Eu achei que nunca sobreviveria a todas essas faltas, até que percebi que minha pele tinha mania de se recompor. estou em carne viva, uma cidade vazia cercada por muros e valas. contudo, eu sei que vou cicatrizar. só que vou precisar de muito enxerto, porque arrancaram quase todo meu tecido.
as ĂĄguias que eu alimentei se transformaram em urubus famintos para devorarem a minha matĂ©ria. Ă© estranho se curar de alguĂ©m que vocĂȘ achou que seria a pessoa que iria te ajudar a se curar de si mesmo.
tem dia que eu quero acreditar que tudo nĂŁo passou de um pesadelo, toda noite eu oro para que isso tenha sido apenas um sonho ruim. porĂ©m, quando me desperto ainda sĂŁo quatro da manhĂŁ e eu ainda tenho que lidar com esse cilĂcio. Ă s cinco, eu encaro o teto, vasculho pelo meu celular e ainda nĂŁo passou. vocĂȘ continua me engravidando de culpas que nĂŁo sĂŁo minhas. vocĂȘ continua forjando sua cena de menino bom enquanto eu saio da histĂłria como tĂłxico.
houve dias que dormi tarde, porque estava resenhando contigo, trafegando pelo som da sua voz, compartilhando nossas vidas e, hoje, eu nĂŁo durmo mais um sono bom, jĂĄ que nĂŁo consigo entender por que vocĂȘ se transformou nesse engodo.
a cidade adormeceu. ouço apenas a minha insĂŽnia e o barulho excruciante da minha dor. a chuva caindo lĂĄ fora. mais um dia que nĂŁo te esqueci, mais um dia que nĂŁo te superei, mais um dia que sobrevivo a vocĂȘ.
hoje eu encomendei ao céu que chorasse por mim, é melhor, porque eu não teria onde desaguar tudo isso que agoniza aqui dentro.
eu sigo na dĂșvida entre me curar de vocĂȘ e, ao mesmo tempo, te querer de volta. quando o outro LuĂs disse que o amor Ă© fogo que arder sem se ver, Ă© ferida que dĂłi e nĂŁo se sente, Ă© dor que desatina sem dor, ele estava coberto de razĂŁo, ele sĂł nĂŁo explicou o que fazer quando o amor que te queima Ă© o mesmo que alivia suas queimaduras.
o amor Ă© uma antĂtese desleal.
Ă© viver em uma corda bamba e torcer que dessa vez vocĂȘ nĂŁo caia. mas se cair, sĂł nos resta cuidar dos machucados, suturĂĄ-los com poesia, deixando ela costurar seus rasgos, suas feridas em cada um de seus versos.
a poesia Ă© a Ășnica coisa capaz de me sarar de vocĂȘ.