Existem muitas formas de se relacionar com a palavra “Mato”, o mato é também mata, aquilo que nasce dessa força de vida que independe do cultivo humano. O mato muitas vezes é também a erva daninha, aquela planta que nasce sozinha e se espalha fácil. Lembro que certa vez, uma senhora amiga dos meus pais me disse que gostava do seu jardim selvagem, livre de paisagismos.
Contudo foi durante a leitura do “teoria da literatura: uma introdução” do Terry Eagleton, que me deparei com o seguinte trecho: “ [...] John M.Ellis argumentou que a palavra ‘ Literatura’ funciona como a palavra ‘ Mato’ : o mato não é um tipo específico de planta, mas qualquer planta que por alguma razão ou outra, o jardineiro não quer no seu jardim [...] como os filósofos diriam ´Literatura’ e ‘Mato’ são termos antes funcionais do que ontológicos: fala, do que fazemos, não do estado fixo das coisas.” Mesmo que no texto o autor trouxe essa citação para falar que a literatura é uma construção, onde um determinado grupo irá considerar o que é ou não literatura. Esse trecho me faz pensar muito em como, assim como o Mato, muitas vezes é a planta indesejada num projeto de ‘ jardim do Éden’, existe um embate entre o que o jardineiro quer no seu jardim, e o que de fato está nascendo naquela terra. O mato é uma resistência, assim como existe e sempre existiu uma literatura, uma arte, uma cultura, e muitas vozes e corpos, que desagradavam os jardineiros em seu projeto de civilização. O mato que cresce no corpo feminino é também arrancado para que ele se torne belo. As palavras-mato são arrancadas dos arquivos na tentativa de apagar a luta que as escreveu. O mato é visto pelo jardineiro que o arranca como sendo não planta, não pertencente ao seu jardim, lhe é negado o seu espaço, lhe é negado os direitos de viver e se desenvolver, enquanto as flores escolhidas são regadas e adubadas o mato é arrancado, enquanto elas tem nome o mato é mato.
Mas o mato é mata como eu já disse antes. o mato é uma expressão de resistência. É a força da vida. Se a relação com a palavra “ Mato” fala mais sobre o que estamos fazendo, do que o estado fixo das coisas, eu me pergunto o que é isso que ainda estamos fazendo, ao continuar arrancando tudo do caminho e chamando de mato? qual é esse projeto de mundo- jardim? quem são os jardineiros? Será que nele nós também não somos mato?
O que resta ao ser mato, é sua potencia de resistir!