Nada me pertence, mas as coisas que tenho e amo acabam tendo um valor — seja os intrínsecos a elas, seja os que depositei em forma de afeto. Eu, ou mesmo o tempo, começo a ter visões positivas dentro de mim, e foi depois de queimar feito uma estrela que me senti em paz, feito um monge.
Certo dia pensei em tirar minha própria vida, deixar para trás tudo que escrevi até aqui, mas, mesmo assim, não seria tudo. Se o fizesse, continuaria engasgado com a raiva e a melancolia. No momento em que os vermes começassem a se alimentar do meu corpo, meu espírito também faria parte — isso é algo que não desejo.
De fato, eu gostaria de colocar meu espírito frente à minha carne para me ensinar lições que só o divino poderia — um espírito intacto.
Já encaixado nesse mundo, basta viver entre os blocos que guardam as flores em seus pequenos vãos. Eu sou um bloco, e minhas flores se mantêm aqui. Foi minha visão que as matou em uma realidade que não pertenceu a mais ninguém. Elas sussurraram por bastante tempo que o que eu estava fazendo doía muito, e parte dessa dor estava começando a fazer parte do meu rosto, enrijecendo cada olhar e cada palavra.
Pode ser que nada do que me ocorreu nos últimos meses tenha alguma relação, mas foi depois de uma solidão absoluta que qualquer ausência passou a se tornar, realmente, algo com um sentido. Faz sentido isso, faz sentido aquilo — faz sentido eu começar daqui de onde estou.