Sociedade do Cansaรงo - Byung-Chul Han.
Um resumo da obra:ย https://www.youtube.com/watch?v=0WvyXgHIxe8
Capรญtulo 1 -ย A violรชncia neuronal.
โCada รฉpoca possuiu suas enfermidades fundamentais. [โฆ]ย Visto a partir da perspectiva patolรณgica, o comeรงo do sรฉculo XXI nรฃo รฉ definido como bacteriolรณgico nem viral, mas neuronal. [โฆ] depressรฃo, Tdah, TPL, SB [โฆ]ย Nรฃo sรฃo infecรงรตes, mas enfartos, provocados nรฃo pelaย negatividadeย de algo imunologicamente diverso, mas pelo excesso deย positividade. Assim, eles escapam a qualquer tรฉcnica imunolรณgica, que tem a funรงรฃo de afastar a negatividade daquilo que รฉ estranho.โ (p. 7)
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โO turista ou o consumidor jรก nรฃo รฉ mais um sujeito imunolรณgico.โ (p. 8)
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โ[โฆ] Tambรฉm o assim chamado โimigranteโ, hoje em dia, jรก nรฃo รฉ mais imunologicamente um outro; nรฃo รฉ um estrangeiro [โฆ] que representaria um perigo real ou alguรฉm que nos causasse medo. Imigrantes sรฃo vistos mais como um peso do que como uma ameaรงa. Tambรฉm o problema do vรญrus de computador jรก nรฃo tem mais tanto impacto social. [โฆ]โ (p. 9)
โ[โฆ] O mundo organizado imunologicamente possui uma topologia especรญfica. ร marcado por barreiras, passagens e soleiras, por cercas, trincheiras e muros. Essas impedem o processo de troca e intercรขmbio.โ (p. 9)
โ[โฆ]ย O desaparecimento da alteridade significa que vivemos numa รฉpoca pobre de negatividades. ร bem verdade que os adoecimentos neuronais do sรฉculo XXI seguem, por seu turno, sua dialรฉtica, nรฃo a dialรฉtica da negatividade, mas a da positividade. Sรฃo estados patolรณgicos devidos a umย exagero de positividade.โ (p. 10)
Comentรกrio:ย Fotos de coisas alegres/boas nas redes sociais. Aparentar tristeza รฉ motivo de repreensรฃo hoje em dia. Isso vai fazendo as pessoas nรฃo falarem verdadeiramente sobre seus sentimentos, gerando assim, doenรงas como a depressรฃo.
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โMas Baudrillard expรตe o totalitarismo do igual a partir da perspectiva imunolรณgica โ e essa รฉ a debilidade de sua teoria: โ[โฆ] A comunicaรงรฃo generalizada e a superinformaรงรฃo ameaรงam todas as forรงas humanas de defesaโ [โฆ]โ (p.10)
โ[โฆ] O igual nรฃo leva ร formaรงรฃo de anticorpos. Num sistema dominado pelo igual nรฃo faz sentido fortalecer os mecanismos de defesa. [โฆ]โ (p.11)
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โA violรชncia da positividade que resulta da superproduรงรฃo, superdesempenho ou supercomunicaรงรฃo jรก nรฃo รฉ mais โviralโ. [โฆ] Todas essas sรฃo manifestaรงรตes de uma violรชncia neuronal, que nรฃo รฉ viral, uma vez que nรฃo podem ser reduzidas ร negatividade imunolรณgica. Assim, a teoria da violรชncia de Baudrillard estรก perpassada de refutaรงรตes argumentativasย argumentativas, porque busca descrever imunologicamente a violรชncia da positividade ou do igual, do qual nรฃo participa nenhuma alteridade. Assim, ele escreve: โร uma violรชncia viral, aquela da rede e do virtual. Uma violรชncia da aniquilaรงรฃo suave, uma violรชncia genรฉtica e de comunicaรงรฃo; uma violรชncia do consenso [โฆ]. Essa violรชncia รฉ viral no sentido de nรฃo operar diretamente, atravรฉs de infecรงรฃo, reaรงรฃo em cadeia e eliminaรงรฃo de todas as imunidades. Tambรฉm no sentido de que atua em contraposiรงรฃo ร violรชncia negativa e histรณrica atravรฉs de um excesso de positividade, precisamente como cรฉlulas cancerรญgenas, atravรฉs de uma proliferaรงรฃo infinita, excrescรชncia e metรกstase. Hรก um parentesco secreto entre virtualidade e viralidadeโ (p. 11)
โ[โฆ] A violรชncia viral parte daquelas singularidades que se instalam no sistema como cรฉlulas potenciais terroristas, e buscam minar o sistema a partir do interior. Baudrillard apresenta o terrorismo como a principal figura da violรชncia viral, em consequรชncia de uma revolta do singular frente ao global.โ (p. 11)
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โA positivaรงรฃo do mundo faz surgir novas formas de violรชncia. Essas nรฃo partem do outro imunolรณgico. Ao contrรกrio, elas sรฃo imanentes ao sistema. Precisamente em virtude de sua imanรชncia, nรฃo evocam a defesaย imunolรณgica.โ (p. 12)
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โA violรชncia viral, que continua seguindo o esquema imunolรณgico de interior e exterior ou de prรณprio e outro, e pressupรตe uma singularidade ou alteridade hostil ao sistema, nรฃo estรก mais em condiรงรตes de descrever enfermidades neuronais como depressรฃo, Tdah ou SB. A violรชncia neuronal nรฃo parte mais de uma negatividade estranha ao sistema. ร antes uma violรชncia sistรชmica, isto รฉ, uma violรชncia imanente ao sistema. Tanto a depressรฃo quanto o Tdah ou o SB apontam para um excesso de positividade. A SB รฉ uma queima do eu por superaquecimento, devido a um excesso de igual. O hiper da hiperatividade nรฃo รฉ uma categoria imunolรณgica. Representa apenas uma massificaรงรฃo do positivo.โ (p. 12)
Capรญtulo 2 - Alรฉm daย sociedade disciplinar.
โ[โฆ]ย A sociedade do sรฉculo XXI nรฃo รฉ mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. Tambรฉm seus habitantes nรฃo se chamam mais โsujeitos da obediรชnciaโ, mas sujeitos de desempenho e produรงรฃo. Sรฃo empresรกrios de si mesmos. [โฆ]โ (p. 14)
โA sociedade disciplinar รฉ uma sociedade da negatividade. [โฆ]ย A sociedade de desempenho vai se desvinculando cada vez mais da negatividade. [โฆ] O plural coletivo da afirmaรงรฃo Yes, we can expressa precisamente o carรกter de positividade da sociedade de desempenho. No lugar de proibiรงรฃo, mandamento ou lei, entram projeto, iniciativa e motivaรงรฃo. A sociedade disciplinar ainda estรก dominada pelo nรฃo. Sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, ao contrรกrio, produz depressivos e fracassados.โ (p. 14-15)
โ[โฆ] o inconsciente social do dever troca de registro para o registro do poder. O sujeito de desempenho รฉ mais rรกpido e mais produtivo que o sujeito da obediรชncia. [โฆ]โ (p. 15)
โ[โฆ] O que causa a depressรฃo do esgotamento nรฃo รฉ o imperativo de obedecer apenas a si mesmo, mas a pressรฃo de desempenho. Visto a partir daqui, a Sรญndrome de Burnout nรฃo expressa o si-mesmo esgotado, mas antes a alma consumida. Segundo Ehrenberg, a depressรฃo se expande ali onde os mandatos e as proibiรงรตes da sociedade disciplinar dรฃo lugar ร responsabilidade prรณpria e ร iniciativa. O que torna doente, na realidade, nรฃo รฉ o excesso de responsabilidade e iniciativa, mas o imperativo do desempenho como um novo mandato da sociedade pรณs-moderna do trabalho.โ (p. 15-16)
โ[โฆ] a depressรฃo se esquiva de todo e qualquer esquema imunolรณgico. Ela irrompe no momento em que o sujeito de desempenho nรฃo pode mais poder. Ela รฉ de princรญpio um cansaรงo de fazer e de poder. A lamรบria do indivรญduo depressivo de que nada รฉ possรญvel sรณ se torna possรญvel numa sociedade que crรช que nada รฉ impossรญvel. Nรฃo-mais-poder-poder leva a uma autoacusaรงรฃo destrutiva e a uma autoagresssรฃo. O sujeito de desempenho encontra-se em guerra consigo mesmo. O depressivo รฉ o invรกlido dessa guerra internalizada. A depressรฃo รฉ o adoecimento de uma sociedade que sofre sob o excesso de positividade. Reflete aquela humanidade que estรก em guerra consigo mesma.โ (p.16)
โO sujeito de desempenho estรก livre da instรขncia externa de domรญnio que o obriga a trabalhar ou que poderia explorรก-lo. ร senhor e soberano de si mesmo. Assim, nรฃo estรก submisso a ninguรฉm ou estรก submisso apenas a si mesmo. ร nisso que ele se distingue do sujeito de obediรชncia. [โฆ] O explorador รฉ ao mesmo tempo o explorado. Agressor e vรญtima nรฃo podem mais ser distinguidos. Essa autorreferencialidade gera uma liberdade paradoxal que, em virtude das estruturas coercitivas que lhe sรฃo inerentes, se transforma em violรชncia. Os adoecimentos psรญquicos da sociedade de desempenho sรฃo precisamente as manifestaรงรตes patolรณgicas dessa liberdade paradoxal.โ (p. 16)
Capรญtulo 4 - Vita Activa.
โEm seu escrito Vita activa, Hannah Arendt procura reabilitar a vida ativa contra o primado tradicional da vida contemplativa, rearticulando-a em seu mรบltiplo desdobramento interno. [โฆ]โ (p. 22)
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โSegundo Arendt, a sociedade moderna, enquanto sociedade do trabalho, aniquila toda possibilidade de agir, degradando o homem a um animal laborans โ um animal trabalhador. [โฆ]ย O homem moderno, ao contrรกrio, estaria passivamente exposto ao processo anรดnimo da vida. Tambรฉm o pensamento degeneraria em cรกlculo como funรงรฃo cerebral. Todas as formas de vita activa, tanto o produzir quanto o agir, decaem ao patamar do trabalho. Assim, Arendt vรช a Modernidade, que comeรงou inicialmente com uma ativaรงรฃo heroica inaudita de todas as capacidades humanas, findar numa passividade mortal.โ (p. 22-23)
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โAs descriรงรตes do animal laborans moderno de Arendt nรฃo correspondem ร s observaรงรตes que podemos fazer na sociedade de desempenho de hoje. O animal laborans pรณs-moderno nรฃo abandona sua individualidade ou seu ego para entregar-se pelo trabalho a um processo de vida anรดnimo da espรฉcie. A sociedade laboral individualizou-se numa sociedade de desempenho e numa sociedade ativa. O animal laborans pรณs-moderno รฉ provido do ego ao ponto de quase dilacerar-se. Ele pode ser tudo, menos ser passivo. Se renunciรกssemos ร sua individualidade fundindo-se completamente no processo da espรฉcie, terรญamos pelo menos a serenidade de um animal. Visto com precisรฃo, o animal laborans pรณs-moderno รฉ tudo menos animalesco. ร hiperativo e hiperneurรณtico. [โฆ]โ (p. 23-24)
โA perda moderna da fรฉ, que nรฃo diz respeito apenas a Deus e ao alรฉm, mas ร prรณpria realidade, torna a vida humana radicalmente transitรณria. Jamais foi tรฃo transitรณria como hoje. Radicalmente transitรณria nรฃo รฉ apenas a vida humana, mas igualmente o mundo como tal. Nada promete duraรงรฃo e subsistรชncia. Frente a essa falta do Ser surgem nervosismos e inquietaรงรตes. [โฆ]โ (p. 24)
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โ[โฆ] A sociedade do trabalho e a sociedade do desempenho nรฃo sรฃo uma sociedade livre. [โฆ]โ (p. 25)
โO รบltimo capรญtulo da Vita activa de Hannah Arendt trata do triunfo do animal laborans. Frente a essa evoluรงรฃo social, Arendt nรฃo oferece nenhuma alternativa efetiva. Apenas constata, resignada, que a capacidade de agir fica restrita a poucos. Depois, nas รบltimas pรกginas de seu livro, ela conjura diretamente o pensar. O pensamento seria o que menos prejuรญzos teve daquela evoluรงรฃo social negativa. Embora o futuro do mundo nรฃo dependa do pensamento, mas do poder das pessoas que agem, o pensamento nรฃo seria irrelevante para o futuro das pessoas, pois, dentre as atividades da vita activa, o pensamento seria a mais ativa atividade, superando todas as outras atividades quanto ร pura atuaรงรฃo. [โฆ]ย Por volta do final de seu tratado Vita activa, sem querer, Arendt acaba falando a linguagem da vida contemplativa. Ela nรฃo consegue ver que precisamente a perda da capacidade contemplativa, que nรฃo por รบltimo depende da absolutizaรงรฃo da vita activa, รฉ corresponsรกvel pela histeria e nervosismo da sociedade ativa moderna.โ (p. 26)





















