Qualquer um que tivesse o menor dos conhecimentos acerca da trajetória de vida de Aleksander tinha consciência dos monstros que o rapaz carregava consigo. Tal nível de informação nem ao menos chegava a ser necessário, na verdade. Bastava saber quem era o então chamado ‘pai’ dele para que seus traumas fossem justificados. Desde que entendia-se por gente fora obrigado a ser dono de não apenas si mesmo como a irmã mais nova. Uma simples criança forçada a tomar todas as responsabilidades de um adulto; as responsabilidades de um pai. Não estando apenas na posição de foragido, sempre correndo, sempre movendo-se de um canto ao outro e nunca permitindo-se permanecer no mesmo local por muito tempo, ainda tinha que preocupar-se em dar o mínimo do que pode ser chamado de ‘vida digna’ à infante que carregava consigo. Doreah era tudo que possuía, a unica coisa que possuía em sua vida que realmente lhe era de algum valor. Não seria capaz de viver consigo mesmo se não lhe proporcionasse tudo que estava ao seu alcance. Que era nada e, ao mesmo tempo, tudo. Mal foram capazes de escapar com as roupas do corpo, afinal o progenitor não era um homem fácil de se ludibriar mesmo sem ajuda, então era mais que óbvio que não possuíam nenhuma maneira de se manter durante a corrida por suas vidas. Isso era um grande problema, claro. Era inconcebível a ideia de ir a algum lugar e lá permanecer, mesmo que as duas crianças conseguissem o milagre de ir a algum lugar longe o suficiente. Entre tantas coisas, Kilgrave era um homem possessivo. Aquilo que era dele era dele e ninguém poderia dizer o contrário. Ele não ficaria satisfeito com a fuga dos filhos e, sendo o homem persistente que era, a probabilidade de persegui-los e tentar reavê-los era alta. Alek não tinha o menor desejo em pagar para ver, ainda mais por imaginar o que lhes ocorreria se o pai voltasse a colocar suas mãos nos dois. Para sua — discutível — sorte, não foram apenas traumas e rancor que o progenitor lhe deixou como herança. Aquela terrível habilidade que o homem tinha, capaz de dobrar qualquer um à sua vontade, fora transmitida às suas crias, mesmo que seu efeito fosse infinitamente mais brando. Com isso, então, que era um misto de presente com maldição, os dois conseguiram sobreviver e escapar do maior monstro de suas vidas pelo aquilo que aparentava ser para sempre. O rapaz conseguia sentir-se quase aliviado, como se enfim pudesse viver longe da sombra do pai e do trágico passado. Como nada que é bom pode durar, aquela sensação logo se esvaiu ao juntar-se ao Instituto. Todos os filhos do homem — seus irmãos — estavam naquele local e, não pouco depois, o próprio encontrava-se ali.
Seu primeiro instinto, o único que possuía, era o de pegar Doreah e ir para o mais longe dali. Era o que deveria ter feito. Ao invés disso resolveu por ficar e fingir que nada estava acontecendo. Grande erro. Um encontro com ele era inevitável e nada de bom poderia resultar da conversa do garoto com Kilgrave, e foi exatamente o que aconteceu. Mais que isso, o homem ainda teve a audácia de agredir sua irmã — ou melhor ainda: fazer com que a menina segurasse uma faca contra seu próprio pescoço. O desprezo que guardava do pai era tamanho mas para seu próprio bem e de todos os outros filhos dele preferiu por não ir enfrentá-lo. Isso até recentes acontecimentos. Ao ver o rosto de Astoria, a dita preferida do Homem-Púrpura que seria capaz de tudo pelo homem — até mesmo denunciá-los —, soube no mesmo momento quem era o responsável. A menina fizera muito mal a ele e Doreah mas nunca daria motivo para que alguém lhe batesse. Ninguém além dele, é claro. Nesse momento percebeu que a situação se tornara insustentável. Se era capaz de fazer tamanha atrocidade com aquela que era “digna” de seu amor o que ele faria com o resto? Alguém precisava intervir e, se ninguém estava disposto, Alek o faria. Não precisou procurar muito por ele, já tinha uma ideia de onde encontrá-lo. Adentrou a sala de aula e, como esperado, encontrou-o. — Precisamos conversar.