clarissa:
a pergunta da amiga sobre as motivações que levaram clarissa a isolar-se fizeram com que a loira comprimisse rapidamente os lábios em uma linha reta. não era como se estivesse surpresa com a questão, afinal, a princípio a visita de margaret era justamente porque os astley já tinham esgotado recursos para conseguir entender o que se passava na mente tempestuosa da caçula. mas mesmo aquela sendo uma conversa com meg, possivelmente a pessoa que ela mais confiava no mundo, clarissa não sabia como começar a explicar. não sem afundar-se na própria vergonha de admitir o que havia feito no baile, ou como tudo aquilo a afetou, de uma forma que mal ela havia conseguido prever. enquanto pensava em tudo isso, notou que seu silêncio havia se perpetuado por mais tempo do que ela planejou, o que fora bom, pois lhe garantiu mais tempo de pensar enquanto aproveitava para escutar a descrição da amiga sobre a noite que tivera. sorrir com o sorriso dela era praticamente natural para clary, que por um momento pode esquecer-se de tudo o que assombrava sua mente no momento e desfrutar da paz que margaret carregava em conjunto com aquelas palavras. as duas nunca haviam sido o tipo de pessoas que compartilhavam planos sobre encontrar uma alma gêmea ou tricotavam falando sobre detalhes do casamento dos sonhos, de forma que o assunto homens era algo que quase nunca estava em pauta para a dupla — a menos quando tiravam algumas horas para criticar os homens da sociedade londrina. mas ainda assim, aquilo estava longe de ser uma novidade ruim. como poderia, quando clarissa acompanhava de tão perto a forma como os olhos da mais nova brilhavam ao detalhar aquele primeiro encontro não desastroso que havia tido na temporada?! qualquer coisa que a deixasse daquela forma era algo que valia a pena ser ouvido. “ele pediu indicações de livros?! meu deus… margaret, você sabe o que isso quer dizer? ele deve ter um cérebro!” o comentário foi feito com um teatral olhar de espanto, sendo acompanhado por um sorrisinho de canto típico das brincadeiras que as duas faziam sobre aquele assunto. “ah, é claro que isso ia acontecer. um homem sempre tem que estragar tudo, até mesmo quando ele não tem nada a ver com o assunto.” murmurou, ao final, com um rolar de olhos que se deu em conjunto com uma risadinha. “mas falando sério agora, meg, eu fico muito feliz por você! que bom que conseguiu achar pelo menos uma pessoa que valha a pena a conversa nessa temporada. nem tudo está perdido, não é?” aproveitou das posições para lhe cutucar levemente com o cotovelo. “ele não é nem maluco de esquecer de você, margaret howard! tenho certeza que ele está contando os minutos para essas duas semanas restantes chegarem ao fim para ele poder te ver novamente. e você vai me contar tudo quando isso acontecer, hein?! não se esqueça de separar algumas perguntas sobre os livros, só para se certificar de que ele leu mesmo.” acabou por rir novamente, não duvidando que o dito cujo fosse capaz de mentir sobre as leituras apenas para impressionar a melhor amiga de clarissa. “de qualquer forma, estarei esperando pelos próximos capítulos dessa sua novela aí.” murmurou, por fim.
dali, sabia que não teria mais muita escapatória para com os rumos daquela conversa, afinal, único assunto iniciado ainda pendente era o que ela havia deixado de falar. desviando o olhar do rosto da howard para encarar os próprios dedos, que cutucavam insistentemente as bordas da fronha de um de seus travesseiros, clarissa começou a falar: “depois que eu fui até o nick no baile, a gente roubou uma garrafa de vinho da mesa para dividirmos na biblioteca. porque, sabe, era uma biblioteca enorme e incrível. mas além disso, a última coisa que eu precisava era da whistledown comentando sobre a minha bebedeira, então, achei melhor beber escondida.” riu baixinho de si mesma, apesar do humor não ter se perpetuado por muito mais tempo. “e pra ser totalmente sincera, eu não me lembro de todos os detalhes da conversa, mas eu lembro de ter ficado irritada com alguma coisa que o nicholas falou. possivelmente alguma daquelas brincadeirinhas que ele vive fazendo sobre romeu e julieta, e sobre podermos nos casar se nada der certo e… tudo isso.” suspirou, negando rapidamente com a cabeça para si mesma. “e aí eu simplesmente explodi, meg. explodi e falei tudo o que eu engoli em seco nos últimos cinco anos, sobre todos os sentimentos que eu nutria por ele durante a faculdade e sobre como era doloroso ficar escutando ele fazendo piada sobre essas coisas. despejei em cima dele tudo e eu…” espiou-a pelo canto dos olhos rapidamente. “eu o beijei.” o tom de voz chegou até a diminuir para aquela revelação final, antes de clarissa suspirar novamente, de forma mais exasperada. “eu sou tão idiota, meg. tão idiota! eu estraguei tudo. peguei nossa amizade e simplesmente joguei no lixo por causa de uns sentimentos ainda mais idiotas do que eu!”
analisou a expressão no semblante da melhor amiga com atenção, semicerrando os olhos azuis ao perceber que realmente existia mais ali do que imaginava sobre a situação. entretanto, dava-lhe o completo direito de somente se abrir sobre a questão que a afligia quando se sentisse com a vontade para tal, já que seu último desejo era deixá-la desconfortável de alguma maneira. sua amizade era sincera e compreensiva, e não somente gostava de pensar como sabia que a outra retribuiria da mesma forma se estivessem em posições contrárias. assim, apenas esticou a mão e apertou a alheia com carinho, para deixar ainda mais claro que estaria ali quando a astley não sentisse mais a necessidade de guardar para si o misterioso ocorrido. concentrou-se, então, nas expressões e comentários alheios que decorriam da própria história sobre a noite do baile, vindo rapidamente um tom avermelhado para suas bochechas devido à vergonha que sentia ao falar e ser sincera sobre assuntos como aquele. céus, deveria ser a primeira vez que discutia sobre um assunto como aquele em um considerável tempo, e com a mais absoluta certeza já estaria a um passo de se afundar no colchão se não fosse clarissa bem em sua frente. a menção dela quanto ao cavalheiro misterioso possuir um cérebro arrancou uma gargalhada praticamente instantânea de margaret, que precisou até mesmo cobrir a boca para abafar o som. “pelo amor de deus. já estava desconfiada que eles eram humanamente incapazes de ler qualquer coisa que não fosse aquelas porcarias de livros sobre colheitas, ou catálogos de corridas de cavalo.” se era algo muito específico? provavelmente, mas era justo pelo trauma de meg ao sentir quase de forma instantânea um arrependimento ao perguntar para tais homens se gostavam de ler. “pois é! eu juro que poderia estapear aquele lá por estragar a minha noite. ou um pedacinho, ao menos.” suspirou, fazendo uma nota mental de questionar o dito-cujo-misterioso sobre o amigo tão desesperado para tirá-lo dali. “poderia criar uma paranoia de que ele combinou um sinal com o amigo pra tirar ele dali quando estivesse insuportável a minha companhia, mas um homem não deve ser capaz de elaborar planos assim.” resmungou. “realmente espero que você esteja certa, porque iria me sentir uma idiota aparecendo lá para ficar plantada. se já não gosto de chá de cadeira, chá de banco de parque após ser esquecida vai ser pior.” se deu o direito de dramatizar a situação, soltando um suspiro dramático e enrolando a mecha loira que escapara de seu penteado com o indicador. “vou fazer uma listinha inteira para ele, você vai se sentir orgulhosa! ai, como eu queria saber ao menos o primeiro nome dele. deveria ter dito para pararmos com a idiotice da máscara enquanto tinha tempo, sabe como odeio ficar curiosa assim.”
percebendo as reações seguintes da loira, novamente a howard se encontrava a observando no máximo de sua atenção, tentando de alguma forma ler o que se passava em sua mente. quando percebeu que teria sua curiosidade atendida e enfim descobriria o que raios acontecia com clary naquele momento, assentiu com um gesto de cabeça para indicar que estava escutando; não se contendo ao arquear as sobrancelhas ao escutar o nome do amigo dela, considerando como um todo o contexto da situação narrada. estava praticamente em uma repetição interna de ‘oh, meu deus’ e ‘ah não...” conforme a melhor amiga contava sua história, até o instante em que ouviu as palavras mágicas saindo da boca dela: “é o quê?!” exclamou, um tanto incrédula, não sabendo afirmar se era com a coragem da amiga ou em como estava se sentindo culpada por tudo aquilo que acontecera. ah, não. iria cometer um crime ali mesmo. “deixa eu recapitular rapidinho: na parte em que você desabafou de uma vez com ele, eu realmente vejo como algo certo. ele simplesmente agir como se aquelas brincadeiras fossem aceitáveis... nunca gostei disso, de verdade, só não te falei porque não queria te incomodar com minhas ideias. mas, você estava completamente certa em dar esse choque de realidade, porque era completamente sem noção da parte dele. demais. tem que ter um pouco de noção, sabe.” deixou bem claro logo de começo, já que estava longe de si a vontade de bancar a advogada do diabo. admitia de todas as formas que era parcial com clarissa, e sempre seria, independente da situação. “como ele reagiu sobre isso?” questionou, logo atalhando: “e sobre o... beijo?” diminuiu seu tom de voz durante a fala, somente para o caso de alguém estar passando pelo corredor. “clarissa! foi o seu tempo de ficar se chamando de idiota, porque eu vou pessoalmente te dar um belo de um safanão se falar assim da minha melhor amiga. e vou dar um no nicholas também, só por ser extremamente sem noção e burro. ugh, nem sei o que passa na cabeça dele.” a garota bufou. “eu realmente não poderia ter menos ideia de como te dar conselhos sobre... bom, sobre qualquer questão romântica, considerando que vivo dos meus livros, mas... é melhor ter falado do que continuar engasgada com isso, de qualquer forma seria um tipo, hm, de empecilho na amizade de vocês. chegaram a conversar sobre isso?”












