Talvez eu precise te contar algo que nĂŁo vai te agradar. Lembra quando cerrou tudo e caminhou o mais longe que pĂ´de, nĂŁo concordando em enfrentar rituais sociais que foram entregues quase que com: “boa sorte e tenha um excelente dia!” escrito no final? NĂŁo acredito que tenha errado, vocĂŞ poderia ter tido uma chance melhor? Ou uma alternativa sem nenhum efeito colateral que deixasse tudo iluminado como era antes? VocĂŞ fez o melhor que pĂ´de enquanto pĂ´de! E por muito tempo acreditou ter encontrado uma saĂda ou aquela espĂ©cie de paz, presenteada somente pelo tempo, que sei que ouviu de alguns desconhecidos. Seria muito bom se se tratasse apenas de qualquer outra pessoa. Agora sei o porquĂŞ de vocĂŞ sempre fechar todas as portas, arquivar milhares de memĂłrias, nĂŁo abandonar o seu discurso vazio e jamais refletir sobre o que acabara de dizer, mesmo que a sentença fosse chocante, nĂŁo para os outros, mas para si mesmo. O motivo de vocĂŞ ainda acreditar nos recomeços e nos arrependimentos. De ainda lutar por tudo aquilo que esteve por perto, indiretamente ou diretamente, causando dor ou nostalgia, te trazendo ânimo ou desesperança, desde que fosse capaz de presentear o mĂnimo que fosse daquela sensação novamente, atĂ© se desvincular por completo depois. Se eu te perguntasse a alguns meses o que vĂŞ ao olhar para o cĂ©u, vocĂŞ me diria qualquer coisa, menos o que realmente sempre viu ao olhar para ele. E se te perguntasse agora e nĂŁo acreditasse em uma sequer palavra sua, sĂł restaria o que vocĂŞ sempre escondeu de si. Escondido atrás do consciente, impedido de aparecer, ou pior, te causar qualquer coisa. Talvez seja apenas o primeiro passo, mas sinceramente tenho medo de que seja finalmente o Ăşltimo. NĂŁo Ă© mais sĂł vocĂŞ nisso, agora sou eu. Eu quem nĂŁo consigo olhar para os finais de tarde sem sentir o vazio ou andar sozinha por onde mais amava caminhar, abrir os malditos arquivos que foram mantidos por um bom motivo, nem ter sequer o controle do meu corpo em muitos momentos. Nem evitar a garganta irritada e o estĂ´mago fechado; revivendo o deitar na cama de barriga para cima sem sentir o chĂŁo, as pessoas ao redor, o coração batendo, nem a vida. E depois a angĂşstia de agarrar meu primeiro livro no shopping, sem ao menos ter gostado de ler em toda a minha vida e o lendo ferozmente sem rumo nenhum horas depois. Agora Ă© tĂŁo claro toda a polinização que ocorreu, todas as faĂscas que reacenderam repetidas vezes e todos os adeus que foram dados. 5 anos atrás vocĂŞ nĂŁo encerrou um ciclo, apenas deu inicio a um hiatus em seu lado humano por completo. Deixou de querer, deixou de estar e deixou de ser. Se tornou inabalável porque lutar contra todo o mundo seria muito mais fácil do que lutar com suas memĂłrias. Acho que Ă© hora de vocĂŞ finalmente nĂŁo ter que encarar novamente um falso “adeus”, mas confessar a si que durante muito tempo enganou a si mesmo.