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VocĂȘ Ă© aquelas dez mĂșsicas que eu nĂŁo me canso de escutar.
Ontem eu lembrei de vocĂȘ. Deu uma saudades!
NĂŁo quero de maneira alguma, enfeitar a tristeza, fazer dela um doce lar. Falo com a voz calma, baixa e porosa. Os lĂĄbios se encontrando levemente, "nĂŁo escolhi estar, sĂł aceitei ficar". Torna-se crucial esse entendimento.
Te banhei com lĂĄgrimas e rosas. Todo o meu corpo era dor de saudades. Em um canto, em mim, me recolhi rejeitando todas as cores alegres que o mundo me esfregava na cara. NĂŁo na tentativa de mostrar a minha vida infeliz, fazia pior, mostrava o quĂŁo feliz eu poderia ser, me atrelando a culpa de nĂŁo querer.
Usaram o sol contra mim.
Saudades de quando eu nadava, mergulhava com os olhos abertos na ĂĄgua com cloro que atacava a minha alergia. Talvez seja isso que me faz amar o mar. Sua beleza Ă© do seu tamanho. Guarda seus segredos em suas profundezas; as sutilezas e a delicadeza sĂŁo guardadas em suas cavernas, tĂŁo profundas que nem o sol ousa iluminar. O mar, tĂŁo singular que tem suas prĂłprias estrelas, mitos, sistemas, vida. Mas Ă© na superfĂcie que o homem descobriu o que Ă© espetĂĄculo: Ă© a brutalidade que toca a sutil nuvem.
Pois como amo o mar. Silenciar-me, escutar o barulho surdo e abafado das ondas, ouvir os movimentos vivos de si mesmo sobre si mesmo. O invejo. Por isso que o amo. Tento imitĂĄ-lo: enfio a cabeça por entre as mĂŁos e tento reproduzir o silĂȘncio, prendo a respiração, me desespero, mas em vĂŁo. Pois, mesmo com a pressĂŁo da pele sobre a pele, nĂŁo consigo me abafar, nĂŁo espanto os ruĂdos de um cotidiano falho. Me venderam ilusĂ”es; pensando bem, nem sei quando comprei, e tĂŁo pouco sei para onde ligar, reclamar, a vida nĂŁo tem um endereço para devolver a si mesmo.
Me revolto, nĂŁo como as ondas; me quebro, nĂŁo com a beleza das ondas contra a costa rochosa do continente, nĂŁo faço o espetĂĄculo de luzes. Oh mar, ele reflete as luzes, seja do sol ou das estrelas. Eu? Me implodo, e dentro Ă© interno. Tento, juro, me esforço, me arrasto aos poucos por entre os sentimentos, as experiĂȘncias, nĂŁo consigo me desvencilhar de mim. NĂŁo floreio, nĂŁo tenho um jardim de corais. Quando alguĂ©m se banha em mim, mesmo que na pele, produzo o sal, nĂŁo deixo a maresia. O cheiro forte do suor, sangue, saem das minhas cĂ©lulas e nĂŁo banham aquele que quer se banhar em mim.
Tenho para mim a certeza das minhas limitaçÔes: a pele que assegura a vida Ă© a mesma que me limita. E nĂŁo sou presenteado com a total ignorĂąncia, me sinto em um ponto medĂocre. Nas relaçÔes nĂŁo invado, nem crio tsunamis para afogar e destruir aquilo que nem me importo; nĂŁo tenho a audĂĄcia de destruir aquilo que nem sei, aquele algo que deve ser e Ă© insignificante. Seja em mim mesmo, quem dirĂĄ o outro ou no outro.
Saudades do mar; se um dia eu morrer, lancem meu corpo ao mar. NĂŁo que ele ou qualquer santidade daquele universo precise dos meus ossos como forma de homenagem ou sacrifĂcio, nĂŁo sou iludido em relação Ă minha importĂąncia quando se tem o mar. Mas me lancem, homenagem ao meu corpo, para que, quem sabe, apĂłs a morte, eu encontre no mar o silĂȘncio, nĂŁo do mundo ruidoso que os demasiados humanos produzem, e aquele silĂȘncio falho que mecanicamente tento com meu corpo. Mas o silĂȘncio do mar.

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Lutar contra Ă© como chutar o vento e esperar que ele sinta dor.
NĂŁo quero de maneira alguma, enfeitar a tristeza, fazer dela um doce lar. Falo com a voz calma, baixa e porosa. Os lĂĄbios se encontrando levemente, "nĂŁo escolhi estar, sĂł aceitei ficar". Torna-se crucial esse entendimento.
Te banhei com lĂĄgrimas e rosas. Todo o meu corpo era dor de saudades. Em um canto, em mim, me recolhi rejeitando todas as cores alegres que o mundo me esfregava na cara. NĂŁo na tentativa de mostrar a minha vida infeliz, fazia pior, mostrava o quĂŁo feliz eu poderia ser, me atrelando a culpa de nĂŁo querer.
Usaram o sol contra mim.
O problema de estar no inferno não são os demÎnios, nem o calor, nem os tridentes, tudo isso até que é de boa. O problema mesmo, é que vai estar cheio de pessoas. Pessoas com boas intençÔes.
Dia a dia.
Tenho familiaridade com a dor. Passo horas ansiando ser sozinho e me transformar em um cachorro que lambe as próprias feridas. Faço o tempo correr, me ocupando com os olhares dos outros que nem sequer me olham, mas me levo tanto a sério. Fico nesta batalha incansavelmente, me fazendo e refazendo; danço em cima de um oleiro. E enquanto o tempo passa, durante o meu tango solitårio, vou carregando os conceitos de mim através do outro que nem sabe sobre mim, como eu. E, em ciranda, vou rodando, com o toque bilateral da minha pele dos dedos longos e finos na palma da minha mão quente.
AtĂ© chegar no silĂȘncio da minha casa. Me abraço na dor, respiro autopiedade, a nĂ©voa da melancolia que sai da vela ou do cigarro em forma de fumaça... Enfim sozinho, ninguĂ©m me vĂȘ... ninguĂ©m me ouve ou me quer. Mas eu cheguei onde queria.

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Bem casado.
Sua felicidade me incomoda. NĂŁo desejo ser alguĂ©m que nutre o Ăłdio, mas vocĂȘ depositou em outra pessoa a sua felicidade, e este nem Ă© o que impulsiona o sentimento. O que mais me atravessa Ă© a falta de oportunidade que vocĂȘ nunca me ofertou. Queria que vocĂȘ fosse a nota de cem que eu encontrei na rua esses dias: em um mundo em que ninguĂ©m mais usa o dinheiro fĂsico, eu a encontrei; vocĂȘ, porĂ©m, nĂŁo. O fĂsico que se esconde atravĂ©s dos quilĂŽmetros.
Por um tempo, vocĂȘ foi o motivo pelo qual eu errei conscientemente, aceitando caminhar atravĂ©s do seu prisma; isso para satisfazer o meu ideal de um amor que nunca aconteceu. Talvez o Ăłdio que sinto deva ser compartilhado: primeiro para mim, pois fui acertado por este sentimento que tanto veneram â e, claro, existem motivos para isso. Depois, para a sociedade em geral: os olhos virando de prazer em todas as telas, as pessoas enlouquecidas em busca dessa 'tampa'.
Quem teve a ideia de se fragmentar e sair em uma busca incessante atrĂĄs de alguĂ©m que estĂĄ completo? Quem foi que inventou que, para a felicidade de uma vida plena, Ă© necessĂĄrio estar neste amor que me obriga a performar frente ao outro, para satisfazĂȘ-lo e para o autoprazer? Um casal pode ser dois quaisquer fingindo ser, um, o herĂłi do outro. EstĂĄtico e plastificado em uma foto que nem Ă© aquela nota de cem fĂsica que achei. Um recorte de momento pensado para se passar por inĂ©dito. Todos sabem que foi nos filmes e nos livros que estavam pintando essa arte.
E, por Ășltimo, vocĂȘ â principalmente vocĂȘ â que plantou essa semente de esperança de eu viver este amor invejĂĄvel. Fomos alimentando-o por anos e, na hora do 'vamos ser medĂocres', vocĂȘ fugiu, me culpou e se libertou do vĂnculo de alguĂ©m que tanto amou. Agora se vĂȘ no direito de sair gritando o seu amor? Com outro? Nem as ranhuras das minhas paredes brancas e sujas sĂŁo tĂŁo sujas como vocĂȘ. Desculpe por nĂŁo guardar o meu Ăłdio, pois penso que, se vocĂȘ se lambuzou do meu amor, irei te oferecer o meu Ăłdio. Nada de ĂĄgua para diluir o gosto ruim. NĂŁo praguejo, mas saiba que o Ăłdio Ă© o prĂłximo sentimento apĂłs o amor.
Quando eu morrer, quero encontrar este Deus normativo. E, em toda a minha arrogĂąncia herdada, irei tentar fazer com que o paraĂso experiencie o inferno por um segundo. NĂŁo levarei as verdades como ele faz; irei questionĂĄ-lo sobre como pode colocar os seus ideais em seres 'tĂŁo inferiores' e cobrĂĄ-los atravĂ©s da sua prĂłpria mĂ©trica.
Perguntarei quais foram os parĂąmetros que ele utilizou para se considerar o 'mais mais', e se ele nos perguntou se querĂamos chegar a essa 'evolução'. E que evolução? Podemos entender que ele sĂł queria fazer um experimento de baixo orçamento? Perguntarei se ele tambĂ©m via a sua vida em dois paradigmas â o bem e o mal â e se ele seguia aquilo em que ele acreditava.
Se somos a sua semelhança, a guerra Ă© mais vĂĄlida do que o amor? E, se nĂŁo for, por que ele nos permitia matar as pessoas em seu nome? ConfrontĂĄ-lo-ia se ele esperaria o amor; por que o escondeu tanto em nossa humanidade? E por que nos deixou nadar neste fel por tanto tempo? Queria saber como ele se sente quando Ă© reduzido Ă s mesquinharias humanas. E por que ele deixou que a morte fosse vista como algo tĂŁo cruel e doloroso, sendo que ela seria para encontrĂĄ-lo? Como ele se sente com isso â que, para vĂȘ-lo, seja tĂŁo sofrido para os que ficaram? E por que ele se esconde tanto?
Perguntaria se ele achava que serĂamos tĂŁo inteligentes a ponto de compreender a dĂĄdiva da natureza; e, se sim, por que ela era tĂŁo efĂȘmera e tĂŁo destrutiva? Ou se a beleza natural â vinda do caos, do choque, dos vulcĂ”es, dos terremotos e dos furacĂ”es â era uma justificativa falha para nos pedir desculpas? Ou seria um presente que a gente nĂŁo soube desfrutar?
Mesmo com toda a prepotĂȘncia e a arrogĂąncia herdadas, iria, sim, pedir perdĂŁo pelos meus pecados; mas queria que a responsabilidade fosse dividida, para dar a oportunidade de ele se desculpar pelo seu mĂ©todo de criação. E, de verdade, espero que esse Deus nĂŁo exista, pois seria tĂŁo frustrante que o meu silĂȘncio e o meu desprezo transferido â aquele pela humanidade, sĂł que reverso ao criador â far-me-iam recusar a entrar em seu paraĂso; e preferiria ir ao inferno que, com certeza, seria mais fĂĄcil, pois Ă© o mais prĂłximo da vida na Terra.
Desenterro
Ultimamente, os mortos estão sendo desenterrados. Todos estão batendo em minha porta para que eu possa olhar em seus olhos e dizer o quanto eu os amo. Meu corpo seria etéreo como a morte, que, em sua sutileza de sumir com a vida, levou o caos (que eu tanto amo) para o meu mundo. Enfrentaria meus pesadelos mais infames ao abraçar o que me deixa semelhante aos viajantes que me olham em vida.
Na morte do outro, encontrei a facilidade de acabar com o que sobrou na caixa de Pandora, mas agora terei a chance de lutar por aquilo de quando vocĂȘ estava respirando. Seriam tantas palavras que resumiriam o que eu nĂŁo sei sentir. O paradoxo Ă© que estar vivo em morte â vivo em mim e morto nas minhas vistas â Ă© estar morto em mim quando o ar ainda saĂa de sua garganta.
Seria o momento de perguntar sobre as sutilezas da terra: o sentir ao ver a superfĂcie de uma folha, a cor que exala o perfume das flores. Te interrogaria sobre como foi amar em silĂȘncio. Iria colocar todas as dĂșvidas em um liquidificador para ter todas as suas certezas dentro de mim.
Ando perdido sobre o que o mundo considera certo ou errado. Tenho apenas as sensaçÔes, que me atravessam como uma voz falhando, um Ășltimo suspiro. Sinto que nĂŁo estĂĄ certo quando todos fingem um mundo de felicidade. Nem isso fui capaz... NĂŁo te encontrei, nem mostrei para os outros os nossos sonhos tĂŁo genĂ©ricos: caminhar entre as ĂĄrvores de mĂŁos dadas e, no fim da trilha, em frente ao mar, dar um beijo que seria eternizado em uma foto, causando inveja aos outros. De tĂŁo semelhante e tĂŁo perfeito para um quadro de militĂąncia. Mesmo que eu ache que o certo seria se jogar do precipĂcio em direção ao sal e pedras. Eu te juro que a queda para a morte seriam os segundos mais vivos que passarĂamos juntos. Mas o retrato seria horrĂvel em jornais.
A morte, simbĂłlica ou fĂsica, por mais doĂda que seja, Ă© sempre generosa, pois nos convida a refletir sobre a vida e principalmente a viver.

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Eu nĂŁo vou mais morrer de amor, infelizmente ou nĂŁo, a maturidade Ă© uma assassina morna e lenta, vai aniquilando as intensidades dos sentimentos em banho-maria.