Saudades de quando eu nadava, mergulhava com os olhos abertos na água com cloro que atacava a minha alergia. Talvez seja isso que me faz amar o mar. Sua beleza é do seu tamanho. Guarda seus segredos em suas profundezas; as sutilezas e a delicadeza são guardadas em suas cavernas, tão profundas que nem o sol ousa iluminar. O mar, tão singular que tem suas próprias estrelas, mitos, sistemas, vida. Mas é na superfÃcie que o homem descobriu o que é espetáculo: é a brutalidade que toca a sutil nuvem.
Pois como amo o mar. Silenciar-me, escutar o barulho surdo e abafado das ondas, ouvir os movimentos vivos de si mesmo sobre si mesmo. O invejo. Por isso que o amo. Tento imitá-lo: enfio a cabeça por entre as mãos e tento reproduzir o silêncio, prendo a respiração, me desespero, mas em vão. Pois, mesmo com a pressão da pele sobre a pele, não consigo me abafar, não espanto os ruÃdos de um cotidiano falho. Me venderam ilusões; pensando bem, nem sei quando comprei, e tão pouco sei para onde ligar, reclamar, a vida não tem um endereço para devolver a si mesmo.
Me revolto, não como as ondas; me quebro, não com a beleza das ondas contra a costa rochosa do continente, não faço o espetáculo de luzes. Oh mar, ele reflete as luzes, seja do sol ou das estrelas. Eu? Me implodo, e dentro é interno. Tento, juro, me esforço, me arrasto aos poucos por entre os sentimentos, as experiências, não consigo me desvencilhar de mim. Não floreio, não tenho um jardim de corais. Quando alguém se banha em mim, mesmo que na pele, produzo o sal, não deixo a maresia. O cheiro forte do suor, sangue, saem das minhas células e não banham aquele que quer se banhar em mim.
Tenho para mim a certeza das minhas limitações: a pele que assegura a vida é a mesma que me limita. E não sou presenteado com a total ignorância, me sinto em um ponto medÃocre. Nas relações não invado, nem crio tsunamis para afogar e destruir aquilo que nem me importo; não tenho a audácia de destruir aquilo que nem sei, aquele algo que deve ser e é insignificante. Seja em mim mesmo, quem dirá o outro ou no outro.
Saudades do mar; se um dia eu morrer, lancem meu corpo ao mar. Não que ele ou qualquer santidade daquele universo precise dos meus ossos como forma de homenagem ou sacrifÃcio, não sou iludido em relação à minha importância quando se tem o mar. Mas me lancem, homenagem ao meu corpo, para que, quem sabe, após a morte, eu encontre no mar o silêncio, não do mundo ruidoso que os demasiados humanos produzem, e aquele silêncio falho que mecanicamente tento com meu corpo. Mas o silêncio do mar.