Como deve ser um bom zoológico?
O mundo atual está passando por transformações em ritmo acelerado, uma delas, não menos importante que as demais, é a extinção de espécies animais e vegetais ocasionada pela ação humana. É preciso compreender, entretanto, a importância de instituições que trabalham em prol de conservar e salvar essas espécies e, destacamos aqui, o papel dos zoológicos e aquários.
Apesar da posição de alguns grupos contra a existência de zoológicos mundo afora, cuja principal argumentação é a baixa qualidade de vida dos animais mantidos nestas instituições, é importante pontuar que nem todos os zoológicos são iguais e que há zôos bons e zôos ruins. Com base nisso, vale dizer que instituições inadequadas devem ser reconfiguradas e, quando isso não for possível, fechadas.
Como seria, então, um modelo ideal de zoológico? Como um zoo pode contribuir para a conservação de espécies em cativeiro e em vida livre?
Idealmente, Zôos e Aquários têm desenvolvido as suas ações dentro de quatro pilares:
Foto: Diretora Técnica do Parque das Aves Yara Barros manejando um grupo de Ararajubas (Guaruba guarouba).
Reprodução para conservação de espécies;
Integração de esforços de conservação em cativeiro com estratégias de conservação em vida livre;
Patrocínio de projetos. Anualmente no mundo todo, zoológicos investem um valor estimado de US$ 350 milhões em projetos de conservação, sendo o terceiro maior financiador mundial de conservação;
Conservação e recuperação de áreas naturais.
Foto: Endoscopia realizada pelos Professores Ulrich Neumann da Universidade de Medicina Veterinária de Hannover e Lorenzo Crosta
Desenvolvimento de estratégias de conservação em cativeiro para aplicar em vida livre;
Suplementação e reintrodução de espécies ameaçadas;
Desenvolvimento de pesquisas em áreas como biologia da conservação, clínica, nutrição, genética, manejo e comportamento;
Estabelecimento de parceria com instituições de pesquisa para desenvolvimento de trabalhos cooperativos e capacitação.
Foto: Educação Ambiental nas escolas
Possibilitar um contato entre o ser humano e a natureza, sendo uma ótima ferramenta de educação para a conservação;
Provocar uma mudança positiva na percepção e na relação das pessoas com o ambiente;
Conscientizar os visitantes sobre o impacto de suas práticas no ambiente.
Foto: Pessoas visitando um zoológico – Fonte: Google imagens
Atrair as pessoas para o zoológico;
Aliar o momento de descontração com a transmissão de conhecimento;
Possibilitar o convívio de pessoas com animais e com outras pessoas.
O Zoológico como Arca de Noé – Preservando espécies
Tendo em vista que o ambiente natural de muitas espécies se encontra em perigo, o papel de instituições como os zoológicos, que podem manter em cativeiro espécies cujas populações estão em declínio ou extinta é cada vez mais importante.
Diante da atual necessidade de reduzir a pressão sobre a biodiversidade do planeta, acordos internacionais e planos de ação foram criados com o objetivo de conservar a diversidade biológica, como é o caso da Convenção de Diversidade Biológica (CDB), da qual o Brasil é signatário (http://migre.me/exE1h).
Dentre uma série de medidas propostas pela CDB, uma delas trata especificamente de espécies que possuem seus habitats severamente ameaçados. O cenário para essas espécies é tão agônico, que a União Internacional para a Conservação das Espécies (IUCN), em parceria com a lei americana de Espécies Ameaçadas e a própria CDB, reconheceram que as ações de conservação in situ devem ser combinadas com abordagens ex situ, como reprodução em cativeiro em zoológicos e aquários.
Foto: Jacutinga (Aburria jacutinga) – Espécie ameaçada de extinção
Para que uma estratégia de conservação global possa ser construída, envolvendo o estabelecimento de programas de reprodução em cativeiro cooperativos, os dados das populações de animais em zoos e aquários precisam estar disponíveis em esfera internacional.
Atualmente, a sistematização das informações sobre o plantel de zoos e aquários no mundo todo é feita pela ISIS (International Species Information System). ISIS é uma rede de associados sem fins lucrativos que detém o maior número de informações sobre os animais que são mantidos em aquários e zoológicos no mundo todo (http://migre.me/exDTB). Um quarto das espécies de aves descritas no planeta e aproximadamente 20% de mamíferos faz parte do banco de dados da ISIS.
Como um único zoológico não é capaz de manter uma população mínima viável para a reprodução e sobrevivência de uma determinada espécie, os associados da ISIS mantêm e compartilham informações padronizadas e detalhadas sobre mais de 1.8 milhões de espécimes de 10.000 grupos taxonômicos. Esta é uma maneira prática de manter a variabilidade genética de espécies e, dessa maneira, atuar em prol da conservação.
Dos animais classificados como ameaçados pela IUCN (International Union for Conservation of Nature) (http://migre.me/exDWh), 142 espécies de mamíferos, 83 de aves, 29 de anfíbios e 90 de répteis são mantidos em zoológicos e aquários, reforçando ainda mais a importância destas instituições para a conservação.
O estudo de animais em cativeiro pode fornecer informações importantes sobre a biologia de uma espécie e, a partir disso, fornecer embasamento para a elaboração de estratégias para sua conservação. Com isso, potencializam-se os esforços de conservação de populações em vida livre, assim como estudos in situ podem ajudar a adequar as dietas oferecidas para espécies em cativeiro, impulsionando um maior sucesso reprodutivo.
Conservação ex situ – in situ
Com as atuais taxas de perda de biodiversidade causadas pela destruição, degradação e fragmentação de habitats, os zoos têm atuado de forma efetiva na conservação da vida selvagem, sendo diretamente responsáveis por diversos projetos bem sucedidos de preservação, manejo e reprodução de espécies em cativeiro.
Alguns exemplos concretos de como a reprodução em cativeiro recuperaram espécies extintas na natureza são o caso do emblemático condor da Califórnia, o cavalo de Przewalski (Mongólia) e o furão-de-patas-negras (Estados Unidos).
Foto: Condor-da-califórnia. Fonte: Wikipédia
Com um público anual de 1 em cada 10 pessoas do mundo, os zoológicos são espaços com um enorme potencial para a educação acerca do mundo natural e de sua conservação. Os programas de educação ambiental desenvolvidos pelos zoos e aquários podem mudar a percepção dos visitantes a respeito de biologia animal, bem-estar animal, conservação ambiental, entre outras coisas. Essa mudança de percepção pode permitir ao visitante uma sensibilização e apreço sobre os animais, podendo gerar, assim, uma mudança de comportamento.
Há um problema, entre a teoria e o que ocorre na prática. A insuficiência de recursos para os zoológicos públicos dificulta a qualificação de profissionais, planos de carreiras, incentivo a visitação e torna muitos zoos reféns da vontade política do governante da vez.
Por outro lado, existem excelentes profissionais à frente de zoológicos que fazem deste trabalho e da paixão pelos animais a sua vida. Recebendo incentivos ínfimos da iniciativa pública e privada e, ainda assim com vontade, determinação e criatividade, conseguem cumprir a verdadeira missão de um jardim zoológico.
Vale citar o conto “O Búfalo”, de Clarice Lispector, no qual a mulher vai ao zoológico aprender a odiar, mas se decepciona, pois somente encontra amor nos olhos dos animais.