“Eu quase que nĂŁo vim. Mas toda vez Ă© a mesma coisa e quando vejo já estou dentro do elevador, prestando atenção na luzinha vermelha trocando de andar. Depois eu fico me perguntando do porquĂŞ de vir, mas eu tambĂ©m faria o mesmo, me perguntaria, por que diabos eu nĂŁo fui? Vou atĂ© a cozinha e ponho a chaleira no fogo. Deixei uma caixinha de Royal sabor hortelĂŁ por aqui e nĂŁo estou achando em nenhum armário. AlguĂ©m tomou meu chá. Ele nĂŁo toma chá. Pergunto quem esteve aqui tomando do meu chá e ele nĂŁo responde. Ele nĂŁo tem nada a dizer sobre isso. Pergunto como pode uma caixinha de chá evaporar e ele nĂŁo diz nada. SĂł que estou exagerando. Já estou arrependida. “Depois eu te dou os cinco tostões do maldito chá, gata”, ele diz e eu o mando enfiar os trocados dele no prĂłprio rabo. NĂŁo falo mais nada, nĂŁo tem nada a ver com chá e ele sabe disso. É sobre as outras que vĂŞm aqui. Ele acha que eu sou boba e nĂŁo sinto o cheiro de vaca nos lençois. “EntĂŁo, vocĂŞ veio aqui pra comer e tomar chá ou o quĂŞ?”. Na lĂngua dele, “ou o quê” quer dizer ir para o quarto. Digo a ele que nĂŁo sou uma boneca inflável e ele me responde com um risinho irĂ´nico e sacana de “tá bom”. Algumas vezes me pego fantasiando que esse Ă© o jeito dele de mostrar que gosta de mim. Rude, corrosivo, fulminante. Tenho pra mim que todas essas historinhas que ele administra muito bem nĂŁo passam de uma fuga. No fundo ele precisa que uma garota de coração bom passe suas camisas e dĂŞ um jeito nessa cara de menino sujinho. Um dia ele se toca, e eu quero estar aqui pra ver. Por isso nĂŁo perco uma de vir. Ele me leva atĂ© o quarto pela mĂŁo, todo meloso e simpático e convincente. Eu sou maleável como a água e nunca consigo manter meu pĂ© firme do chĂŁo. A cama, mais revirada do que eu, nĂŁo me consola. Está fedendo a suor, cigarro, vinho choco, porra velha e perfume barato. Pra ele está tudo bem, talvez ele precise consultar um otorrinolaringologista, está na cara que ele está com algum problema de olfato. Ou Ă© sĂł caradura mesmo. A segunda hipĂłtese nĂŁo tem tratamento. Ele adora minha barriga, tem verdadeiro fascĂnio pelo meu umbigo. Ele vai descendo. Terminou, ele se sente mais aliviado e feliz por ter gozado num lugar estranho, onde possa vangloriar aos amigos depois e comparar com os vĂdeos obscenos que eles acessam. Eu nem aproveitei nada, nĂŁo porque nĂŁo deu tempo, mas porque nĂŁo parei de pensar na outra coisa. No chá, nas outras, no corte de cabelo que eu ia sugerir se ele me desse voz de namorada. Ele fica um tempo olhando para o teto, admirado. “NĂŁo sei atĂ© que ponto vale a pena me debruçar na sua cama, alisar seus cabelos e esperar vocĂŞ sair desse coma sentimental”, eu penso. AĂ ele levanta no pulo, se apruma pra tomar uma ducha e nem me convida pra ir junto. NĂŁo estou me sentindo legal. NĂŁo Ă© uma questĂŁo de puritanismo, Ă© mais uma questĂŁo de negociação. Eu adoro sexo, como adoro dinheiro, mas se eu fosse rica detestaria sentir as pessoas se aproximando de mim sĂł por causa disso. Enquanto ele canta no chuveiro, eu fico contando nos dedos as vantagens que estou levando. NĂŁo consigo nada. Estou cheia de dedos. O idiota sai do banho colocando a camisa pra dentro das calças. Diz que tem uma formatura e esqueceu de me dizer. “VocĂŞ achou o quĂŞ, que a gente ficaria o resto da noite agarradinhos como namorados? Achei que vocĂŞ estivesse de acordo que isso nĂŁo Ă© bem a nossa cara”. Isso. Me lambe, me prova, me abocanha. Me mastiga, regurgita e aĂ me cospe. E ainda tem coragem de arrotar na minha cara. Aparentemente, Ă© assim que se faz. Mentimos quando queremos muito uma coisa. Mentimos quando nĂŁo queremos mais uma coisa. Mas tudo bem, a vida Ă© minha, eu deixo ele fazer o que quiser com ela. E pensar que tudo que eu queria era te levar para um passeio, quem sabe um beijo pisando na lua. Mas será meio impossĂvel, se vocĂŞ nĂŁo aceitar. Ele diz que está atrasado sem escutar meus muxoxos. Cada um faz o seu preço, e o meu foi uma carona idiota de volta pra casa. É menos do que ganha uma puta. Ele economizou um bom dinheiro hoje. Quando vocĂŞ fez tudo o que foi preciso e ainda assim nĂŁo foi o bastante, Ă© isso que eu chamo de impossĂvel. NĂŁo adianta, Ă© sĂł teimosia, nosso amor sĂł funciona na horizontal. Digo a ele que nĂŁo preciso de carona merda nenhuma e vou andando atĂ© em casa. Eu preciso pensar. Na verdade, eu preciso nĂŁo pensar. Tenho medo de descobrir coisas que nĂŁo quero. E nĂŁo dá outra, no trajeto eu me dou conta que eu sou sim uma garota inflável. Sempre quando eu acabo vindo, no dia seguinte eu me sinto flácida, murcha, vazia, embrulhada e guardada numa gaveta.