𝐒𝐭𝐞𝐚𝐥𝐢𝐧𝐠 𝐟𝐢𝐫𝐞 𝐟𝐫𝐨𝐦 𝐭𝐡𝐞 𝐠𝐨𝐝𝐬.| 𝙆 & 𝘼
karl! ——— 𝐅𝐋𝐀𝐒𝐇𝐁𝐀𝐂𝐊.
Sair da garagem não foi uma tarefa tão complicada quanto encontrar caminho pelas ruas destruídas de Shangri-la. Por sorte haviam seguido a estratégia da mente brilhante do alemão e usaram um carro pequeno, este que facilmente conseguia deslizar por entre os resquícios de asfalto do caminho. Não encontraram muitos pessoas em seu caminho, e aquelas que viram nem se quer lhes deram muita atenção, preocupados como estavam todos em fugir para salvar as próprias peles. Karl preferiu que tivesse sido assim mesmo, afinal no meio da fuga a última coisa que ele queria era ter que torrar potenciais testemunhas do seu crime.
Minutos se passaram com todos em silêncio dentro do veículo, exceto pelos ruídos abafados do choro da pitonisa. “Ela vai desidratar e murchar igual a uma fruta com todo esse choro.” reclamou Heike, confortavelmente sentada sobre o daemon-gato e ao mesmo tempo tentando não sufocá-lo e o levar a morte. Era um tentação e tanto. Melhor chorando do que gritando, retorquiu Karl com uma rápida bisbilhotada de soslaio na mulher. Era revoltante pensar que os deuses teriam escolhido uma criatura insignificantemente frágil como aquela para ser sua representante na terra. Realmente estavam no fim dos tempos, não é? Já era passada a hora dos fracos deuses e, portanto, a era dos homens tomaria logo seu lugar. Com ele no topo, isso iria garantir.
Karl sabia exatamente para onde levá-la, então não demorou mais tempo do que o suficiente para despistar qualquer curioso que por ventura os tivessem seguido. Logo eles estavam nos arredores extremos de Shangri-la e estacionando o carro nos fundos do que um dia havia sido uma padaria, mas que agora jazia abandona há tempos. O Rosenberg abriu a porta e mais uma vez lançou o corpo sobre o da mulher para que pudesse sair do veículo, e só então puxá-la também para fora. Manteve a porta aberta para que Heike saísse com o outro daemon firme e seguro em suas garras. Karl então, após verificar que não tinha nenhuma outra alma viva ao redor, levou a todos para dentro do prédio. Lá não demorou muito para localizar uma abertura escondida entre os pisos encardidos do chão que, depois de usar um pouco de sua energia para abrir o portal, os levaria ao porão. — Eu vou na frente e depois você pula, entendeu? Se demorar muito te puxo pelos pulsos. — mostrou a corrente que os unia, só para dar ênfase naquilo que dizia e que não estava blefando para a mulher.
Ele pulou no buraco negro e desconhecido. Lá embaixo cheirou o ar e só depois invocou uma chama arroxeada na palma de sua mão livre. Sem paciência, puxou a pitonisa para baixo, mas a segurou para impedir que caísse contra o chão poeirento. Depois esperou pelos daemons e fechou o portal. “Eles precisam dar uma limpada nisso aqui de vez enquanto.” resmungou a harpia toda nojenta e insatisfeita pelo teto baixo que a impedia de voar. Karl fez sinal para que seguissem em frente. Havia visto várias plantas dos esconderijos rebeldes espalhados pelo mundo. O grupo certamente estava preparado para tudo, até mesmo para uma guerra nuclear.
Em meio a chama bruxuleante na sua palma, uma porta arredondada surgiu entre a escuridão na parede extremamente oposta. Era pequena e grossa como a de um submarino. Karl aumentou mentalmente o comprimento da corrente para ter liberdade de girar a maçaneta circular e finalmente abrir o segundo portal. Novamente esperou todo mundo entrar no recém descoberto cômodo antes de trancá-los lá dentro. O alemão procurou alguns segundos pelo interruptor e quando a luz amarelada finalmente iluminou o local, eles podiam ver o recinto por completo. Era um lugar simples, porém extremamente confortável. Tinha alguns sofás, cadeiras, prateleiras com ferramentas e armários com comidas enlatadas.
— Nada de gritar, sacerdotisa. Primeiro porque ninguém vai conseguir te ouvir e também porque não quero ficar com dor de cabeça. — informou enquanto retirava a gravata da boca da mulher, finalmente deixando-a livre para falar. Ele só esperava que ela não visse tal liberdade como algo a ser aproveitado. — Seu trono a espera. — apontou uma poltrona grande e confortável em um dos cantos, indicando que ela fosse ali se sentar. Conforme aumentava ainda mais sua esfera para que permitisse ambos de se distanciar, Karl foi atrás de alguns metros de corda. Achou-os em uma parte inferior das prateleiras, pegando-os para si e voltando para amarrar a pitonisa no assento. Heike guinchou alto para chamar sua atenção e apontar o gato com o bico de ferro. “O que vamos fazer com esse aqui?” — Quem sabe sem o daemon ela finalmente entenda como a humanidade se sente a respeito da presença dos deuses. Eles nunca estão lá e só deixam um vazio. — comentou enquanto dava voltas com a corda ao redor da pitonisa na poltrona, certificando-se de que ela estava justa o suficiente, só que não a ponto de machucar.
Embora a sua visão estivesse embaçada, Ayla tentou se concentrar no caminho que era feito, mesmo com a dor que sentia devido a daemon do desconhecido que ainda estava acima de Eren. Pensava que, talvez, se ela reconhecesse os locais, poderia fugir e voltar para sua casa. Mas, pelo pouco e infeliz tempo que havia passado com o rapaz, sabia que ele não era burro, então, fugir seria algo difícil — impossível, até. Por isso, não conseguiu impedir de chorar ainda mais. Aquela noite era para ser algo lindo, algo dedicado à ela e também aos deuses, porém, eles haviam a abandonado, e Ayla se perguntou se ela era a única a deriva naquele mar de caos.
Ignorar a dor que sentia pela ligação com seu daemon não era fácil, tinha horas que queria gritar, entretanto era impedida pela gravata que tapava sua boca, e, mesmo quando tentava falar com o gato pela conexão, não conseguia. Tudo estava cheio de sons de choro e gritos. Bem como Ayla se sentia. Tentar identificar os lugares não foi muito afetivo, pois logo estava tão afastada do centro da cidade, que nem mesmo a nativa dali reconhecia o local. E isso a apavorou. Se pelo menos ele tivesse escolhido um local mais perto da floricultura... a floricultura! Pelo primeira vez após o ataque, a pitonisa pensou na floricultura, tanto a fonte de renda e, acima, seu lar. Sabia que sua mãe não estava lá, então, mesmo que o lugar estivesse em ruínas, ela poderia estar bem... ou não. O coração apertava com a dor de sua mãe ter a deixado naquele mundo sozinha. Tal pensamento já havia passado pela cabeça de Ayla, mas agora que atingia com tudo o seu coração.
Antes que percebesse, o desconhecido passou por cima de si mais uma vez, assustando-a e fazendo com que os pensamentos anteriores ficassem em segundo plano, pois, novamente, o medo tomou conta de si. Sem nem poder raciocinar, sentiu-se ser puxada e teve de se equilibrar desastradamente para ficar de pé. Os seus passos foram lentos, como se calculasse alguma rota de escape, mas, com Eren ainda preso pelas garras da daemon do outro e Ayla extremamente cansada e fraca, não havia nada o que podia fazer. Olhou ao seu redor, examinando o prédio onde anteriormente deveria ter sido um lugar quente, com cheiro de pão fresquinho e diversos sorrisos, porém, agora era uma das causas do sofrimento da pitonisa.
Enquanto via o local, não percebeu o desconhecido pulando num buraco negro produzido pelo mesmo, pelo menos não até ele falar com ela. E Ayla encarou a escuridão em seus pés, implorando para que a levasse para um lugar diferente. Talvez, quem fosse o patrono do desconhecido tivesse dó dela naquela situação, afinal, ela ainda era a pitonisa... certo? Mas ela não pode nem tomar impulso para pular antes de ser puxada para baixo pelas correntes e aterrissar nos braços do rapaz.
O local escuro fez com que Ayla se arrepiasse e a poeira do local já incomodava seu nariz antes mesmo de ser abaixada para ficar de pé, e, assim que encontrou o chão, um pequeno espirro escapou. Durante esse meio tempo, a pitonisa não viu o outro abrir ainda outro portal, por qual não demorou para que eles e os daemons passassem por. A luz que iluminou o lugar de primeiro irritou os olhos da garota, mas, assim que viu o desconhecido se aproximar, a visão voltou junto da aceleração do coração. Ainda não sabia qual ere o objetivo dele, e tinha medo de pensar nisso. Felizmente, a única coisa que ele fez foi, finalmente, tirar aquela gravata que a impedia de falar.
Antes que pudesse sequer implorar por sua liberdade, o desconhecido a cortou sua chance de fala, dizendo que ela não seria escutada caso gritasse. Bem, não era como se Ayla não soubesse disso. Provavelmente a única alma viva além deles estaria a quilômetros dali, porém talvez o instinto de sobrevivência a fazia querer gritar. Ela reprimiu-o com certa dificuldade, novamente, por medo do que aconteceria com ela caso realmente desse dor de cabeça no rapaz.
Relutantemente foi até a poltrona indicada, já imaginando o que seria feito. Os passos dolorosos foram feitos sem tirar os olhos de Eren, ainda presos pela harpia do desconhecido. Tentou se aconchegar no assento, porém, não se sentiu confortável — não sendo nem necessário dizer o que. O olhar amedrontado dela seguiu o rapaz até ver ele indo em sua direção com cordas, exatamente o que ela pensou. Sentiu a corda contra sua pele e o tecido do vestido caro que usava, mas, assim que ele mencionou separá-la de seu daemon, Ayla não sentiu mais nada. Só aquelas palavras a assustavam mais do que qualquer coisa que ele poderia fazer com ela.
— Não, por favor não! — Tentou pedir, balançando a cabeça e fazendo com que lágrimas voassem da sua bochecha. Não podia se mexer na poltrona, então sua cabeça tentava se virar para que ela tivesse uma visão do rapaz. — Por favor, você não precisa fazer isso! Se você me soltar eu juro que não falo pra ninguém! Eu faço o que quiser, mas por favor não me separe de Eren! — A suplica de Ayla veio quebrada, marcada pelos soluços do choro.













