O AVÔ PATERNO DE FRANCO NOGUEIRA.
PARTE II – Paço de Mato: - Aldeia na Serra da Freita
Por: - Manuel de Almeida.
O AVÔ PATERNO DE FRANCO NOGUEIRA.
Sabendo-nos interessado pela historiografia das pequenas povoações serranas, dizia-nos o tio Floriano Brandão de Viadal que “Franco Nogueira (1) era de Paço de Mato”.
Mediante leituras da Imprensa Local, fomo-nos apercebendo, ao longo dos anos, que tinha havido em Lisboa um Cambrense ilustre, Dr Domingos Nogueira, prior da Lapa, e com origem em Cabrum, freguesia de Arões.
Também por pesquisas que fizemos para um trabalho intitulado “A Casa da Comarca de Oliveira de Azeméis em Lisboa” (2) fomos colhendo indícios de que Alberto Franco Nogueira tinha contactos regulares com essa instituição de utilidade pública, nomeadamente como palestrante em conferências lá organizadas pelo Dr Albino dos Reis, natural de Oliveira de Azeméis, membro dos órgãos sociais, deputado e Presidente da Assembleia Nacional.
Trabalho recente de Carlos Almeida, publicado na Voz de Cambra de outubro/novembro de 2024, veio ajudar a esclarecer em definitivo a ligação do ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros a Paço de Mato.
No entanto, temos de recuar a meados do século XIX, e às povoações de Paço de Mato e Cabrum, para entendermos aquilo que a lenda referia e a documentação comprova.
Comecemos por Paço de Mato, freguesia de Roge, onde nasce em 12 de dezembro de 1859, uma criança do sexo masculino a quem vai ser dado o nome de Domingos, filho de Francisco Tavares de Almeida de Paço Mato e Maria Martins de Cabrum. O nascituro vem a adotar o nome completo de Domingos de Almeida Fernandes Nogueira. (3)
Poucos anos depois, vai nascer em Cabrum, em 4 de março de 1864, um outro Domingos - mais tarde Prior da Lapa - filho de Domingos Fernandes de Cabrum e de Maria Tavares de Paço de Mato.
Sendo filhos de gente humilde, e primos direitos, com vários irmãos e irmãs, vêm a beneficiar da proteção de seu tio o Reverendo Manuel Fernandes Nogueira, nascido em Cabrum em 12 de janeiro de 1829, e Prior do Socorro em Lisboa, onde faleceu com a idade de 65 anos.
Trazidos para a capital com a idade de 5 ou 6 anos, onde iniciam estudos, são encaminhados para os Seminários, nomeadamente de Santarém. Sendo alunos aplicados, vão terminar os seus cursos superiores em Coimbra, tendo-se diplomado em Teologia e em outras áreas complementares. Seguiram, no entanto, percursos profissionais e espirituais distintos.
Domingos Manuel Fernandes Nogueira, natural de Cabrum e Prior da Lapa, dedicou-se essencialmente à vida religiosa (4), embora com passagem pela política, ao tempo da monarquia de que era defensor acérrimo. Ordenado sacerdote, exerceu o seu magistério em Santa Catarina nas Caldas da Rainha; S. Domingos de Rana em Cascais; Socorro, Sacramento – tinha 26 anos - e Lapa em Lisboa. Esta, durante 40 anos.
Para além da formação em Teologia, também tinha adquirido competências, parece, em Matemática, de que foi professor (5), e em Geologia.
Os jornais publicados em Cambra, nas duas primeiras décadas do século XX, referem que era “um entusiasta pesquisador de jazigos de substâncias minerais”, em particular na Serra da Freita.
Em 1917 fez um passeio à Frecha da Mizarela, transportado num carro de bois; acompanhado de Alberto e António Nogueira, notário e advogado em Vila Franca de Xira e algumas personalidades de Cambra. O fotógrafo da Gandra, Augusto Tavares de Sousa, tirou as fotografias. (6)
Aquando da implantação da República, em 5 de outubro de 1910, foi aconselhado pelo Dr Bernardino Machado, de quem era amigo, a ausentar-se de Lisboa, o que fez, refugiando-se em Cabrum, durante uns tempos. Na década de cinquenta, do século findo, esse acontecimento era muitas vezes motivo de conversa entre as pessoas das aldeias das faldas da serra da Freita e que com ele tinham por lá convivido.
Em simultâneo, dedicou-se à benemerência nas suas freguesias e na Ordem Terceira de S. Francisco em Lisboa, de que foi Venerável Ministro da Mesa Administrativa nos períodos de 1902 a 1911 e de 1923 a 1944, ano da sua morte a 3 de março. (7)
Encontra-se sepultado no Cemitério dos Prazeres em Lisboa, no jazigo da família Botelho de Vasconcellos, Rua 47, H, segundo informação verbal da respetiva Secretaria.
Já o seu primo, Domingos de Almeida Fernandes Nogueira, nascido em Paço de Mato, também obteve estudos superiores, ano de 1882, em Cânones e Direito Canônico. Como este curso permitia a atividade civil, vai prescindir da vida eclesiástica e radicar-se em Vila Franca de Xira, como advogado.
Casou, cerca de 1887, com Segisfreda Herodines da Veiga Gorjão (1867 – 1946), natural de Vila Franca de Xira (8). Desta união vão nascer dois filhos varões que, tal como o pai, vão estudar direito para Coimbra:
– Alberto Henriques Gorjão Nogueira, nascido em dezembro de 1888 e que veio a ser advogado e notário em Vila Franca de Xira.
- António Victor Gorjão Nogueira, nascido em 5 de dezembro de 1889, mas batizado a 3 de fevereiro de 1890, em V. F. de Xira. Este que exerceu as profissões de jurista e juiz de direito é que vem a ser o pai do embaixador Franco Nogueira, de quem estamos a tratar neste capítulo.
O seu casamento realiza-se em V. F. de Xira, em 5 de julho de 1917 com Teodolinda Aida da Fonseca Franco (1894 – 1965); sendo que no ano seguinte (9) nasce a 17 de setembro de 1918 o seu filho Alberto Marciano Gorjão Franco Nogueira, ou seja, o futuro ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar.
Tal como os seus ascendentes paternos também vai cursar direito, mas agora já em Lisboa, onde se licenciou em julho de 1940.
Em 1941 concorre ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, tendo sido aprovado para a carreira diplomática.
Depois de ter estado colocado em Lisboa é enviado para a delegação portuguesa no Japão, onde chega já no final da segunda Guerra Mundial, em janeiro de 1946 com o posto de 2º secretário.
No final desse ano, requer autorização para casar com a luso-chinesa Vera Machado Wang, filha de Otília Machado Duarte e Wang Shuyao, diplomata chinês. O matrimónio de Franco Nogueira e Vera Machado vem a ocorrer nos últimos meses de 1947.
Desta união, vai nascer uma criança do sexo feminino a quem vai ser dado o nome de Aida Franco Nogueira (10), também jurista, mãe de duas filhas a Filipa e a Joana, conforme consta na edição de 22 de Agosto de 2020 do Diário de Notícias, in Internet.
Sobre a atividade profissional, académica e política do embaixador Franco Nogueira existem imensos estudos que não cabem no âmbito deste despretensioso trabalho. Somente nos interessa deixar para memória futura a sua ligação à Terra de Cambra, em geral e a Paço de Mato em particular; donde era também originário o nosso avô paterno António de Almeida, nascido a 12 de janeiro de 1878 e batizado a 20 desse mesmo mês, na igreja matriz de Roge.
– Último ministro dos Negócios Estrangeiros do tempo de Oliveira Salazar.
2 – Publicado in, Ribacaima.Tumblr.com em fevereiro de 2023. A morada da Padaria Portuguesa é na Rua Luís Derouet, em Campo de Ourique, Lisboa.
3 – In, Registo de nascimento dos filhos (anos de 1888 e 1889/90) e padrinho de batismo, por procuração, de Berta, nascida a 20 de janeiro de 1892, em Função, mas baptizada a 14 de fevereiro do mesmo ano em Rôge.
4 - Temos redigido, de forma romanceada, um extenso trabalho, intitulado “Da Suíça Portuguesa a Sintra: - Duas Longas Caminhadas”, de que não temos conseguido a sua publicação. Aqui, baseados na lenda e em documentação arquivística, abordamos o percurso de algumas personalidades com ligações a Cambra e Lisboa, nomeadamente o Dr Domingos Nogueira, Prior da Lapa e Ferreira de Castro.
5 – In, Jornal de Cambra de 13 de setembro de 1983 e sgts.
6 – In, “O Povo de Cambra” de 12 de Agosto desse ano.
7 - O seu falecimento foi amplamente noticiado pela maioria dos jornais que então se publicavam em Lisboa.
8 - Esta vem a ser madrinha, por procuração, de Hermínia, nascida em Paço de Mato em 17 de Fevereiro de 1899 e batizada a 26 do mesmo mês em Rôge.
9 - O seu falecimento dá-se a 14 de março de 1993, com a idade de 74 anos.
10 – Artigo publicado originalmente no D.N. de 16 Setembro de 2018.
Trata-se de uma muito interessante entrevista feita a Aida Franco Nogueira sobre a sua família, sobretudo a de origem chinesa.
NOTAS EXTRA: - O avô paterno de Franco Nogueira terá tido residência secundária em Função, situada pouco abaixo da ermida de Nossa Senhora do Desterro, como se infere das seguintes transcrições:
...LÁPIS: Chegou à sua casa de Função, freguesia de Roge, o dr. Domingos Nogueira e Família. – (JC de 17/9/1911)
2 - O Diretor do Jornal de Estarreja visitou as aldeias de Roge em 1924 - nº 1916 de 12 de outubro - tendo referido:
“Fuste é um sítio de higiene e de recreação do espírito.
Função tem a mesma elegância, os mesmos atrativos, aumentados pela ermidinha da Senhora do Desterro, ereta numa elevação, como a de todas as capelinhas, de maior devoção da Serra e que são uma nota característica daqueles povos.
No sopé do monte onde se ergue essa ermida, está a vivenda da família do antigo prior do Socorro e que é uma das mais distintas famílias daquele concelho”.
3 – Martins Ferreira, ano de 1942, também se lhe refere a pág. 138 do seu livro “Vale de Cambra”.
4. O REGICÍDIO E OS CAMBRENSES.
O Sr Adão Tavares de Carvalhal do Chão, poeta popular, disse-nos, em 1997, que havia um carbonário, Domingos Tavares, seu tio, a viver em 1910, em Lisboa, e que também aconselhou o Prior da Lapa a refugiar-se em Cabrum.
Mais nos contou que de Viadal também era carbonário, Manuel Ferreira, irmão das Cardosas e a viver então na capital.
Um e outro estariam posicionados para abaterem o rei e sua família, se necessário. Não conseguimos, até à data, encontrar o seu nome nas listagens que consultamos dos regicidas.
5 - Sobre a “Festa de Nossa Senhora do Desterro, em Função”, ver o nosso relato publicado na Voz de Cambra de maio e junho de 2007. Inclui fotos.
Da Touticeira, em Função, também era originário o nosso avô materno, Joaquim Fernandes dos Santos, nascido em 11 de julho 1878. (Vide, trabalho da nossa autoria, com o título: “O Tabelião da Serra”, publicado no livro Alminhas de Cambra, Coordenação de Adolfo Coutinho. Ano de 2021).
2 – LENDAS DE PAÇO DE MATO.
Um homem de Paço do Mato foi à feira e comeu, numa tenda, dois ovos cozidos. Como não tinha dinheiro, pisgou-se sem os pagar.
Entretanto, emigra para o Brasil. Estabelece-se por lá e arranja uns bons cabedais. Anos depois, regressa a Cambra e, como tem a consciência pesada, vai saldar a dívida.
Então, o vendedor dos ovos, diz-lhe: - "Atenção, agora a conta vai ser alta. Vê só: - Os ovos davam pitos - o mesmo que pintos - estes cresciam até serem galinhas, que, por sua vez, punham ovos, que davam pitos e assim sucessivamente". Mais lhe explicou: - "Atendendo aos anos decorridos, só te safas se arranjares um bom advogado".
O cliente devedor, todo atrapalhado, pensou para consigo: - "Onde diabo vou arranjar um causídico, que me livre desta enrascada?".
Nisto, sem nada que o fizesse prever, apareceu-lhe o verdadeiro diabo que se ofereceu para o defender.
No dia seguinte, data da audiência, chegam á hora marcada, e vão os dois a Tribunal: - cliente devedor e o demónio feito advogado.
Acontece que o Dr. Juiz nunca mais os chamava, por ter, certamente, assuntos mais urgentes para julgar.
Lá para o fim da tarde, o Magistrado inicia, finalmente, a audiência e ouve os argumentos do queixoso. Estes foram, como previsto, no sentido de pedir, ao devedor, uma choruda indemnização. De seguida, o Juiz pergunta: - "Onde está o diabo do advogado, que representa o réu que não pagou os ovos cozinhados?"
. O diabo: - "Estou aqui, Sr Dr Juiz".
. O Juiz: -"Que esteve a fazer?"
. O diabo: - "Estive a cozer favas para os meus criados semearem".
. O Juiz, estupefacto, pergunta: - "Favas cozidas nascem?";
. O diabo, convicto da sua razão, responde em modo interrogativo: - " E ovos cozidos dão pitos, e estes galinhas, Sr Dr Juiz?"
Conclusão: - Devido aos argumentos do demónio, o homem de Paço do Mato foi absolvido e nem o valor dos ovos cozidos pagou.
2.2 A FALTA DE COMIDA E O ROUBO DA FARINHA.
Em tempos, viveu em Paço de Mato um homem que não tinha comida para dar aos seus filhos.
Certa noite, foi a um dos moinhos do Caima, nas redondezas da Ponte, e roubou um saco cheio de farinha. Deixou, porém, um bilhete onde estava escrito, o seguinte: - "A fome não tem lei e eu para o ano pagarei".
No ano seguinte, como a colheita de milho lhe tinha sido favorável, secou uma fornada deste cereal e levou-a ao mesmo moinho, saldando assim a dívida, conforme prometido.
Quem ficou surpreso e intrigado foi o dono do moinho, que nunca mais deixou cair no esquecimento tal façanha e honradez do seu vizinho.
2.3 OS MARIA TERESA DE PAÇO DE MATO.
Estava-se em finais de abril e as sementeiras do milho decorriam a bom ritmo. Adivinhando mudança de tempo, um membro da família dos Maria Teresa (1) decide ir lavrar, com as suas vacas, um campo que possuía nas Ribes. Embora de boa fé, fê-lo num dia santo - S. Marcos - em que não se deve fazer trabalho braçal e muito menos prender o gado.
Depois de feito o cadabulho e espalhado o esterco, deu início à lavrada da leira. À frente da "junta das vacas"(2), como candeeiro (3), ia um outro parente e ele atrás, pegando na rabeca do arado.
Apesar da tarefa decorrer com a normalidade costumeira - pese embora o facto de uma das vacas, de vez enquanto, dar uns coices, sem se saber bem o porquê - aconteceu o inesperado.
Depois de um remoinho de vento, gado, candeeiro e lavrador levantaram voo e foram cair, mais abaixo, no Poço do Diabo, no rio Caima; um pouco acima do açude do Moinho do Rão, ali entre Paço de Mato e Viadal.
Dada a profundeza do poço, nunca mais se soube nada da existência do lavrador, seu companheiro, respetivos animais e ferramentas.
Como era de esperar, foi tão grande o susto que os descendentes dos Maria Teresa não mais trabalharam, e muito menos prenderam gado, nesse dia; a não ser que fosse para outra pessoa, que não pertencesse à família e residisse noutra aldeia.
3.1 A VENDA DE UMA VACA EM CARVALHEDA.
O Pelado de Carvalheda vendeu uma vaca a um homem de Cabrum. O comprador perguntou: - "Compadre, a vaca é boa?".
" Come palha como um lobo,
Dá leite por todos os cantos.
Feitas as contas, o de Cabrum foi-se embora com o animal. Chegado a casa, verificou que a vaca não correspondia com as expectativas. Por isso, regressa a Carvalheda para desfazer o negócio. Porém, o Pelado, disse-lhe. - "Eu, contei-lhe a verdade toda. Você é que não a compreendeu".
Por isso, esta "estória" passou à história e ainda hoje se diz, a propósito de um animal que não trabalhe. - "É como a vaca do Pelado de Carvalheda".
Informante: - Tia Lina de Viadal. Ano de 2008.
3.2 DA PELADA DE CARVALHEDA, que era cantadeira.
Numa rifa, cantou ao Alegria de Cabrum, o seguinte:
Quantos buracos eu tenho?”
“Vou-te saudar Margarida,
Tens cinco buracos na cara,
E o “cone, mais o cu, faz sete”.
Informante: - Sr Adão Tavares de Carvalhal do Chão. Ano de 1997.
(1) - Em Viadal descendiam diretamente desta família o tio Joaquim do Rego e irmãos. Também nós, e segundo nos disse o nosso pai, temos uma costela dessa gente, já que o nosso avô paterno, António de Almeida, era natural de Paço do Mato. Era irmão do tio Luciano, pai do tio Manuel da Quelha, que ainda conhecemos.
Num desses dias o meu avô, embora em Viadal, tentou lavrar uma leira na Tapada. Acontece, que as vacas se recusavam a cumprir a sua tarefa e ele desistiu. Passou a fazê-lo noutro dia.
(2) - O mesmo que parelha. Possuir uma "junta de bois", para o trabalho e/ou "carreto" era o sonho maior de qualquer lavrador que se prezasse.
(3) - O que pega na soga e conduz a parelha do gado. Enquanto rapaz, era uma das nossas tarefas na lavoura. Pegar no arado e charrua era trabalho para as pessoas adultas, normalmente os homens
Beto, Manuel e tia Lina, devidamente equipados para a jornada.
Basílica da Estrela, ano de 1943. Foto de divulgação.
Retirado da obra de Martins Ferreira, ano de 1942.
Registo de nascimento e baptismo do Dr Domingos Nogueira de Paço de Mato. Ano de 1859.