A Bolinha
Era manhã de domingo e o sol entrava bege pela cozinha. A água para o café quase fervia e os passarinhos não faziam barulho algum.
O ar tinha cheiro de chão de taco aquecido por raios solares vindos de milhões e milhões de quilômetros de distância. M.F. acendia seu primeiro cigarro do dia.
Pensava no que devia fazer e no que devia não ter feito. Via nos domingos quase que um portal de análise do tempo. Havia mais clareza quando a semana já passou e ainda vai começar.
Enquanto as fumaças da água fervente e do cigarro incandescente subiam, pairavam e se desfaziam pelos feixes de luz vindos da janela, M.F. estranhava a quietude.
Outrora farta e saturada pelos ruídos e picuinhas provenientes de toda uma vida semi corporativa em Belo Horizonte, agora M.F. amadurecia, e encarava apenas a sua própria companhia.
Sua casa era pequena e toda de madeira. Não sabia seu nome e nem em que terra crescera. Por algum motivo sabia que era muito, muito mais velha do que aparentava. M.F. encontrou nesse casebre a liberdade e autonomia que a cidade a negava. E por isso, pintava. Não necessariamente coisas ou seres. Mas algo que lembrava os dois e, por vezes, nenhum deles. Não ligava para a ciência da arte e frequentemente misturava mídias imiscíveis. Óleos e acrílicas. Aquarela e giz de cera. Camadas e camadas de coisas que eram forçadas por M.F. a ocupar o mesmo espaço . E então o faziam, graciosamente.
O bule já apitava. Os passarinhos permaneciam calados. M.F. notava que ela mesma permanecia calada há algum tempo.
Desde que se mudara para o interior, M.F. interagia com cada vez menos pessoas. Não falou com ninguém na semana que passara, e não falaria com mais ninguém na semana por vir. Era bom e era ruim, concluía enquanto passava o café.
Acreditava que só ela compreendia a si própria. Já havia tentado ser percebida por outras pessoas, umas bem e outras mal selecionadas, e o resultado era sempre parcial. Uma parte das seres encontrava nela um vácuo a ser preenchido com projeções e fantasias. Outra parte encontrava coisas demais - diversas e separadas. Eles não tinham mãos para pegar tudo então pegavam aquilo de interesse e o restante de M.F. deixavam para trás. Ninguém nunca havia a percebido em sua totalidade.
O café estava pronto e M.F. ainda divagava e os passarinhos ainda estavam mudos e M.F. acendia seu segundo cigarro do dia. Foi nesse momento que algo entrou em sua casa. Não era uma esfera muito grande, mas do tamanho aproximado de uma bola de frescobol. Lembrava vagamente uma bola de sabão, com a diferença de que era ligeiramente mais consistente e tinha a transparência afetada por uma luminosidade que tomava conta dela quase em sua totalidade e que a tornava mais translúcida do que propriamente transparente.
A bolinha flutuava pela cozinha, em torno de M.F., e ficou muito claro que a estava observando. A certa altura, pareceu querer comunicar-se com ela, utilizando seus agudos e curtos, como se fosse uma vozinha emitida por uma garganta minúscula e que, portanto, não poderia alcançar uma amplitude compreensível.
Quando se deu por si, o cigarro em suas mãos havia queimado por completo. M.F. nunca mais acendeu outro.




















