A carta que nunca será enviada
Depois que você passou pela minha vida
e bagunçou tudo,
depois que você passou
e deixou estrago demais,
eu comecei a entender algumas coisas.
Mas ainda não entendi você.
Nem a mim.
Há dois dias eu li A Divina Comédia,
o inferno de Dante,
e uma dúvida escura começou a me seguir.
Desde que você foi,
será que eu estou descendo?
Camada por camada?
Cada sorriso que eu finjo,
cada mentira que eu conto
a outras mulheres,
não por amor,
mas por vontade de sentir alguma coisa,
é mais um passo para baixo?
Eu não busco prazer.
Eu busco silêncio.
Eu busco não sentir
o vazio que você deixou.
Será que isso é o inferno?
Ou o inferno é saber
exatamente o que eu estou fazendo
e continuar fazendo mesmo assim?
Ainda existe purgatório pra mim?
Ainda existe tempo
de parar de descer
e começar a subir,
mesmo sangrando?
Ainda existe luz?
Ou eu já fui longe demais?
E você…
existe alguma chance de voltar?
Porque se você voltar,
depois de tudo o que você fez comigo,
depois de todo o caos,
de toda a balança quebrada
que você deixou dentro de mim,
eu não sei se eu deveria te aceitar.
Eu não sei se eu teria forças
pra te perdoar.
Eu não sei se eu teria coragem
de te tocar
sem lembrar de tudo.
Ou talvez isso seja só um lapso.
Um delírio da minha mente cansada
tentando fingir
que eu não te perdi.
Tentando acreditar
que ainda existe volta
pra algo que já virou ausência.
Agora eu estou em frente ao mar.
E alguma coisa estranha acontece:
enquanto eu olho para ele,
é como se outro mar
jorrasse de dentro de mim.
Meus olhos transbordam
como se quisessem alcançar o oceano,
como se a dor
tentasse se misturar à água
pra ver se desaparece.
Você volta?
Ou eu vou ter que aprender,
sozinho,
devagar,
dolorosamente,
a viver
sem você?














