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O corpo de Ayla queria reagir. Queria se debater, tentar chutar o desconhecido, fazer mais força. Mas não conseguia. Estar longe de Eren, de sua alma, a esgotava completamente, então, embora mandasse o sinal de seu cérebro para fazer tais movimentos, eles não aconteciam. Só conseguia chorar e mal respirava, sentido que logo iria desmaiar, porém tinha que ficar acordada, e uma maneira de fazer isso foi tentar procurar o seu daemon que havia sido levado para longe. Se apenas o visse, talvez⊠talvez recuperasse um pouco de sua força. Infelizmente não foi o que aconteceu. Antes que percebesse, haviam adentrado em outro local, vazio dessa vez, e Ayla sentiu só sentiu seu corpo colidir contra a parede. Suas pernas queriam desabar, porém fora impedida pelo rapaz, que ficou próximo demais e a segurou por seu queixo. Tentou desviar o rosto, não queria olhar para ele⊠e ainda sim o medo que sentia não a deixava.
Acabou prendendo a respiração aos escutar as palavras dele. NĂŁo que fosse necessĂĄrio dizer novamente, mas lĂĄgrimas ainda rolavam por suas bochechas, e aumentaram pela ameaça feita ao daemon. Pensamentos do que poderia acontecer com ela, do que ele poderia fazer com ela, atormentavam sua mente. Sentia que nĂŁo iria escapar de qualquer fosse o futuro que estava reservado Ă ela, mesmo que nĂŁo o pudesse ver pela dĂĄdiva dos deuses. Os olhos embaçados pelas lĂĄgrimas agora embaçavam sua visĂŁo, e, embora bom por nĂŁo ver o desconhecido, tambĂ©m nĂŁo havia visto quando o mesmo tirara sua gravata apenas para dar um jeito de silenciar a pitonisa â nĂŁo que ela tivesse força para gritar, de qualquer maneira.
ApĂłs isso, sentiu o seu pulso ser puxado com enorme força, tanta a qual que quase fizera Ayla se desequilibrar. NĂŁo tinha nem mais o Ăąnimo para tentar ficar de pĂ© aquele ponto, apenas queria Eren de volta ao seu lado, era tudo. Algo gelado envolveu seus pulsos e, quando algumas lĂĄgrimas caĂram e desembaçaram, percebeu que eram correntes⊠como ele havia conseguido correntes? No meio daquelas ruĂnas? Todavia, a pitonisa levou um susto quando as portas foram abertas e a daemon do rapaz adentrou o local⊠com Eren! Os olhos de Ayla se arregalaram de felicidade ao ver o gato, mesmo que a condição do mesmo nĂŁo fosse a melhor, assim como a da garota. Queria abraçå-lo, mas as correntes a impediam de ir para longe do outro, que de modo algum a deixaria chegar perto do daemon.
Ayla nĂŁo via nem para onde ia, pois estava concentrada em Eren, e como machucava o ver assim. Sua vontade era de gritar para ele, mas a ligação de ambos estava fraca e a gravata em sua boca a impossibilitava de fazer qualquer barulho. Seus passos foram cegos atĂ© chegarem em um lugar que â a pitonisa tomou um breve momento para identificar â parecia uma garagem. Entretanto, nĂŁo pode ver muito sobre o local, pois uma dor esmagadora preencheu todos seus sentidos. NĂŁo era surpresa, visto que a harpia do rapaz estava sentada em cima de Eren. A garota tentou se apoiar em algo, mas nĂŁo havia nada para o fazer, e talvez fora por isso que o desconhecido a pegou no colo para colocar em um carro aleatĂłrio. O corpo de Ayla jĂĄ estava cansado, bem como sua mente, nem reagindo quando o outro teve passar por cima de si para chegar ao banco do motorista.
E ainda sim, Ayla chorava. Seus poderes eram passivos e ela nĂŁo conseguia usar em si mesma, entĂŁo de que adiantava tentar? Brigid tambĂ©m parecia tĂȘ-la abandonado, junto com os outros deuses. EntĂŁo, realmente, a Ășnica coisa que podia fazer era chorar.
Sair da garagem nĂŁo foi uma tarefa tĂŁo complicada quanto encontrar caminho pelas ruas destruĂdas de Shangri-la. Por sorte haviam seguido a estratĂ©gia da mente brilhante do alemĂŁo e usaram um carro pequeno, este que facilmente conseguia deslizar por entre os resquĂcios de asfalto do caminho. NĂŁo encontraram muitos pessoas em seu caminho, e aquelas que viram nem se quer lhes deram muita atenção, preocupados como estavam todos em fugir para salvar as prĂłprias peles. Karl preferiu que tivesse sido assim mesmo, afinal no meio da fuga a Ășltima coisa que ele queria era ter que torrar potenciais testemunhas do seu crime.
Minutos se passaram com todos em silĂȘncio dentro do veĂculo, exceto pelos ruĂdos abafados do choro da pitonisa. âEla vai desidratar e murchar igual a uma fruta com todo esse choro.â reclamou Heike, confortavelmente sentada sobre o daemon-gato e ao mesmo tempo tentando nĂŁo sufocĂĄ-lo e o levar a morte. Era um tentação e tanto. Melhor chorando do que gritando, retorquiu Karl com uma rĂĄpida bisbilhotada de soslaio na mulher. Era revoltante pensar que os deuses teriam escolhido uma criatura insignificantemente frĂĄgil como aquela para ser sua representante na terra. Realmente estavam no fim dos tempos, nĂŁo Ă©? JĂĄ era passada a hora dos fracos deuses e, portanto, a era dos homens tomaria logo seu lugar. Com ele no topo, isso iria garantir.
Karl sabia exatamente para onde levĂĄ-la, entĂŁo nĂŁo demorou mais tempo do que o suficiente para despistar qualquer curioso que por ventura os tivessem seguido. Logo eles estavam nos arredores extremos de Shangri-la e estacionando o carro nos fundos do que um dia havia sido uma padaria, mas que agora jazia abandona hĂĄ tempos. O Rosenberg abriu a porta e mais uma vez lançou o corpo sobre o da mulher para que pudesse sair do veĂculo, e sĂł entĂŁo puxĂĄ-la tambĂ©m para fora. Manteve a porta aberta para que Heike saĂsse com o outro daemon firme e seguro em suas garras. Karl entĂŁo, apĂłs verificar que nĂŁo tinha nenhuma outra alma viva ao redor, levou a todos para dentro do prĂ©dio. LĂĄ nĂŁo demorou muito para localizar uma abertura escondida entre os pisos encardidos do chĂŁo que, depois de usar um pouco de sua energia para abrir o portal, os levaria ao porĂŁo. â  Eu vou na frente e depois vocĂȘ pula, entendeu? Se demorar muito te puxo pelos pulsos. â  mostrou a corrente que os unia, sĂł para dar ĂȘnfase naquilo que dizia e que nĂŁo estava blefando para a mulher.
Ele pulou no buraco negro e desconhecido. LĂĄ embaixo cheirou o ar e sĂł depois invocou uma chama arroxeada na palma de sua mĂŁo livre. Sem paciĂȘncia, puxou a pitonisa para baixo, mas a segurou para impedir que caĂsse contra o chĂŁo poeirento. Depois esperou pelos daemons e fechou o portal. âEles precisam dar uma limpada nisso aqui de vez enquanto.â resmungou a harpia toda nojenta e insatisfeita pelo teto baixo que a impedia de voar. Karl fez sinal para que seguissem em frente. Havia visto vĂĄrias plantas dos esconderijos rebeldes espalhados pelo mundo. O grupo certamente estava preparado para tudo, atĂ© mesmo para uma guerra nuclear.
Em meio a chama bruxuleante na sua palma, uma porta arredondada surgiu entre a escuridão na parede extremamente oposta. Era pequena e grossa como a de um submarino. Karl aumentou mentalmente o comprimento da corrente para ter liberdade de girar a maçaneta circular e finalmente abrir o segundo portal. Novamente esperou todo mundo entrar no recém descoberto cÎmodo antes de trancå-los lå dentro. O alemão procurou alguns segundos pelo interruptor e quando a luz amarelada finalmente iluminou o local, eles podiam ver o recinto por completo. Era um lugar simples, porém extremamente confortåvel. Tinha alguns sofås, cadeiras, prateleiras com ferramentas e armårios com comidas enlatadas.
â Nada de gritar, sacerdotisa. Primeiro porque ninguĂ©m vai conseguir te ouvir e tambĂ©m porque nĂŁo quero ficar com dor de cabeça. â informou enquanto retirava a gravata da boca da mulher, finalmente deixando-a livre para falar. Ele sĂł esperava que ela nĂŁo visse tal liberdade como algo a ser aproveitado. â Seu trono a espera. â apontou uma poltrona grande e confortĂĄvel em um dos cantos, indicando que ela fosse ali se sentar. Conforme aumentava ainda mais sua esfera para que permitisse ambos de se distanciar, Karl foi atrĂĄs de alguns metros de corda. Achou-os em uma parte inferior das prateleiras, pegando-os para si e voltando para amarrar a pitonisa no assento. Heike guinchou alto para chamar sua atenção e apontar o gato com o bico de ferro. âO que vamos fazer com esse aqui?â â Quem sabe sem o daemon ela finalmente entenda como a humanidade se sente a respeito da presença dos deuses. Eles nunca estĂŁo lĂĄ e sĂł deixam um vazio. â comentou enquanto dava voltas com a corda ao redor da pitonisa na poltrona, certificando-se de que ela estava justa o suficiente, sĂł que nĂŁo a ponto de machucar.

















