Parte 1 – Cláudio Teixeira
“Tentativa de ativação C-28064212 concluída com sucesso, sistema iniciado”
Essa frase se repetia nos alto-falantes do laboratório junto a uma luz verde piscando. Era como se eu estivesse acordando após uma noite agitada, minha cabeça estava latejando e eu não conseguia me lembrar no que diabos estava trabalhando. Abri os olhos com uma grande dificuldade e a luz piscando ajudou a minha confusão.
Olhei para o relógio na parede, eram 23hrs, provavelmente eu estava sozinho no laboratório, curiosamente estava sem minhas credenciais, fui até a porta e solicitei a abertura para a segurança, demorou um pouco, mas a porta se abriu inundando o laboratório com uma luz branca. Não conseguia me lembrar dos detalhes da instalação era como se tudo tivesse meio bagunçado na minha cabeça.
Segui pelo corredor ouvindo apenas o barulho dos meus pés ecoando pelo local, cheguei no final e vi pela janela o segurança.
– Dr. Cláudio, não sabia que o senhor já havia se recuperado, o senhor está de carro ou quer que peça para alguém o deixar em casa?
– Boa Noite Joaquim – recuperado? Nada estava fazendo sentido naquela noite – Estou sem carro, caso não seja muito incomodo agradeceria se me deixassem em casa.
– Acabei de solicitar Dr. se quiser esperar lá fora o carro já deve estar chegando.
– Muito Obrigado Joaquim, tenha uma boa noite.
– Igualmente Dr. até amanhã.
Sai daquele corredor branco para uma noite fria de neblina, nada está fazendo sentido, o que eu estava fazendo no laboratório, o que significava aquela frase e do que eu me recuperei? Cada vez que eu tentava me lembrar de algo recente minha cabeça doía como se fosse explodir. Enquanto estava tentando descobrir o que estava acontecendo o carro chegou e encostou ao meu lado. Sentei nos bancos de trás e como de costume nos carros da companhia havia uma parede separando o motorista do passageiro.
O vidro escuro me privou de uma vista durante o trajeto, fazendo com que eu ficasse apenas com meus pensamentos fragmentados, ainda nada estava se encaixando, tentei buscar a última lembrança antes de acordar, mas era como tudo tivesse sido revirado dentro da minha cabeça, eu tinha certezas, mas não conseguia dizer de onde elas vinham. Demorei uns 15 minutos para chegar em casa.
A neblina estava muito mais fraca naquela região da cidade, fui até a porta, procurei as chaves nos meus bolsos, mas não encontrei elas, bati na porta algumas vezes e ouvi os passos se aproximando e depois o barulho da chave destrancando.
Márcia abriu a porta, estava ligeiramente diferente da minha lembrança, seu cabelo estava mais comprido e no momento em que ela abriu a porta, ficou parada me olhando como se não estivesse acreditando no que estava vendo.
– Posso entrar? Está um pouco frio aqui fora – Ao me ouvir era como se ela tivesse saído de um transe.
– Claro meu amor, como você está, estava no laboratório? – Ela estava muito mais feliz do que o costume, tudo que podia deixar essa noite mais estranha estava acontecendo.
– Sim, estava no laboratório, mas não consigo me lembrar o que estava fazendo lá, ou o que tenho feito lá nos últimos dias, está tudo bem confuso na minha cabeça.
– Você só deve estar precisando de uma noite de sono, passou a semana inteira naquele laboratório.
– Mas não é somente isso, tudo parece estar diferente, até seu cabelo não lembrava dele assim.
– Venha, vamos para o quarto, que amanhã tudo estará mais claro.
Ela pegou a minha mão e segurou de uma maneira forte, me levando até a escada para ir para o quarto.
– Vou tomar um banho e depois vou deitar.
Estava indo até o banheiro e vi a porta do quarto de hóspedes um pouco aberta, tinha uma luz laranja dentro, e pude ver alguns esboços do que parecia ser um corpo e algumas notícias de jornal, quando fui entrar a Márcia puxou a porta fechando e trancando.
– Sem mais trabalho hoje, vá tomar o seu banho que eu te espero no quarto.
Com um beijo leve nos meus lábios ela se despediu e seguiu para o quarto.
Parte 2 – Dr. Márcia Teixeira
Estava sentada na minha mesa revisando as anotações, havia deixado o sistema de testes de iniciação rodando no laboratório. Fazia 3 dias que a sequência de testes haviam sido iniciadas e a cada dia que eu voltava para casa eu perdia um pouco mais a esperança de que aquilo realmente fosse funcionar. Estava mais uma vez olhando para minha foto com o Cláudio, era comum me perder nas memórias antes do acidente, lembranças de uma vida feliz, antes de perder a única pessoa que sempre acreditou em mim.Eu estava perdida nos pensamentos até ouvir alguém batendo na porta.
Desci até a porta, destranquei e no momento em que abri meu coração por alguns instantes, era o Cláudio, ou, pelo menos sua nova versão, os testes de alguma forma iniciaram o protótipo, uma felicidade ia crescendo no meu peito a cada instante que se passava com ele na minha frente.
– Posso entrar? Está um pouco frio aqui fora – Era como se fosse meu marido, falando comigo, estava perdida na perfeição da minha criação.
– Claro meu amor, como você está, estava no laboratório? – Precisava fingir que estava tudo correndo bem, amanhã terei a oportunidade de olhar seus sistemas no laboratório.
– Sim, estava no laboratório, mas não consigo me lembrar o que estava fazendo lá, ou o que tenho feito lá nos últimos dias, está tudo bem confuso na minha cabeça.
– Você só deve estar precisando de uma noite de sono, passou a semana inteira no laboratório. – Não conseguia acreditar, parecia um sonho distante ainda.
– Mas não é somente isso, tudo parece estar diferente, até seu cabelo não lembrava dele assim.
– Venha, vamos para o quarto, que amanhã tudo estará mais claro. - As memórias ainda não estão rodando da melhor maneira, preciso checar amanhã qual foi o último registro salvo e fazer algumas alterações
Peguei sua mão, era quente, não parecia ser a mão de um android, fiquei contente, havia tanto tempo que estava esperando por aquele toque, apertei levemente a sua mão e subi as escadas em direção ao quarto, mas ele parou quando terminamos de subir as escadas.
– Vou tomar um banho e depois vou deitar.
Ele seguiu em direção ao banheiro, vi que a porta do quarto de hóspedes estava levemente aberta, ele não podia entrar lá, os projetos ainda estavam espalhados pelas paredes, fui rapidamente atrás dele e puxei a porta antes que ele pudesse abrir.
– Sem mais trabalho hoje, vá tomar o seu banho que eu te espero no quarto.
Dei um leve beijo e fui para o quarto, após tanto tempo esperando por ele a noite, dessa vez ele finalmente estava aqui.
Ouvi o chuveiro se desligando após alguns minutos, já estava deitada, com a televisão desligada, quando olhei para o lado e reparei que não havia mais travesseiros no outro lado da cama, tirei um dos meus e coloquei ali, ouvi seus passos se aproximando do quarto, meu coração estava praticamente saltando do peito. Ele entrou trazendo junto uma leve luz do corredor, seus cabelos negros ainda estavam um pouco molhados e a luz ressaltava a sua silhueta trazendo uma sensualidade para o seu corpo, a única coisa que ele vestia era uma toalha amarrada na cintura. Ainda estava com aquela expressão de confusão no rosto, e evitava me olhar diretamente, foi até o armário, pendurou a toalha em um cabide ficando completamente nu por alguns instantes, até colocar seu pijama.
– Então, se sente um pouco melhor? – Perguntei quando ele se sentou na cama.
– Muita coisa ainda não faz sentido. – Ele se enfiou embaixo das cobertas e deitou no travesseiro me olhando.
– Você só deve estar cansado, amanhã tudo estará mais claro – Desliguei a luz do abajur e me deitei virada para ele, ficamos nos encarando por um bom tempo, não sei dizer exatamente a hora em que acabei adormecendo, só sei que eventualmente aconteceu.
Sonhei com o acidente e com tudo que se sucedeu depois, a recuperação, o coma do Cláudio, quando acordei eram 8 horas, eu podia jurar que estava sentindo o cheiro dos copos-de-leite que estavam sempre na cabeceira da cama no hospital. Olhei para o lado e o vi ali “dormindo”, havia trabalhado em programações para deixar o mais próximo possível a um organismo humano, ele não poderia desconfiar que era um android ou tudo estaria perdido, sua mente poderia se tornar distante, fazendo com que eu o perdesse novamente. Estava admirando ele quando o telefone começou a tocar, era Matheus, o meu chefe.
– Bom Dia Matheus, tudo certo?
– Bom Dia Márcia, as coisas não estão nada bem por aqui, por onde você andava, estou te ligando desde as 5 da manhã!
– Desculpe, estava dormindo, o que houve? Já estou indo ai! - Não seria uma boa ideia levar o Cláudio até o laboratório agora, precisava resolver o que estivesse acontecendo no laboratório.
Levantei bem devagar e fui até o lado do Cláudio, não seria seguro deixá-lo sozinho. Achei o local do seu plug de iniciação na parte de trás da sua nuca, só precisava pressionar aquele ponto por alguns instantes que ele iria se desligar por um tempo. Ouvi um pequeno barulho que indicava que tinha funcionado e fui colocar a roupa.
Enquanto eu me trocava um leve pavor tomou minha mente, eu estava ali como um android igual ao meu marido, largado na cama, exatamente como meu marido se encontrava em seu quarto no hospital, estava eu tão perdida na minha loucura que não achava tal situação estranha? Afastei esses pensamentos da mente peguei a chave do carro e segui até o laboratório, o dia estava bem agradável, a neblina da noite passada havia se dissipado e o sol brilhava num céu somente seu. Ainda sentia o cheiro dos copos-de-leite, era como se a lembrança do meu marido em coma tivesse decidido me assombrar hoje.
Parte 3 – Matheus Carvalho
Eram 4:30 quando o telefone começou a tocar, de primeira mão ignorei, mas o toque continuou me forçando a pegar o telefone.
– Espero que seja algo muito importante para você estar me ligando agora Paola – ainda estava um pouco difícil manter os olhos abertos ou prestar muita atenção no que eu estava ouvindo.
– Senhor, tivemos um incidente, no laboratório da Dr. Márcia.
– Que tipo de incidente? - Odiava quando as pessoas davam a notícias por partes, já não bastava ter interrompido meu sono, também iria me prender meia hora no telefone.
– Um carro entrou no laboratório, explodiu todo o servidor de dados do projeto senhor.
– Como assim um carro Paola? O laboratório da Dra. fica bem longe de qualquer entrada.
– Nós também não sabemos Sr, tentamos conferir as câmeras, mas os arquivos estão corrompidos.
– Okay, já estou indo até ai, mas já lhe deixo avisada, caso não tenha nada ai, você irá para casa mais cedo hoje.
Me levantei da cama, coloquei uma roupa rapidamente e abri as janelas, a neblina já havia se dissipado, mas ainda havia um pouco sob o lago que ficava ao lado da casa. Sai com o céu ainda escuro, o ar úmido estava carregado com o cheiro das flores que ficavam perto do lago.
Demorei alguns minutos para chegar ao laboratório, a falta de trânsito da madrugada me foi muito útil, Paola estava me esperando do lado de fora do laboratório, ela não teve o tempo para se arrumar, ainda estava de chinelo de pano, seus cabelos ruivos estavam levemente bagunçados, seus óculos vermelhos estavam levemente tortos e trazia um cigarro na mão trêmula.
– A quanto tempo está aqui Paola? – Perguntei saindo do carro após parar ele próximo à entrada.
– O Joaquim me ligou as 4hrs, vim o mais rápido que pude e assim que cheguei telefonei para o Sr.
– Vamos lá então, me mostre que diabos aconteceu! – Ela jogou o cigarro na rua e foi para dentro do laboratório.
– Bom dia Sr. Carvalho – Joaquim ainda estava no seu turno, me cumprimentou assim que botei o pé dentro do prédio.
– Bom dia Joaquim, antes de irmos até o laboratório poderia me informar o que diabos aconteceu?
– Estava tudo calmo Sr. perto da 00 o Dr. Cláudio deixou o laboratório, tudo seguiu em perfeito silêncio até por volta de 3:45 ouvi um barulhão vindo do laboratório, fui até lá ver e encontrei um carro bem no meio da parede com os computadores.
– Dr. Cláudio? Ele não está em coma? Você quer que eu acredite que um carro simplesmente apareceu no meio do laboratório?
– Também não sabia que o Dr. Cláudio já havia se recuperado Sr. e quanto ao carro, ele ainda está lá se não acredita na minha palavra.
Dei uma leve olhada para Paola, como eles podiam esperar que eu acreditasse nessa história absurda, estava a um ponto de mandá-los pra rua, mas primeiro queria conferir o laboratório e as filmagens da noite. A última vez que falei com a Dra. Márcia ela compartilhou sua falta de esperança sobre a melhora na saúde de seu marido e agora ele está andando por ai durante a noite?
Paola foi na frente, seguimos pelo corredor, o laboratório da Dra. era um dos últimos, ao chegar ela solicitou para que Joaquim abrisse a porta, no momento que ela foi aberta um pouco de poeira começou se espalhar pelo corredor.
– Venha ver com seus próprios olhos Sr. – Ela se afastou da porta, fui até lá e não acreditei no que estava vendo, havia realmente um carro dentro do laboratório, sem nenhum sinal de arrombamento, talvez fosse algum experimento da Dra? – Paola, quero que ligue imediatamente para a Dra. Márcia, talvez ela tenha uma explicação sobre o que aconteceu aqui, também quero checar as filmagens da noite, no momento aonde Joaquim viu o Dr. Cláudio.
– Tentei entrar em contato com a Dra. logo após ligar para o Sr, mas ela não atende, quanto as filmagens, estão corrompidas senhor, perdemos tudo dos últimos dias.
– É melhor que a Dra. Márcia tenha uma ótima explicação para isso.
Entrei na sala para averiguar melhor o carro, era um HB20 preto, identico ao que utilizamos na empresa, tinha até uma separação entre o motorista e os passageiros, porém estava sem placa e completamente vazio, a marca dos pneus começava no meio da sala e iam até a parede aonde o carro havia se chocado, a batida não aparentava ser muito forte, apenas o suficiente para estragar os computadores, quase como se fosse planejada para isso.
Voltei para o corredor para conferir se a Paola já havia conseguido entrar em contato com a Dra. Márcia, mas sem resultados, ela só foi atender o telefone perto das 8.
– Bom Dia Matheus, tudo certo? – Sua voz era de alguém que havia recém acordado.
– Bom Dia Márcia, as coisas não estão nada bem por aqui, por onde você andava, estou te ligando desde as 5 da manhã! – Me segurei para manter a educação, minha paciência havia se esgotado há muito tempo...
– Desculpe, estava dormindo, o que houve?
– Aconteceu algo no seu laboratório e eu gostaria que você tivesse algumas explicações!
Ela demorou cerca de 10 minutos para chegar, estava um pouco nervosa, mas nada que pudesse indicar que ela soubesse sobre a existência de um carro no seu laboratório.
– Bom dia Matheus, o que aconteceu? – Ela era uma das únicas pessoas dentro da empresa que não tinha o hábito de me chamar de senhor, ainda não sabia que tipo de sentimento isso me despertava, mas me chamava atenção.
– Tenho algumas perguntas para você, primeiramente seu marido saiu do coma? Joaquim afirmou ter visto ele ontem saindo das instalações. – Sua expressão mudou rapidamente, estava um pouco mais nervosa, parecia que eu havia cutucado em uma ferida.
– Até onde eu sei ele continua no Hospital, não teve muitas mudanças no seu quadro desde a última vez que nós falamos sobre isso, talvez o Joaquim tenha se confundido.
– Tenho certeza de que ele não se confundiu, até por que ele solicitou um carro até a sua casa para o Dr. Cláudio.
– Ninguém foi até a minha casa ontem Matheus, se duvida da minha palavra ligue para o hospital e vai ter sua confirmação, agora quanto ao meu laboratório, o que houve?
– Pode deixar que ligarei para o hospital Dra. quanto a seu laboratório esperava que você tivesse respostas para me dar e não mais perguntas, me siga.
Seguimos novamente o corredor até suas últimas portas, a poeira que havia na sala já estava praticamente toda no chão e a sala agora se iluminava pela luz do dia que entrava pelas janelas superiores e bem no meio da sala um HB20 preto sem placa.
– Como esse carro entrou aqui?
– Essa era a pergunta que eu esperava que você me respondesse.
– Eu não tenho a mínima ideia de como isso veio parar aqui.
– Se eu não me engano parte da sua pesquisa era estudar portais temporais, você não descobriu algo e está tentando esconder de nós não é mesmo Dra.?
– Meus avanços estão todos registrados Matheus, se não confia na minha palavra, não sei por que ainda me mantém aqui.
– Não estamos falando de confiança Márcia, tem um carro no meio do seu laboratório, um segurança que viu seu marido que supostamente está em coma saindo daqui meia-noite e todos arquivos do sistema de segurança estão corrompidos, eu tenho que saber o que houve dentro da minha própria empresa!
– E o motorista do carro, falou alguma coisa?
– Ainda não conseguimos descobrir quem estava no turno de ontem. Você tem até o final do dia para me explicar o que está acontecendo aqui, caso não faça está demitida.
– O que? Isso não é justo, estou tão surpresa quanto você, não se esqueça que antes de ser sua empresa, o que tinha naqueles servidores era o meu trabalho!
Ouvi suas últimas palavras saindo da sala, não estava com tempo para lidar com aquilo agora, precisava descobrir logo quem era o motorista, ele poderia me confirmar quem estava no laboratório ontem à noite.
– Joaquim, quero que ligue para o Hospital aonde o Dr. Cláudio está e me confirme se ele ainda está lá.
– Só um momento já efetuarei a ligação, chegou uma carta enquanto você estava no laboratório Sr. – Ele me passou um envelope por baixo do vidro e ligou para o hospital.
Peguei o envelope totalmente branco, abri com uma certa curiosidade, no topo estava escrito “Intimação Judicial”, meu corpo inteiro congelou por um momento, Joaquim começou a falar, mas eu só via sua boca se mexendo, até que aos poucos fui recobrando a consciência.
– O Dr. Cláudio segue internado Sr.
Não consegui responder, sai rapidamente do prédio entrei no meu carro e segui para casa, não era possível que eles descobriram, ninguém sabia além de mim, ninguém sabia.
Eu estava na janela de casa fumando, deveria quase meia-noite, quando um homem chegou em um carro preto que ficou parado na frente da casa, entrou na casa da minha vizinha, provavelmente deveria ser um conhecido, terminei meu cigarro e voltei para minha jogatina, devo ter ficado umas 2 à 3 horas jogando, quando fui fumar outro cigarro.
Pouco tempo depois que havia acendido o meu cigarro o carro preto que estava em frente à casa ligou seus faróis, fez um balão e sumiu na neblina resolvi ficar atento para ver o momento que ele chegava. Era 4 e pouco quando eu vi alguém chegando, estava na esperança que fosse o carro, mas era o mesmo homem que havia entrado no início da noite, achei estranho pois não vi ele saindo em nenhum momento da casa. Ele foi direto para o carro que estava na garagem, deu partida nele e saiu, a curiosidade me fez ficar atento novamente a rua para ver se ele voltaria.
Perto das 8 ele retornou, seu carro estava muito molhado, como se tivesse pegado alguma chuva ou muita neblina, ele estacionou o carro no mesmo lugar e depois entrou, pouco tempo depois a Dra. Márcia saiu sozinha, acredito que foi trabalhar, resolvi parar de observar os vizinhos e ir deitar um pouco.
Acordei por volta das 15hrs, a televisão estava ligada passando o noticiário, helicópteros estavam sobrevoando a casa de um homem, parecia ser alguém rico, pois tinha até uma pequena lagoa com várias flores próxima do lado da casa, não dei muita bola para notícia, levantei para me fazer o café, nesse momento ouvi um tiro, corri para a janela e vi o homem que estava na casa ao lado entrando no carro e saindo, liguei para a polícia rapidamente.
– Você ligou para a emergência, em que posso ajudar?
– Olá, acabei de ouvir um tiro na casa da minha vizinha e um homem que nunca tinha visto nas redondezas até ontem saiu do apartamento logo após o tiro.
– Pode me passar o nome da rua e o número da casa?
– Rua Júlio de Castilhos, o número não vou saber te informar com clareza, mas é uma casa laranja que fica ao lado da minha que é a 785.
– Enviaremos uma viatura assim que possível, muito obrigado pela sua ligação.
Se o fim do dia estava estranho, meus sonhos certamente se inspiraram nele em termos de bizarrice, no primeiro eu estava no carro que havia me trazido para casa, porém eu que estava dirigindo, após me deixar em casa eu lembro de ter ficado parado por algumas horas, até que finalmente eu liguei o carro e segui pela rua até chegar no que parecia ser uma espécie de portal que me levou até o laboratório onde eu estava. No segundo estava na frente de uma casa grande com um lago ao lado dela, dentro do lago havia 2 corpos, era como se eu controlasse a água e ordenasse para que ela removesse os corpos do fundo do lago até eles estarem flutuando no que parecia ser uma bola de água, eu abaixei eles até um arbusto de copos-de-leite que ficavam logo ao lado, eles ficaram levemente escondidos. Lembrava vagamente disso, o resto da noite era como se eu tivesse sido desligado, acordei as 15hrs, Márcia estava sentada do meu lado com a mão na minha cabeça, ela estava chorando.
– Me desculpe meu querido, não deveria ter feito o que eu fiz.
– O que você está falando meu bem? O que houve?
– Não posso te contar, eu não consigo, só peço que me desculpe, vá até a Rua Caique Siqueira, número 73, você vai encontrar alguém que pode lhe explicar tudo isso, eu não consigo mais lidar com isso, hoje de manhã achei que estava tudo bem, mas eu enlouqueci, o que eu tinha na cabeça?
– Calma meu amor, me conte, o que está acontecendo, sempre estivemos juntos e superamos tudo que vinha, vamos superar o que quer que esteja acontecendo.
– NÓS NUNCA ESTIVEMOS JUNTOS, VOCÊ NUNCA FOI ELE, NEM NUNCA SERÁ – Ele me encarava enquanto gritava isso, mas não eram gritos de raiva, era dor, ela levou sua mão até o meu rosto, as lágrimas escorriam pelo seu rosto – Eu não queria que isso tivesse acontecido, mas eu não posso seguir assim, encontre a Roberta, ela explicará tudo, me desculpe....
Após isso ela pegou uma arma que estava ao lado dela na cama e atirou em si mesma.
“A mulher e a filha de Matheus Carvalho estavam desaparecidas a 6 meses, a polícia estava a sua procura desde então, mas esta manhã a polícia descobriu através de uma denúncia anônima que o corpo de ambas estava no lago ao lado da casa do empresário, ele teria sido o responsável pela morte de ambas e forjado um sequestro. Matheus foi preso essa manhã na frente de sua casa”
Estava lavando a louça e vendo o noticiário quando a campainha tocou, sequei minhas mãos e fui até a porta, quando abri tive um breve susto, era o Cláudio, marido da minha antiga colega de trabalho.
– Cláudio, como você está? Não sabia que havia se recuperado do acidente.
– Eu não me recuperei, ou melhor dizendo, eu não sou o Cláudio.
– O que você está falando?
– Posso entrar? Não é um assunto que devemos discutir na soleira da sua porta.
O guiei até a sala, estava achando muito estranho, a última vez que tive contato com a Márcia ela havia me informado que seu marido estava em coma e agora ele aparece na minha porta, mas diz não ser ele.
– Vim aqui por causa da Márcia, ela disse que você poderia me explicar o que eu sou.
– Espera um pouco, você, você é ……
Não era possível, nós trabalhamos anos para tentar desenvolver um android que fosse funcional e que tivesse a aparência humana, mas quando eu sai do projeto estávamos longe de consegui resolver o problema relacionado a mente do android, será que ela usou as memórias de seu antigo marido?
– Me dê o seu braço por favor – ele ergueu o braço até a cintura, peguei sua mão, era tão real, tão quente, não se assemelhava nada a um android, mas após um tempo analisando encontrei uma espécie de “ranhura”, segurei a ponta bem firme e levantei removendo toda a pele do antebraço dele e revelando uma estrutura metálica muito similar a um braço.
– Eu....eu.....eu...sou um robô?
– Não, se ela finalizou nosso trabalho, você é uma entidade de 5 Dimensões, mas existindo em um corpo de 4.
– Mas, mas por que eu tenho todas essas lembranças?
– Elas foram implantadas em você por ela, o verdadeiro Cláudio está em coma a 3 anos.
– Como eu devo saber quem eu realmente sou se me fizeram ser outra pessoa?
– Provavelmente ela deve ter colocado uma trava para que seu sistema fique ligado ao código da memória, somente deixando esse corpo você pode compreender quem realmente é, afinal sua existência se dá em 5 dimensões e não em 4.
– Você sabe já sabe a resposta para isso, da mesma forma que já sabia que essa conversa aconteceria, mas talvez não agora. Imagine um ser que controle o espaço-tempo, que controle a realidade, ele não teria as imposições do tempo, não estaria fadado a uma morte como nós humanos, sua existência simplesmente acontece, quando e onde você quiser.