“De tal modo me desvesti do meu próprio ser, que existir é vestir-me. Só disfarçado é que sou eu. E em torno de mim todos poentes incógnitos douram, morrendo, as paisagens que nunca verei.”
Fernado Pessoa, Trecho 456 do Livro do Desassossego
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“De tal modo me desvesti do meu próprio ser, que existir é vestir-me. Só disfarçado é que sou eu. E em torno de mim todos poentes incógnitos douram, morrendo, as paisagens que nunca verei.”
Fernado Pessoa, Trecho 456 do Livro do Desassossego

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Decodificação da Linguagem
Diz-me sobre a língua que paira
Límpida e úmida pérola
Em simbolismo etéreo
A palavra quase oração
Sentida sem métrica
Dita sem pudor íntimo
Que arde os lábios mais amenos
Que dança o balé inexorável
Da poesia em transe
E toca forte o ouvido alheio
Estilhaça os tímpanos
E rasga os ergástulos mais mundanos
Revoluciona os sentires e o pensar
Revira a pele e o ser para se tornar mais que carne
Para transpor o amor em movimento
A céus mais infindos que o abismo azuláceo
A nos fitar
(Sentires)
make a wish and fly away by Luminous Lu on Flickr.
Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas.
Livro do desassossego.

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E eu quero brincar de esconde-esconde, te emprestar minhas roupas, dizer que amo seus sapatos, sentar na escada enquanto você toma banho, e massagear seu pescoço. E beijar seu rosto, segurar sua mão e sair p'ra andar. Não ligar quando você comer minha comida, e te encontrar numa lanchonete p'ra falar sobre o dia. Falar sobre o seu dia! E rir da sua risada, da sua paranóia. E te dar fitas que você não ouve, ver filmes ótimos, ver filmes horríveis. E te contar sobre o programa de TV que assisti na noite anterior e não rir das suas piadas. Te querer pela manhã, mas deixar você dormir mais um pouco. Te dizer o quanto adoro seus olhos, seus lábios, seu pescoço, seus peitos, sua bunda. Sentar na escada, fumando, até seus vizinhos chegarem em casa, sentar na escada, fumando, até você chegar em casa. Me preocupar quando você está atrasado, e me surpreender quando você chega cedo. E te dar girassóis e ir à sua festa e dançar. Me arrepender quando estou errada e feliz quando você me perdoa. Olhar suas fotos e querer ter te conhecido desde sempre. Ouvir sua voz no meu ouvido, sentir sua pele na minha pele, e ficar assustada quando você se irrita. […] E te pedir em casamento, e você diz “não” de novo, mas continuo pedindo, porque embora você ache que não era de verdade, mas sempre foi sério, desde a primeira vez que pedi. Ando pela cidade pensando: É vazio sem você mas eu quero o que você quiser, e penso: estou me perdendo, mas vou contar o pior de mim e tentar dar o melhor de mim porque você não merece nada menos que isso. Responder suas perguntas quando prefiro não responder, e dizer a verdade mesmo que eu não queira, e tentar ser honesto porque sei que você prefere. E achar que tudo acabou. Espera só mais dez minutos antes de me tirar da sua vida. Esquecer quem eu sou e me deixar tentar chegar mais perto de você. E de alguma forma, de alguma forma, de alguma forma compartilhar um pouco do irresistível, imortal, poderoso, incondicional, envolvente, enriquecedor, agregador, atual, infinito amor que eu tenho por você.
Sarah Kane - Reflections of a skyline (via suplicavel)
untitled by stefanyalves on Flickr.
Píer
Em meus pés as ondas tímidas quebrantam em espuma numa cadência quase sinestésica;
E os meus olhos debruçam-se sobre o horizonte buscando entre as luzes acesas as tuas cintilantes íris.
Os lábios róseos tremem pela brisa frívola do mar, e o gosto de sal ‘inda repousa na boca, mesclado à leveza do beijo de outrora.
Conchas cintilantes são polidas pela avidez da água, e meu coração se enche de ternura ao ouvir o tilintar das últimas gotas colidindo contra a rocha morna.
Na areia há rastros e pegadas de um amor sendo, enquanto adentro ao mar e canto uma ode às estrelas sobre quão tamanha é a minha saudade.
Os barcos singram por entre minhas dores, ferindo a maré branda;
A noite evolve o mar, a minha solidão e canta canções de ninar aos pássaros como um eco distorcido ao longe no farol.
Diante da imensidão das águas tento me reerguer de ti, porém desfaço-me como espuma e seda em teus braços.
(Sentires)
Édouard Bisson
French, 1856-1939
Love’s Messengers , Two Maidens, The Three Graces (details)
Lilies and Fears
Há o frágil desespero de um par de olhos e o cansaço solitário da monotonia das horas. Da janela o dever vocifera duro e exposto como um sol estático, os lírios sorvem e se intoxicam pela manhã rígida e compacta como concreto. A vida se transcreve pálida, alienada. Os sonhos pintados de um Almodóvar artificial que encobre o plúmbeo coração, sedento de ondas de sentires, de quando a vida se amenizava no abraço acolhedor de olhos carinhosos. Saudade perdida sem nome. A matéria que embala o fluídico se dissolve tal como as espumas das águas. Os verões são como invernos na colina, o ar é rarefeito e a inquietação remói o existencial. As mãos e os pés em contato com o linóleo tentam se desprender num ato natural de despedida. Desejo a dança porém o paradoxo da liberdade aprisiona-me.
Não se ouve ou diz nada, apenas espaçados e rasgados risos ao longe para me vir à memória a recordação do que é a vida. Mordo a realidade com os dentes e contorço-me na angústia de ansiar liberdade. Conto as horas e o tempo é morto e pesado. O som agudo do silêncio parece ensurdecedor, a linha que o mantém é tênue. Deito-me em convulsão de ideias e preceitos e a vida se configura num abismo profundo que nos sorve o sangue pacientemente.
Os lírios não são feitos de solidão…
(Sentires)

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É preciso certa coragem intelectual para um indivíduo reconhecer destemidamente que não passa de um farrapo humano, aborto sobrevivente, louco ainda fora das fronteiras da internabilidade; mas é preciso ainda mais coragem de espírito para, reconhecido isso, criar uma adaptação perfeita ao seu destino, aceitar sem revolta, sem resignação, sem gesto algum, ou esboço de gesto, a maldição orgânica que a Natureza lhe impôs. Querer que não sofra com isso, é querer de mais, porque não cabe no humano o aceitar o mal, vendo-o bem, e chamar-lhe bem; e, aceitando-o como mal, não é possível não sofrer com ele.
Fernando Pessoa.
Collage, Rocio Montoya
Os remos batem nas águas: têm de ferir, para andar. As águas vão consentido — esse é o destino do mar.
Cecília Meireles, Quadras; in Viagem, 1939.
No lampejo das horas rascantes
Nestas veredas donde o bem e o mal traçam contendas;
É ainda brando e morno o meu coração;
São ainda pueris as solas dos meus pés ;
As quais beijam o solo firme e rubro que trilho.
Ante a provação, às tribulações
O escudo das tuas asas me acalenta.
Hesito adentrar no mar do teu sorriso, porém caminho;
Com medo do afogamento, do sufocar em tuas mãos;
Porém tu és a estrela cadente do horizonte;
Um ponto luzente, conquanto distante e doído;
Uma lágrima de cristal;
Poesia em curso.
(Sentires)

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Dá-me tuas rosas e deixe-as morrer até o sentir durar
Tu não me compreendes. A sanidade não se esvai de minh'alma nem por um segundo nesta noite que arde sob nossas cabeças. Enquanto toco-te com a polpa dos dedos, permaneço intacta e incólume. Sou incógnita para além de teus olhos, como espuma e água se esvaindo dos teus cabelos e nuca morna. Te percorro mas não o pertenço, sou superfície impalpável. Meu peito é intangível, tácito e duro; canta versos e os petrifica. Tenho medo, me aproximo desejando a fuga desse tempo morto, que se solidifica ao meu lado.
(Sentires)
Ímpeto
Desvende-me como a águia na iminência da presa;
Descobre-me, vire a minha pele do avesso e decodifique-a;
Vês que sou nada mais que carne, osso e sangue;
Encha-me de tua liquidez, dance o balé fulgurante;
Escorra teus sentires em mim, adentre aos ventos setentrionais ;
E tanja a lira que desarma-me num só toque;
Desarranja os vasos inócuos que me sustentam;
Desvele, revele os segredos e saiba que o desejo escorre pelos poros;
E a dor do momento é mais que um céu.
(Sentires)