Acho que 2015 foi o ano mais intenso da minha vida, por dentro e por fora. É bem difícil conseguir condensar tanta coisa que aconteceu numas palavrinhas. Mas acho que foi, principalmente, o ano em que eu deixei a vergonha, a auto-repressão de lado e isso fez explodir tanta coisa linda em mim. É um sentimento físico de liberdade, de orgulho de si que conforto nenhum paga. E custa caro. Custa discussões familiares, custa olhos te julgando, custa gente que tu ama se incomodando e se distanciando, custa problemas financeiros, dúvidas profissionais. É preciso ser muito forte nesse mundo de padrões, de repetição, de esquerda moralista, pra ser quem se é, e eu enfraqueci muitas vezes. Mas o que eu também descobri nessa busca maluca de cagar para o que todo mundo esperava de mim foi que eu não estou sozinha nessa, e como num passe de mágica encontrei tanta gente maravilhosa me dando suporte, me dando forças, que logo a vontade de ceder passava. Acontecem coisas que vocês não podem imaginar quando a gente decide dar ouvidos pra esse ser desconhecido que habita o nosso corpinho.
Também aconteceu de eu me conformar que disciplina, prudência, controle são coisas que não fazem parte de mim, são fantasmas que provavelmente vão me atormentar pro resto da vida, paciência. Ao mesmo tempo, é quase fácil ser rebelde quando tua natureza ajuda, risos. Mas eu também descobri que ter uma vontade quase indomável raramente é ruim, e só é ruim porque a galhere fica se reprimindo e se incomodando com o teu cu, porque o nosso mundo te castiga quando tu resolve dar mais ouvidos pro teu mundo. Esse ano eu me senti criança de novo, descobrindo, criando o meu mundo, sem medo, me espantando sempre com alguma coisa aqui dentro, aí fora, até com as folhinhas das árvores dançando a música que tocava no fone de ouvido, com a luz da lua me surpreendendo de novo e de novo na janela da cozinha da mamãe, com o techno, que me fez enxergar o supermercado, a cidade e a dança de um jeito novo. A natureza está em toda parte, não duvidem disso (às vezes sufocada, é quando ela nos deixa doentes).
Queria agradecer do fundo do coração a menina que nem sei o nome e que me encorajou a pular no rio nhundiaquara, cheio de gente ao redor, sem camisa, porque eu queria muito pular no rio e não tinha roupa de banho. Muito obrigada, menina, muito, muito obrigada. E aos meus pais, que frente a tanta pressão social, tanta divergência de ideias, tanto medo de me ver quebrando a cara, sempre me deram espaço pra falar, me explicar, me defender, que sempre fazem um esforço danado pra me entender e até quando não entendem, não me abandonam, aos meus amigos que me deram ânimo, inspiração, abraços, amor, beleza, risos, ao meu parça de oito anos que viveu isso tudo comigo. Sem vocês eu jamais teria forças. E aos meus escritores, mortos, vivos, que fizeram, fazem obras que me salvam todos os dias, assustadoramente. E a arte toda da vida, que me faz ser viva, (in)útil.
2016 é ano de me render um pouquinho, que eu preciso pagar as contas sem essa bolsa de estudos, que mesmo ingrata, me permitiu um monte de coisas. Vai ser difícil, mas bem menos difícil depois desse ano incrível que eu tive e que ainda vai me dar muitos frutos. Muita força e amor e gozadas pra nós tudo!
Faço as tuas, minhas palavras em grande parte, amiga-inspiração. 2015 me abriu tantas percepções sobre o meu, o nosso, o mundo que ainda nem consigo ler o que significou isso quais suas repercussões. Assim, 2016, me traga clareza e paciência para polir esse ser humano mais evoluido que 2015 me transformou.