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A primeira coisa que sentiu ao acordar foi dor. Uma dor horrível em seu coração. Até ele mexer seu corpo e o mesmo reviver as sensações anteriores em uma vividez que fez lágrimas escorrerem dos olhos, agora decorados em sua volta com hematomas e sangue. Piscou várias vezes tentando se acostumar com a sensação da claridade refletindo em suas orbes, mas foi difícil até que tudo estivesse completamente assimilado. O que estava fazendo ali? O que tinha feito para ficar daquele jeito? Não foi difícil achar respostas para suas perguntas, mas aceitá-las era uma guerra perdida. Encontrar o patriarca da família Choi sempre foi um de seus piores medos, aquele homem deveria odiá-lo desde o seu fio de cabelo até a ponta de seus dedos. Não tocava muito naquele assunto quando estava com Taeoh, mas sabia o quanto ele era nocivo ao próprio filho, o que regava seus anseios sobre o que aconteceria consigo uma vez que estivesse de frente ao poderoso advogado. Ah, como ele desejava que tivessem um final feliz apesar de tudo. Mas até mesmo essa fantasia idealizada parecia distante naquele momento. Já haviam se passado três dias, tiveram uma de suas raras e horríveis brigas e tudo indicava que enquanto os dois permanecessem com a cabeça levantada pelo orgulho, aquilo não se resolveria tão rápido. Quando voltava para pensar no motivo daquele alvoroço, era tudo por suas individualidades de pensamento, nada mais. Uma futilidade daquelas podia causar um estrago tão grande assim? Makoto passou longe da sala de música aquele dia, mas não conseguiu evitar quando foi encurralado por Choi Minjun. Queria ter fugido, mas não conseguiu dar um passo para trás. Não quando eles tinham olhos tão parecidos e tão intensos, que foram a sua ruína. A diferença foi sentida em sua pele, que a cada golpe que recebia do Choi mais velho, deixava mais claro que não havia mais como ajudar aquela alma. O homem era pura malícia e ódio, nada mais. A cada palavra dita, desde as mais provocantes até as mais cruéis, seu coração falhava uma batida. Por anos e anos, ele ouviu aquilo e nunca acreditou naqueles rótulos. Porém, tudo agora parecia fazer sentido, tudo parecia combinar consigo, não havia mais nada de bonito ou brilhante naquele ser. As ameaças? Faziam sua espinha gelar e deixar seu cérebro em estado de alerta, mas ele não tinha para onde correr. Estava completamente indefeso, era uma presa qualquer que morreria nas mãos do caçador mais próximo. Os únicos sons ouvidos por parte do japonês foram seus gemidos de dor e suspiros de desespero, suas mãos e seus pés não reagiram e nem tentaram defender o resto de seu corpo. Algo em sua mente dizia que ele merecia aquilo, e sem contestar, Makoto aceitou. Aceitou todo aquele ódio contra a sua pele, seu coração e sua alma sem dizer uma única palavra. Ele não era normal, ele sequer era alguém, e aquela era sua punição. Por ter nascido daquele jeito, indesejado e hediondo. Mais gemidos de dor foram ouvidos enquanto o rapaz tentava ao menos sentar e lembrar que estava em um beco qualquer, avistou suas coisas jogadas por todos os lados daquele pequeno espaço e arrastou-se vagarosamente até cada uma delas, mordendo o lábio e ignorando o choro que suplicava para sair em resposta a toda a dor que ele suportava naquele momento. Quando alcançou seu celular, digitou uma combinação de números tão rapidamente, mas em vão. O nome de contato de Taeoh brilhava em sua tela, em meio as rachaduras recentes ali criadas. Ele não poderia saber. Ele nunca saberia. Não existia mais um "nós" naquela história. Apagou o número, mas antes que pudesse digitar o de Kei, recebeu uma mensagem de seu pai. E seu peito apertou, seus olhos arderam e seu ar escapou, assim como as lágrimas que finalmente começavam a escorrer pelo rosto machucado. "Eu voltarei o Japão. Precisamos conversar."
Suas costas escorregaram pela parede fria do box, sentando-se abaixo da água que o chuveiro despejava sobre si. Eram informações demais para se processar, dor demais para sentir, muito pouco tempo para agir. Seu pai havia perdido o emprego, precisava voltar a morar ao Japão e tinha um prazo curto para ir embora. Shin também fora uma vítima, o que seu filho jamais esperava que aconteceria. Não pensava que aquele homem poderia ser tão baixo quanto estava sendo agora, mas ali estavam eles, uma família despedaçada e sem rumo certo. Kei havia ajudado o menino a chegar em casa, mas havia saído com o pai do amigo para que pudessem comprar remédios. Ambos ficaram relutantes em deixar Makoto sozinho naquele momento, mas o que mais eles poderiam fazer? Ela estava chocada com a realidade que estava presenciando, mas não era como se fosse muito diferente para os outros dois. Nunca esperaram que alguém seria tão cruel para chegar naquele ponto. Encolheu-se naquele pequeno espaço, sentindo cada um dos cortes e escoriações queimarem ao entrarem em contato com a água. Ele não estava com a menor vontade de tomar banho, mas era necessário para que pelo menos seus machucados ficassem limpos. O líquido antes transparente, adquiria uma cor rosada e não cumpria sua missão de limpeza. A cada minuto que se passava, ele se sentia mais sujo, se sentia mais sufocado, não era só os machucados que ardiam, havia um nó em sua garganta e seus olhos estavam inchados e cansados de tanto derramarem lágrimas. Agora que estava completamente lúcido, as memórias não pareciam deixá-lo em paz, essa dor era a mais agoniante de todas. Não tinha mais a pessoa que amava, não tinha certeza sobre seu futuro, nada parecia fazer sentido. "Sujo" Levantou a cabeça, procurando pela voz que havia dito aquilo. "Imoral" Olhou para o outro lado, deparando-se com outra parede igual as que o cercavam. "Volte para aquela merda de lugar" "Você não devia existir" As mãos foram até a cabeça, apertando os fios de cabelo numa tentativa de fazer com que aquela voz tornasse um silêncio eterno. Quanto mais desejava pela calmaria, mais ela se distanciava. Aquelas e muitas outras palavras rondavam sua mente em uma velocidade inimaginável, memórias, culpas, medos, erros... Tudo girava e girava, na esperança de que a felicidade e o brilho daquele garoto fossem engolidos sem dó. "Sua mãe preferiu morrer do que ter um filho como você" "Seu pai te abandonou e esqueceu de te contar?" "Não basta ser um deles, ainda tem que gostar de homens. Que vergonha." "Não chegue perto do meu filho." "Ei, é ele! Vamos ensinar a ele o caminho de volta para o lixo que ele chama de casa." "Se você voltar, eu vou matar você, ouviu?" — ME DEIXEM EM PAZ! — O grito não foi ouvido por ninguém. O choro alto e desesperado que veio em seguida ficou trancado em sua garganta por muitos anos. Na verdade, não passava de um fraco. Ele realmente merecia morrer, não tinha duvidas disso. Se não fosse por sua causa, nada de ruim teria acontecido aos seus pais, nada teria acontecido de ruim aos seus amigos e Taeoh poderia estar com alguém que Minjun não teria nojo e não precisaria espancar e ameaçar para que ficasse longe de seu filho. Soluçava como nunca antes, o choro acompanhado de sons que não sabia como identificar, mas que deixavam explícito que estava em seu limite. As unhas cravaram em seus próprios braços, onde numa tentativa desesperadora de tirar aquela sensação de seu corpo, arranhavam a pele e abriam mais e mais feridas. Não sentia o quão destrutivo estava sendo consigo mesmo, sua mente não conseguia focar naquilo. Só queria que aquele pesadelo acabasse. Queria Taeoh de volta. Queria sua mãe de volta. Queria sua vida normal de volta. Naquela noite, estavam vinte e seis graus na sala de estar, mas Makoto preferiu ficar com sua camisa de mangas longas.
Ao longo daquela semana, ajudou seu pai a empacotar suas coisas e ouviu muitas palavras de preocupação de Shin, mas não deu conta de responder uma grande maioria delas. No fundo, sentia-se aliviado de que seu pai estava fora de risco das ameaças do Choi, mas sabia que ele não podia seguir o mesmo caminho do patriarca. Ele tinha montado sua vida na Coreia, não era fácil simplesmente abandonar uma faculdade e tantas pessoas e viver uma vida totalmente diferente. Iria ao Japão por um tempo, mas ainda não tinha forças para decidir o que fazer. Estava tentando processar o fato de que finalmente estava colocando os pés novamente em Kyoto, mas não sabia se teria coragem de se aproximar do cemitério onde a matriarca da família repousava e nem de encarar seus avós, os quais também não via desde os seus quatorze anos. Céus, a vida era muito injusta e suas opções naquele momento eram as piores que poderia imaginar. Nesse meio tempo, foram várias as vezes em que se deparou abrindo suas conversas com Taeoh, escrevendo mensagens que nunca eram enviadas e fazendo ligações que nunca foram completadas. Não sabia se tinha um errado naquela história toda, mas não tinha mais coragem de pedir desculpas como teve nas outras vezes. Esperava que ele estivesse comendo direito, que não esquecesse seu casaco no cabide torto atrás de sua porta e que estivesse pensando em si na mesma frequência que ele estava fazendo. Tudo era bonito entre eles, mas talvez não fosse feito para terminar daquele jeito também. Pensou também em falar com Taemi, mas ela não merecia estar envolvida naquela bagunça, ela tinha seus problemas e também, agora não passavam de meros conhecidos. Por ter sonhado tantas vezes em um futuro com Taeoh, agora era difícil imaginar um em que ele não estivesse lá.
Antes de ir embora, no entanto, o japonês precisou fazer seu caminho até aquele lugar. Havia acabado de sair do apartamento que dividia com Minhwan, após explicar toda a situação e avisar de sua ausência por alguns dias, e agora caminhava lentamente até a universidade. Seu tornozelo doía, por vezes ele parecia até mancar um pouco, mas se preocuparia quando o estrago definitivo estivesse feito. Seu corpo inteiro relembrava a dor daquele dia e das ameaças, mas nada parecia parar o rapaz de cumprir seu objetivo. Dependendo do que escolhesse, nunca mais veria Taeoh. Sua última lembrança dele era uma que ele não gostaria de guardar, então preferiu criar uma última, sem que ele notasse e que fosse o suficiente para que o coreano deixasse uma marca ainda maior em sua vida.
Usava um capuz e uma máscara, que o deixavam praticamente invisível. Ninguém reconheceria Makoto daquele jeito, andava curvado demais, de um jeito triste e cansado que não era característico do que todos conheciam. O caminho até o prédio dos clubes foi rápido, assim como o para a sala de música. Discretamente, ele olhou lá para dentro. Seu coração se aqueceu, ao mesmo tempo que parecia estar quebrando de um jeito extremamente doloroso. Ele estava ali, tocando piano. Como sempre fazia, como se nada tivesse acontecido. E ao mesmo tempo que aquela imagem machucava sua devoção ao músico, estava grato. Ficava feliz que o mais velho poderia superar sua ausência com tanta facilidade. Que ele ainda não fazia ideia, que tudo o que havia acontecido era uma mera briga entre os dois e nada mais. As notas do instrumento foram apreciadas silenciosamente por Makoto, enquanto observava uma última vez aquele que amava e queria seu bem. Se estivesse indo embora para sempre, não era por causa de seu pai, era por querer o bem de Taeoh. Poderiam ser almas gêmeas, mas não aguentava mais ver alguém se machucar por sua causa. Mesmo que talvez tivesse sido um dos piores erros na vida alheia, ah, como ele queria que o tempo voltasse. As memórias perdidas que talvez nunca encontrassem um momento de repetição, as juras de amor que se quebraram e perderam-se no meio do caminho... Sentiria falta de tudo isso, assim como da pessoa que dividiu tudo isso consigo. Os pensamentos não ficaram em sua cabeça, saindo discretos e em forma de sussurro, enquanto um sorriso curto surgia e os olhos lacrimejavam. — Eu prefiro que você continue assim, sem o conhecimento de tudo o que aconteceu. Assim, a culpa vai ser toda minha e não vai ser diferente do comum. É bom te ver assim, do mesmo jeito que estava quando eu me apaixonei por você, Tae-kun. Eu sentirei sua falta, mas... Não venha atrás de mim, nunca... — Respirou fundo e deu as costas para aquele que fazia seus dias felizes e que ele não vivia sem, seguro de que tudo estava em seu devido lugar. — Adeus, Choi Taeoh...












