Poeta do mundo: Eustáquio Gorgone
EUSTÁQUIO GORGONE DE OLIVEIRA, CASCATEIRO, COMO TODO POETA, OU FINGIDOR, COMO DIRIA PESSOA
Eustáquio Gorgone acredita que “o horizonte do mineiro é a angústia. Serras azuis e verdes da Mantiqueira, da Bocaina, as ladeiras, as curvas sobre curvas da estrada aproximam o horizonte, assim como a primeira remada encaminha o barco e seu barqueiro para o derradeiro ancoradouro e os quartos, as salas, se abrem para dentro das pessoas.
O mineiro quando pega no remo pela primeira vez encurta caminhos. A primeira braçada o leva para baías e lagos que se fecham sobre si mesmos e sobre o remador. Aí tudo seca e a quilha do navio ancora nos montes.
A arte é coisa morta. Feita de lembranças nossas e dos outros, das saudades; arte é a história dos que não mais estão presentes. É como a cebola: fatias que se enrolam sobre si mesmas.”
Eustáquio é poeta. Nasceu em Caxambu, Minas Gerais, em 1949. Licenciou-se em Letras e Pedagogia. O autor de mais de 10 livros de poesia tem pronto um livro com cerca de 140 poemas. “A Janela do verbo assistir”, sua última publicação foi vencedor do Prêmio Estímulo às Artes, 2006, da Fundação Clóvis Salgado e do Suplemento Literário de Minas Gerais.
astrônomos vieram a passa quatro
por ocasião do eclipse de 1912.
na porta da hospedaria, lia-se:
não aceitamos pessoas com moléstias
e que se preocupam com manchas escuras.
folheando os livros da época,
deparo-me com a relação dos sábios
e o relatório de cada um deles.
de fato, as sombras surgiram nos céus
contra a vontade do senhor da hospedaria
que expulsando os filósofos e poetas,
e ele justificava o eu lírico.
para dentro de suas sombras
Eustáquio Gorgone de Oliveira, cabelos brancos e uma calva; assim lembra a figura de Drumond, poeta de feitio quixotesco no perfil anguloso e seco. Gorgone porta traços delicados no rosto que, se não fosse magro, seria redondo.
Mora no estrangeiro, mas no estranho que habita Caxambu.
Conversamos em frente da piscina do Hotel Gloria que segundo ele, é um hotel da cidade que nunca está, parece fora de Caxambu. “Pertence aos que por lá passam, se hospedam, os estrangeiros. E é essa transitoriedade que me fazer morar no estrangeiro, pois é o clima de outros lugares que se respira aqui.”
Poeta premiadíssimo que tem Pouso Alto como matéria de ensimesmar-se. De cima, dos cumes, o poeta preserva a si mesmo e seu entorno ao observar o seu dentro que é o fora ao avesso.
Pouso Alto é uma cidade do sul de Minas Gerais quando se recita os municípios pela janela do carro. Para o poeta, a cidade, apesar de metáfora, é concreta mesmo sendo abstrata. Diz ele que um grande poeta mineiro, publicado na Europa, Yacir Anderson Freitas, lhe confessou que gostaria de ter escrito um livro chamado Pouso Alto. “Falou comigo por telefone que gostaria de dar título a um livro que escrevera de Pouso Alto. Só que Pouso Alto não é somente um título para mim”. É o ponto de vista de Eustáquio
Mas o Gorgone, barroco, (“considero minha poesia um pouco barroca, àquelas contorções do barroco, as perspectivas, as sobreposições... o barroco era universal porque convive com a angústia, o anseio da impossibilidade do ser humano ser feliz”) pela dor de retornar sempre ao mesmo ponto, as volutas do trajeto, adona-se de Pouso Alto em seus poemas.
“A arte é uma produção morta, porque é um produto do ser humano , um produto social do artista. Ela é uma, como se diz... um anseio de uma... não é anseio... como a cebola do Herman Hesse que diz que nossa alma é como a cebola com várias camadas. Eu não era Pouso Alto quando tinha 12 anos. É uma montagem... metáfora. Mas a morte é como o símbolo de que que você , coisa morta, sem vida, extinta, sem respiração , um cadáver, é uma prova do que você vivenciou quando era vivo ou antes, uma testemunha do que você percebeu antes de se tornar inerte, a arte é isso: uma prova, uma produção do que você foi testemunha, de que alguém foi contemporâneo daquilo quando vivo. Só. A morte é apenas uma questão técnica. Chegarei a um momento em que esterei t4ecnicvamente correto , na absoluta solidão. Quem ler um texto meu no futuro verá que apenas usei a técnica do silêncio.
Hoje a felicidade é muito mais fácil. “
Quem ler o livro “A flor do esquecimento”- cultura popular e processos de transformação-, na página 183, do escritor nascido em Juiz de Fora, Edmilson de Almeida Pereira e Núbia Pereira de Magalhães Gomes, no ensaio “No terço da Lola”, verá que a epígrafe usada é a do poema 25 do livro “Passagem na Orfandade”de Eustáquio, publicado em Juiz de Fora em 1999: “A meus pés persignam-se os evangelhos
Seus capítulos me aderem como pólen:
Verdade de puro linho e algodão.”
Sim, ele é poeta que já virou epígrafe. Sente que seus mortos exigem dele, os mortos em expectativa, o elogio final, o registro último, que significará enfim a morte do poeta. Só assim seus mortos o deixarão em paz.
São eles, como suas lembranças, que provocam a arte e serão eles quem conduzirão o poeta as baías que se fecham sobre si mesmas e secam para que o vivido torne-ser para sempre.
“O livro mais lido do mundo é o corpo humano. O segundo é a Bíblia. Todos folheiam o corpo, passam suas páginas desde o nascimento até a morte. Curioso é que as iluminuras, a encadernação, estas podem mudar,, mas será sempre o corpo humano assim como a Bíblia mantém suas parábolas.
Hoje as casas não têm portas trancadas, como na minha juventude. Todas podem ser abertas e desvendar seus segredos.
Salas amplas, quartos livres para a juventude amar.. Se é bom eu não sei mas penso que o desejo despe-se da ansiedade e dos mistérios, não precisa mais pular janelas. A imaginação padece de agonia. Enfim, é a morte definitiva do pensar barroco.
É difícil sintetizar o amor mesmo porque ele está sempre presente em meu trabalho poético. Para o homem é muito fácil ser feliz porque desde cedo ele convive com a pornografia. E parece que basta essa convivência.”na quitanda do Ney nos encontramos de vez em quando entre frutas e legumes, na Travessa Nossa Senhora dos Remédios. Que remédio! A família preza a despensa sortida. Seus filhos lêem os versos que ele faz assim como cheiram o pão fresco saído do forno da padaria com perfume de outrora.”
“Após a primeira remada comecei a morrer com mineiridade. Minas Gerais, afinal, é sempre o mar de todas as possibilidades.
O poeta Eustáquio Gorgone de Oliveira reflete sobre o significado do cipó na obra do português Chico Cascateiro que, no início do séc. XX, foi responsável pela construção de uma originalíssima obra paisagística, quase artesanal, em algumas cidades do sul de Minas Gerais. Artesão naturalista, construiu coretos, bancos, cascatas e fontes, que hoje constituem um valioso patrimônio artístico de Minas Gerais.
Eustáquio Gorgone de Oliveira*
Elementos por excelência da arte naturalista, a água,
as pedras e as árvores se conjugam no trabalho de Francisco da
Silva Reis. Como um indez de argamassa, sua obras nos evocam
antigos bosques e matas que, em outras épocas, circundavam a
incipiente vegetação urbana, semeada em pequenas manchas pelas
Dentre as plantas nativas que serviram de inspiração
a este artista português, inúmeras espécies de cipós marcam signi-
ficativa presença nos esteios, baldrames e ripas que compõem seus
Trepadeiras de difluida beleza, os cipós foram registrados
por naturalistas e viajantes (Thomas Ewbanck, Ferdinand Denis, Jean
B. Debret) em gravuras de sóbrio realismo. Na vida cotidiana dos
indígenas e mestiços, seus emaranhados liames servem na elaboração
de utensílios e peças de artesanato. As redes, cestas, amarras e
enfeites confeccionados com cipó acompanham o homem do berço
Sinuoso e resistente, este vegetal pode ser visto, na obra de
Chico Cascateiro, cintado aos troncos e pedras. Vem incrustado na
argamassa que lhe serve de suporte ou exibe seu lenho cortado na
extremidade (cipó-cruz). De maneira natural, sem o artifício maneiroso,
o cipó contorna as terças e vigas. Não revela falsos nós ou cordomes