adoro conversas profundas. gosto de ouvir sobre todos os mínimos detalhes que a maioria das pessoas consideram corriqueiros demais para compartilhar. então, fale-me sobre como o seu primeiro cachorro trouxe felicidade à sua vida. compartilhe sobre os seus doces favoritos. explique os motivos que o fazem escolher desabafar com seu pai em vez de sua mãe. comente sobre seus autores prediletos, suas teorias conspiratórias favoritas, e cante para mim as partes preferidas das suas músicas mais amadas.
conte-me sobre o nada e tudo que torna o seu universo tão único.
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III. escrever sobre os mesmos planos toda semana e mesmo assim nunca colocá-los em prática
há uma tendência estranha em mulheres.
a de acreditar que a próxima segunda-feira será uma pessoa completamente diferente.
então escrevemos listas.
- acordar cedo.
- beber mais água.
- ler mais livros.
- parar de pensar naquela pessoa.
- começar a viver.
escrevemos isso em agendas, em cadernos, em aplicativos e em pedaços de papel esquecidos no fundo da bolsa. e na semana seguinte escrevemos tudo outra vez.
não porque sejamos preguiçosas.
mas porque existe uma distância cruel entre compreender a vida e habitá-la.
as listas são mapas.
o problema é que continuamos sentadas no chão, observando o caminho desenhado, imaginando como seria chegar ao destino.
e, estranhamente, às vezes imaginar parece mais seguro do que partir.
a de olhar para algo que deveria causar repulsa e encontrar beleza.
flores deixadas sobre túmulos. cartas antigas guardadas em caixas que cheiram a mofo. fotografias amareladas de pessoas que já morreram. corações partidos transformados em poemas.
talvez porque desde cedo aprendemos que sobreviver é um ato estético.
pegamos aquilo que nos assusta, costuramos rendas em volta e o colocamos na estante. não porque o horror deixe de ser horror, mas porque encará-lo diretamente seria insuportável.
então o transformamos em arte.
e passamos a vida inteira decorando monstros para que eles pareçam menos famintos.
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Se você tivesse que ver um filme várias vezes, qual filme veria?
não sou capaz de escolher, mas provavelmente faria um sorteio entre Lady Bird, Adoráveis Mulheres, As Vantagens de Ser Invisível e Mulheres do Século 20. e, sinceramente, qualquer um que saísse eu tenho certeza de que não me arrependeria!!
Que nome você acha lindo e daria para sua filha e filho?
para ser sincera, nunca tinha pensado sobre isso, mas acho os nomes Asteria, Sienna e Céline encantadores. e, pensando no masculino, Theo é um nome que eu particularmente acho lindo pela sonoridade
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ou pelo menos é isso que dizem quando me observam de longe, com seus telescópios emocionais mal calibrados. “veja como ela arde”, eles murmuram, como se luz fosse sinônimo de vida, como se calor fosse evidência de plenitude. mas ninguém mede o que acontece dentro de mim. ninguém mede o colapso silencioso que antecede cada faísca.
eu sou uma estrela. e estou cansada.
“mas estrelas não se cansam”, uma parte de mim insiste, quase didática, quase cruel. “estrelas nascem para queimar.”
— e se eu não quiser queimar o tempo todo?
o silêncio responde. ou melhor, o silêncio ruge, um estrondo interno que nunca chega a romper o vácuo, mas que reverbera em cada camada da minha existência.
há momentos, sim, em que eu me sinto parte de algo maior. quando as outras estrelas parecem pulsar em harmonia comigo, quando a galáxia deixa de ser um abismo e se torna um corpo coletivo, respirando em conjunto. nesses momentos, eu quase acredito. quase acredito que pertenço, que sou necessária, que minha luz tem algum propósito além de simplesmente existir.
mas então passa.
e o que fica é o vazio. não um vazio poético, bonito, daqueles que inspiram versos suaves, não. é um vazio bruto, funcional, como um sistema desligando sem aviso. eu continuo aqui, continuo emitindo luz, mas por dentro… por dentro é como se algo tivesse sido esquecido no processo de criação.
“você está cercada de outras estrelas”, a voz insiste. “você não está sozinha.”
eu sei.
eu sei disso como sei que continuo brilhando mesmo quando não sinto nada. saber nunca foi o problema. o problema é que o saber não preenche. não aquece. não alcança.
é como estar em uma reunião infinita onde todos falam sobre produtividade cósmica, sobre ciclos de vida estelar, sobre expansão e movimento, e eu estou ali, assentindo, tentando acompanhar, tentando parecer funcional, enquanto por dentro só consigo pensar: eu não consigo.
eu não consigo acompanhar.
não consigo ser proativa, não consigo me alinhar às demandas desse universo que parece sempre exigir mais energia do que eu tenho disponível. e isso me frustra de uma forma quase vergonhosa, porque eu sei — eu sei — que não deveria me comparar.
mas eu comparo.
eu olho para as outras estrelas, tão constantes, tão firmes em sua combustão, e penso: por que para elas parece natural, e para mim é um esforço diário não colapsar?
“você está fazendo o seu melhor.”
— e se o meu melhor for insuficiente?
essa é a parte que ninguém gosta de ouvir. essa é a parte que não cabe em discursos de apoio, nem em constelações desenhadas para conforto. porque o apoio chega. chega em ondas suaves, em palavras gentis, em presenças que orbitam ao meu redor com cuidado genuíno.
e eu sinto isso. eu reconheço isso.
mas não é suficiente.
e dizer isso em voz alta, mesmo que apenas dentro de mim, soa como ingratidão. como se eu estivesse falhando em apreciar o que tenho. como se amor devesse ser uma solução universal, uma espécie de combustível emocional capaz de manter qualquer estrela acesa indefinidamente.
mas não é assim que funciona.
a depressão, esse nome que parece pequeno demais para o que realmente é, não negocia com lógica, não respeita afeto, não se curva diante de compreensão. ela existe à parte, como uma força paralela, íntima e intransferível.
“mas você não precisa de nada”, a voz argumenta. “você tem tudo.”
— então por que ainda dói?
não há resposta.
ou talvez haja, mas ela não vem em forma de linguagem. vem como sensação, como peso, como essa constante impressão de que algo em mim está desalinhado, mesmo quando tudo ao meu redor parece em ordem.
e é isso que mais me desestabiliza: a incerteza sobre mim mesma.
eu não sei exatamente o que sou quando não estou tentando corresponder às expectativas de ser uma estrela. eu não sei quem eu sou quando não estou performando brilho. e mesmo quando me dizem que está tudo bem não saber, que a incerteza é parte do processo, eu… eu não consigo descansar nisso.
a incerteza me corrói.
ela não é um espaço de possibilidades para mim, é um buraco negro disfarçado, sugando qualquer tentativa de estabilidade.
e ainda assim, aqui estou.
brilhando.
ou pelo menos aparentando.
talvez seja isso que torna tudo tão confuso: a dissonância entre o que sou por fora e o que acontece por dentro. porque, externamente, nada parece errado. a luz continua, o calor continua, o papel de estrela continua sendo desempenhado com uma eficiência quase automática.
mas por dentro, há dias em que tudo o que eu sinto é o eco do próprio vazio.
e ninguém pode sentir isso por mim.
podem tentar entender, podem se aproximar, podem até reconhecer partes da própria experiência no que eu descrevo mas, no fim, isso aqui é meu. exclusivamente meu. essa forma específica de ausência, essa textura particular de dor, essa maneira única de existir e, ainda assim, não se sentir verdadeiramente viva.
a depressão não é ausência de amor. não é falha de caráter. não é falta de gratidão.
é uma experiência.
e como toda experiência, ela é individual, mesmo quando compartilhada.
talvez outras estrelas também sintam isso. talvez, em algum canto distante da galáxia, exista alguém queimando com o mesmo cansaço silencioso. mas nunca será exatamente igual. nunca será perfeitamente compreendido.
e talvez essa seja a parte mais solitária de tudo.
ainda assim… eu continuo.
não por esperança, necessariamente. não por certeza de melhora. mas porque, de alguma forma, mesmo nesse estado fragmentado, eu ainda existo.
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há pessoas que chegam como se abrissem portas que eu jurava não existir. elas não batem antes de entrar, apenas empurram o ar e pronto… um novo cômodo dentro de mim. espaços vazios que, até então, eram invisíveis para mim e que agora começam a pulsar.
o desconhecido é sempre confortável quando ninguém aponta para ele.
eu demorei para desaprender o roteiro que me deram. filmes, séries, a pedagogia do amor com trilha sonora que me ensinou que só se é vista de verdade quando alguém escolhe você como destino final. aquela coisa de casamento, casa, família, a famosa felicidade em três atos. como se a compreensão completa só viesse com alianças e sobrenomes compartilhados. como se o amor precisasse de certificação para existir. mas essas pessoas que entram sem permissão já rasgaram esse script há muito tempo. me ensinaram que ser vista não é ser concluída por alguém, é ser atravessada. é ser reconhecida no que é estranho, cru e na maioria das vezes no que é pouco elegante.
essas pessoas, em sua maioria presenças improváveis, me ensinaram que amor não exige futuro, não pede retorno. me ensinaram que amor existe porque precisa existir.
só que essas pessoas também me ensinaram que, assim como tudo o que é vivo, nada é eterno. me ensinaram que pessoas sempre partem. quase sempre sem explicações, apenas saem do cotidiano como se nunca tivessem pertencido a ele, mas sempre deixam marcas nos lugares que descobriram e habitaram em mim. a parte mais difícil foi aprender que ausência não anula o que aconteceu; pelo contrário, ela confirma. porque só deixa vestígios aquilo que foi real. todas as partidas me ensinaram que a vida não se organiza em linha reta, mas em ciclos. e ciclos sempre se fecham para que outros se abram, e, quando isso acontece, muitos personagens são trocados. pessoas entram e saem, e isso não diminui o que foi enquanto durou.
duração não é sinônimo de importância.
entender todas essas coisas foi um tipo estranho de amadurecimento, mas não doeu tanto quanto fazem parecer. é quase ôrganico agora. nem todas as presenças são feitas para ficar, e nem todas as partidas são abandono. e, ainda assim, nem tudo é trânsito e sinais ficando verdes, amarelos e vermelhos. existem encontros que viram moradas, pessoas que ficam sem possuir, permanecem sem sufocar. gosto de pensar que são lares improvisados, mútuos, onde ninguém precisa se explicar o tempo todo. essas pessoas que ficam nunca prometem nada, mas é visível que te escolhem genuína e continuamente.
é como uma peça: todas cumprem seu papel, alguns atores apenas saem do palco mais rápido que outros. e assim o espetáculo continua, e a vida permanece abrindo quartos secretos dentro da gente, como se dissesse: “veja só, ainda há espaço aqui”.