavras vieram frágeis. Embora não tivesse um coração ruim, existiam traços frios em sua personalidade, aprendidos com o decorrer da vida e novamente, por conta de tantas mudanças, o que fez com que passasse a se desligar de pessoas e se focar mais naquilo que vivia, não com quem. Mas Fabrizio... Fabrizio o quebrava quanto à isso e mesmo assim, tinha o quebrado e de forma diferente. Sentiu a própria fragilidade exposta agora, sentiu como se importava, como sempre se importaria com ele e como precisava que as coisas ficassem certas entre eles. Com receio de não ter o pedido atendido, posicionou o violão para que começasse a tocar. — You know I try, but I don’t do too well with apologies. I hope I don’t run out of time, could someone call a referee? ‘cause I need one more shot at forgiveness… — O plano de cantar essa exata música já tinha sido arquitetado no caminho. É claro que tinha passado por sua cabeça tocar Cranberries, algo que seria decerto memorável, entretanto para que fosse ouvido, essa música se encaixava perfeitamente com a situação em que havia se colocado por pura estupidez descomedida. A voz continuava saindo forte o suficiente para que ele escutasse, embora tivesse suas falhas em decorrência de tudo o que o acometia agora, toda a dor por ter sido deixado com todas as razões do mundo. — I know you know that I made those mistakes maybe once or twice. By once or twice, I mean maybe a couple a hundred times... so let me, oh, let me redeem, oh, redeem, oh, myself tonight. — Prosseguiu, a voz falhando no final da última frase, sem que pudesse proferir a outra. Esperava que o coração gigantesco do ex namorado tivesse espaço para o acolher uma última vez, pelo menos uma última, para que pudesse depositar tudo que tinha de si nisso. Era péssimo com explicações e desculpas, como dizia a música, entretanto dessa vez faria de tudo.
















