Dormir sem qualquer atribulação onírica era um bênção que apenas doses diluídas de Deathsweet podiam lhe proporcionar. Aegeus havia excedido a dose naquele dia, após seu encontro com Galatéia. Sentia-se esgotado e drenado, mas não conseguia pregar os olhos, enquanto que no chão do lugar onde vivia, pérolas negras e brancas misturavam-se em um verdadeiro jogo de xadrez. Contudo, caiu no sono que poderia ser definitivo após exceder a dose da poção que sua ex-cunhada concedia-lhe. Aegeus, naquele momento, desejava que assim o fosse, para finalizar com todo o seu sofrimento, para que pudesse ver Sirena novamente pelo menos uma última vez após sua morte. Contudo, seria um fim fácil demais para sua irresponsabiliade, por sua fraqueza ao não ser suficientemente rápido para prevenir que a tragédia acontecesse. Foram batidas fortes na porta, seguidas uma da outra de maneira ininterrupta que fizeram seu corpo reagir. O Marinus talvez não tivesse levantado, porém, não fosse a voz que escutava através da porta. Um calafrio percorreu a pele nua de seu torso conforme levantava, resquícios do efeito de Deathsweet. Seu cabelo era um emaranhado caótico, assim como os olhos que jaziam vermelhos, as mãos trêmulas. O príncipe não estava em seu melhor estado para atender Nicodemus, talvez não desejasse que ele o visse em tal estado, seria mais prudente mandá-lo embora, oras.
Temia que caso o feérico o enxergasse de maneira tão estilhaçada, esse fosse deixá-lo e uma das únicas coisas boas a qual podia se agarrar era sua relação com Nicodemus. Era um confidente, um amigo, um amante. O sereiano não precisava usar e sua sedução para com ele, pois era genuíno e mesmo após anos, temia que tal relação fosse desfeita. Para elfos o amor poderia ser recorrentes, um, dois, dez amores. Sereianos, porém, ah, havia apenas um a qual dedicavam todo o sentimento que possuíam. Não tinha problemas em confessar a si mesmo a única emoção que o fazia sair da inércia em seu buraco negro, mas não falaria sobre a mesma em voz alta. Porém, antes que pudesse decidir o que fazer, foi levado até a porta, respirando fundo antes de abrí-la em silêncio, sem proferir uma única palavra. Tentou lutar consigo mesmo, olhando para baixo e evitando manter contato visual para com Nicodemus ao dar-lhe passagem para adentrar o local. “ —— Eu estou vivo, se é isso que veio checar. ” Crispou os lábios, percebendo que havia sido rude em suas palavras, ainda que não fosse sua intenção. “ —— … Pode entrar, Nico. ” Deu-lhe espaço para adentar o local recheado com perólas dispostas no chão. “ —— Eu deveria dar-lhe uma cópia da minha chave nessa altura. ” Tentou sorrir, ainda que parecesse mais afetado com melancolia do que qualquer outra coisa. O príncipe, porém, aproximou-se de Nicodemus, tocando-lhe a bochecha esquerda com a destra. “ —— Não foi minha intenção preocupá-lo, eu só… eventos, festas, eu não sirvo para esse tipo de comemoração. ” A meia verdade que contava para todos. Aegeus desviou os olhos, ainda afetado pelos últimos acontecimentos. “ —— Eu espero que tenha se divertido. ”
Se lhe perguntassem, não saberia dizer com exatidão o que esperava visualizar com a abertura daquela porta. Esperava os retalhos de um homem que um dia fora o soldado mais admirável de seu batalhão e, embora continuasse inspirando glória em outrem, já não conseguia mais perceber a própria grandeza. Todavia, presenciou ruína, a carcaça de um ser corroído pela depressão e auto aversão, um eco de seu passado, preenchido apenas por um vício. Suspirou profundamente, tentando lutar contra a morte da voz em sua garganta. Adentrou o recinto em silêncio, deixando os olhos vaguearem pelas paredes enquanto Aegeus jogava desculpas esfarrapadas em seus ombros. Necessitou de muita força de vontade para não assumir sua faceta dominadora e demandar que o outro se recompusesse para recebê-lo, sabendo que seria um ato egoísta e cruel demais. O sereiano necessitava de acolhimento, não de ordens. E se fosse bem sincero, Nico já estava cansado de ordens também.
❛ ——— Muito me alegra saber que não acabou entrando em coma, meu bem. Você é o único que entende meus códigos militares! ❜ Pontuou, arqueando as sobrancelhas, sem demonstrar surpresa pela rudeza alheia. Não havia chegado até seu atual posto ouvindo gentilezas. ❛ ——— Você bem que precisa de alguém para ajudá-lo a limpar a casa quando não estiver presente, então aceito o gesto... ❜ Retrucou, referindo-se às pérolas espalhadas pelo assoalho. Engoliu qualquer comentário sobre a possível solidez que o ato poderia dar ao relacionamento flexível que mantinham. Como uma forma de garantir que estava tudo bem se Aegeus não fingisse e simplesmente deixasse que as verdadeiras emoções viessem à tona, levou uma das mãos aos fios de cabelo emaranhados, afagando-o com cuidado. ❛ ——— Não gosto quando tenta me enganar. Posso retirar a verdade de você com socos, se quiser, mas prefiro que mantenhamos a honestidade por vontade própria, sim? Então por que não me conta seus verdadeiros motivos enquanto cuidamos deste seu maltratado cenário? ❜ Ofereceu, erguendo ambas as mãos para puxar o pescoço do outro docente, encontrando seus lábios a meio caminho em um singelo contato, apenas para afirmá-lo de que Nico estava ali, estava com ele e tentaria apoiá-lo em tudo que dissesse, por mais bruto que o Envinyatariel pudesse ser em alguns momentos.
Por sorte, Nicodemus era bom em cuidar, e Aegeus precisava de alguém que cuidasse de si. Eles haviam se encontrado em bom momento, de fato. Rompendo o contato de forma quase hesitante, o soldado procurou pelas mãos do outro homem, puxando-o para o quarto. Sabia o caminho de cor após tê-lo percorrido em tantos outros momentos. ❛ ——— Foi um evento interessante, no fim das contas. Seria melhor se você estivesse lá, é claro, mas sou grato pelas coisas que recebo. Aliás, aprendi alguns passos de dança. Quem sabe nós não possamos treiná-los mais tarde? ❜ Ergueu as sobrancelhas, agora mais acolhedor do que julgador. ❛ ——— Onde estão suas roupas? Vamos dar um jeito nessa sua semi nudez antes de qualquer coisa. Você acha que eu conseguiria manter um diálogo vendo-o desse jeito? ❜ Reservou ao sereiano um sorriso malicioso enquanto o empurrava para que se sentasse na cama, tomando liberdade de iniciar a busca por seus trajes no que parecia ser um armário.
❛ ——— Precisamos dar um jeito nesse seu cabelo e juntar essas pérolas do chão, alguém vai acabar pisando, caindo e se machucando feio. Vamos, seu peixe velho, ao trabalho! ❜ Demandou, apertando os ombros do outro e balançando-os levemente. Faria de tudo para se certificar de que Aegeus estivesse em boa forma ao final de sua visita, ou ao menos em uma forma melhor do que aquela que havia lhe encontrado. ❛ ——— Juro pela Coroa, vou começar a te vestir como uma criança se me forçar. Eu não ligo para o seu tamanho e para o quão ridículo vai ser. Não me desafie! ❜