você não tem que aguentar tudo: desistir também é preciso
desde os dezesseis anos, eu digo que quero ser escritora. naquela época, ainda adolescente, eu já dava indícios de que a área profissional seria o grande "amor" da minha vida. em outras palavras: seria nela que eu investiria tempo e energia, já que todas as outras apenas me faziam me sentir insuficiente.
como uma pessoa aroace, eu me preocupava muito mais com o meu futuro artístico do que com o romance - apesar de amá-lo nos livros. a onda de bullying que sofri entre os 10 e 16 anos também me moldaram muito: comecei a duvidar da minha capacidade e a minha estima foi muito afetada, assim como a minha autoconfiança.
cresci me sentindo feia, burra e insuficiente. mas era na escrita que eu encontrava o meu lugar. por isso, quando escrevi no meu diário que eu preferia ser uma escritora bem-sucedida a estar casada, no futuro, não foi exatamente uma surpresa. eu cresci com a noção de que não desejava maternar ou me casar - hoje, eu entendo que tem muito a ver com o fato de eu ser uma pessoa aroace.
iniciei a minha carreira de escritora com as fanfics, como a maioria dos escritores da minha geração. eu tinha 18 anos e uma mente fervilhando de ideias. em 2015, lancei contos pela amazon e aí começou realmente a minha carreira profissional - antes, eu apenas entendia a escrita como um "treinamento". mas foram as fanfics que me deram a coragem para que, em 2015, eu ousasse publicar as primeiras histórias cobrando um valor por elas.
hoje, estamos em 2024. atualmente, divido a minha vida em três áreas profissionais: a escrita, a revisão e a produção de conteúdo. e o que, aos 16 anos, era para ser um conto de fadas se tornou um conto de terror.
quase desisti da carreira de escritora no ano passado. as revisões não pagam as minhas contas. a produção de conteúdo triplicou e o tempo que passo on-line tem afetado muito a minha saúde mental.
ao longo dos processos, comecei a perceber que não tenho como jogar o jogo do capitalismo digital: para me manter no topo da amazon, eu teria que publicar todos os meses, arcar com muita publicidade e investir em tráfego pago; para crescer nas redes sociais e vender o meu trabalho (tanto como escritora quanto revisora), eu deveria publicar muitas vezes por dia - e a minha criatividade, é claro, não é ilimitada.
algo que percebi já tem um tempo é que nós raramente temos vida fora do ambiente on-line. esses dias, vi que alguém escreveu que, antigamente, o computador ficava no quarto ou na sala e que bastava desligá-lo para continuar com as nossas rotinas. acontece que, hoje, não há mais a separação do mundo on-line e do mundo real, já que o celular se tornou algo do cotidiano, da rotina. ninguém se desconecta mais.
é por isso que eu tenho tido cada vez mais vontade de ficar off-line. de produzir o mínimo e simplesmente sumir das redes sociais. algo que comecei a fazer foi deletar o tiktok assim que publico algo lá. isso me tira o foco e a ansiedade de acompanhar como o vídeo postado está performando.
no último feriado nacional, por exemplo, eu passei quase quatro dias desconectada - e aproveitei para fazer aulas de yoga e meditação em um espaço incrível aqui na minha cidade. retomar essas práticas (que eu fazia sozinha, a partir de apps) de maneira presencial me fez perceber o quanto nós estamos desconectados com a presença dos outros, com a coletividade.
vejo que essa conexão diária e extrema não é mais um problema somente de vício, mas de perda das nossas identidades. o ambiente on-line me aproximou muito de pessoas com os mesmos interesses que os meus, mas, ao mesmo tempo, tenho dificuldade de entender o que me motiva e me interessa no mundo real. e isso acontece justamente porque perdemos esse senso de identidade individual real.
passamos a acreditar que as conexões que fazemos no on-line são tão verdadeiras e fortes quanto às do mundo real - e posso dizer que não é verdade. essas conexões são importantes, sim, mas não conseguem substituir a presença efetiva do outro.
para mim, que sempre me concentrei no profissional, vejo que estou tendo muitos prejuízos no quesito de saúde mental quanto ao mundo digital: eu não me desconecto, então fico ansiosa e não consigo relaxar.
então, é importante percebermos quanto da nossa rotina é afetada pelo ambiente virtual; quantas horas você passa ali? o que consome? por que consome? precisamos entender que toda relação intensa pode causar danos.
o jogo aqui não é realinhar o mundo real para caber no mundo digital (as fotos perfeitas, os lugares perfeitos, os looks perfeitos, o trabalho perfeito etc.), mas entender que, muitas vezes, o mundo digital não precisa caber no mundo real - porque ele não é necessário; é melhor passar um tempo conversando com os amigos presencialmente, num lugar tranquilo, ou estar ansioso e perder horas e horas conectado ao celular?
precisamos entender que devemos fazer escolhas. não apenas por causa do autocuidado, mas para que possamos viver melhor.
por isso, você não precisa aguentar tudo. não precisa aguentar as frustrações de uma empresa que não valoriza a sua profissão, não precisa aguentar viver como um robô para atingir metas cada vez mais irreais, não precisa fingir ter uma vida que não é a do mundo real.
desista. desistir também é ser corajoso.
desista, porque você é humano. desistir faz parte do viver.