Talvez não dê pra ver a diferença
Sonhei que minha namorada cortava meus braços. E era num clima bom. Rimos durante todo o processo.
Começou com uma brincadeira de faca. Passou pra ela brincando sobre me matar. Terminou comigo concordando que matar seria demais mas cortar os braços, aceitável.
Em um breve milésimo de segundo ou outro eu me sentia desconfortável. Pensava se eu conseguiria alcançar os planos que tinha com essa nova falta. Pensava se ela não fazia aquilo justamente por isso. E pela beleza dos meus braços. Pensei em como gostava das minhas mãos. Depois de cortados olhava pro que os olhos alcançam e me questionava como podia que parecesse tudo normal. No fim sentia uma vontade de sair de perto que era quase um sopro. Sugeria e saía num clima descontraído, rindo, mas apressada.
Saía para uma casa cheia de gente. Lá dentro éramos só nós numa luz baixa, num quarto apertado. Aqui era espaço e o som de um quintal cheio de risadas pesadas.
Passava por um espelho pequeno na entrada da sala da minha casa de infância. Sentia um leve receio de me olhar. Encarava a porta, a luz lá fora, um monte de amigos que não queria encontrar. Não sabia por quê, só sentia que não era uma boa ideia. Sentia vergonha da minha roupa. Sentia que seria demais pra mostrar.
Voltava, não resistindo ao ímpeto de olhar o espelho. No reflexo pequeno de luz baixa e amarela eu via meus braços num remendo. Ainda no mesmo lugar. Agora marcados pela diferença. Me perguntava se ainda dava tempo de juntar.
Alguém que eu amava aparecia. E eu o respondia e falava de perto meio me escondendo. Me chamavam do lado de fora mas ele me trazia comida. Não questionava muito por que eu não saía. Eu o usava pra me trazer o que queria sem precisar me mostrar pra ninguém. Ficava dali de trás da porta enquanto ele circulava, pela sala, pela cozinha.
Numa outra cena ele me chamava no quarto com ela pra tirar uma foto de inverno. Me jogava um casaco sem mangas que me causava desconforto. Sentia uma afronta na escolha. Agora eu penso, os braços estavam no lugar. Talvez não desse pra ver a diferença.














