Aos trinta.
Ainda faltam algumas horas. Mas, por ansiedade ou costume, já acordo na manhã seguinte.
Bexigas vazias, resto de bolo na louça, mais uma manhã de segunda sozinho, lidando com as demandas do exterior, enquanto concilio com as vozes aqui dentro. Viver à frente do meu tempo é algo que coloco na conta da ansiedade.
Estive fora por alguns anos, não por não ter o que dizer, mas porque o atropelo da vida adulta é uma sina difícil de escapar. A gente acha que é imune na infância, tem certeza na adolescência e na juventude, mas se prova completamente errado quando se torna adulto. Por aqui é preciso estimular a criança, viver na busca da fagulha de intensidade da juventude, enquanto finge-se que ser adulto não é absolutamente normal.
Não digo isso com desprezo ou como demérito. A essa altura, ser normal é bom. Tenho uma gatinha absolutamente comum, curiosa, brincalhona, amorosa. Um marido, parceiro de vida, que é incrível. Não daquele incrível idealizado, raro por definição, mas do tipo que existe de verdade. Não mais com aquele tom superior de que é o mais especial de todos e está comigo. Seria vaidade pensar assim.
Tenho menos amigos que antes, do tipo que não enche mais uma mesa de rodízio, mas é possível montar uma mesa para um jantar intimista e saber sobre a vida deles, que não tenho conseguido acompanhar. Viver não é mais um martírio, mas também não é uma estrada de dopamina. Tem sua temperança.
Raros são os momentos em que me permito observar as coisas desse lugar: de cima, como se minha vida fosse minha série privada.
A culpa?
É sempre do tempo.
De modo que sequer encontro tempo para terminar este texto. Talvez seja essa a forma mais honesta de encerrá-lo.











