Repetir a canção infantil que tornara-se seu mantra era uma boa forma de nĂŁo se descontrolar. A dona aranha subiu pela parede, cantarolava dentro de sua caixa craniana, enquanto relembrava dos olhares divertidos de Thomas e Lisla sob si, quando a mesma recebia uma ordem de expulsĂŁo de mais uma escola. Vai ficar tudo bem, ela havia lhe dito, na mesma hora em que seu irmĂŁo lhe apertava. A chuva forte acontecia toda vez que seu pai cometia o erro de dizer para si mesmo como a loura parecia-se com Gwen Stacy e Amber conseguia ouvir: a desaprovação era clara no tom de voz da pequenina, sentimento este que sĂł aumentou depois de crescida, quando havia aprendido o sentido da morte. Sua irmĂŁ nĂŁo poderia ser igual a Stacy: NĂŁo era ela que as teias foram incapazes de salvar? NĂŁo, Lisla estava sobre a proteção de todos os Parker. Lisla estava sobre sua proteção. Amber Parker era uma heroĂna desde o berço, certo?
Ouvir a histĂłria foi pior do que pensava. A voz chorosa de Malina machucava em nĂveis astronĂŽmicos os ouvidos de Parker, nĂŁo por ser desagradĂĄvel, e sim, carregada de luto. A chuva forte havia derrubado de forma literal a mais velha, levando o espĂrito alegre de Amber consigo. Era o mesmo filme, que reprisava como uma piada cruel: Uma Osborn de espĂrito envolvida no Ăłbito de uma Stacy. Aquela aranha nĂŁo iria subir nunca mais pela parede, o mantra jĂĄ nĂŁo fazia mais sentido. A raiva era tamanha a ponto de impedir o rolar de lĂĄgrimas, permitindo apenas um ardor infernal em seus olhos. O ressentimento enroscou-se em suas cordas vocais, cortando-lhe a fala., e, antes que pudesse dizer/fazer uma besteira, virou as costas. Oh, Deus, a necessidade de quebrar algo nunca fora tĂŁo intensa, e, pelo bem da nação, nĂŁo podia ser a cara de Malina o alvo de sua raiva. O mĂnimo de consciĂȘncia dizia-lhe que sua meia-irmĂŁ nĂŁo tinha culpa no acontecido, contudo, o luto a atordoava. O primeiro passo para se afastar de Mal havia sido pesado, quase impossĂvel de se realizar, doloroso. Lisla. Lisla estava morta. O segundo passo permanecia cheio de dificuldades, todavia, menos torturante que o primeiro. E assim, Parker ia: de passo em passo, se distanciando da sua nora grĂĄvida, o Ășltimo rosto que queria ver naquele momento. Escutar o acontecido nĂŁo tornava as coisas fĂĄceis, pelo contrĂĄrio, apenas atestava que sua irmĂŁ nĂŁo iria mais se jogar em sua cama nos domingos e a acordar com gritos entusiasmados, ou mesmo fazer piadas no pior momento possĂvel. A ausĂȘncia era doĂda demais para suportar. Mal conseguiu chegar na virada do corredor e caiu, fraca, exausta. Estava com a impressĂŁo de estar gritando coisas desconexas, mas tudo estava nebuloso demais para processar, tanto que sĂł entendeu que havia feito um buraco em uma parede prĂłxima quando viu sua mĂŁo coberta de poeira branca. Ah, a superforça, capaz de devastar lugares inteiros se mal usada. NĂŁo tinha certeza de muita coisa, sĂł que estava abraçada Ă s pernas depois de tal acesso de raiva. As lĂĄgrimas rolavam grossas, todas em origem na irresponsabilidade alheia. SerĂĄ que Peter nĂŁo cuidava de suas filhas bem o suficiente para impedir acidentes como tal? Lisla, a esquecida, encontrava-se sem seus atiradores de teia? Georgie nĂŁo foi esperto o suficiente para ver a situação problema antes que a mesma virasse uma? Tantas perguntas sem resposta, que iriam continuar desta forma. Era a hora de separar mais um vestido preto para o prĂłximo evento de famĂlia, e mais uma face controlada para disfarçar as rachaduras que surgiam na pura alma de Amber Rose.Â