Body comparative #22 (1,2)
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Janaina Medeiros
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Eu vi estrelas no céu, mãe, eu comi estrelas e agora elas brilham em mim, eu estou chorando porque quero voar mas não consigo, o céu, mãe, eu quero morar no céu onde ninguém machuca meus braços e as minhas mãos não são esmagadas; aqui eles apertam a minha voz, aqui eles chutam meus sonhos para a vala, aqui eles querem me ver preso à dor. Eu não aguento, o paraíso é muito distante daqui? Porque se der, eu vou a pé, eu vou com os pés no chão contando os minutos para que eu veja tudo indo embora: você, meus amigos infelizes, meus professores angustiados, a população morrida, mãe, as guerras na Síria me afetam, há poetas perdendo seus dedos pra guerra e a gente só pode pedir para o infinito os guardarem, e a seca dos interiores consomem meu cérebro, a gente pode levar água mãe, a gente pode salvá-los, diz que sim, eu não aguento esse mundo, estão pisando nos meus ombros, eu não suporto o peso da roda-gigante, do tic-tac, da solidão que pede meu corpo e eu, sem forças, o dou. Amazing grace, se eu pudesse colocar essa música para tocar para os africanos que passam fome agora, mãe, eu faria; eles devem precisar de comida, e aqui dizemos que livros saciam. Saciam mesmo? Acho que se jogássemos páginas no deserto eles rasgariam-nas e comeriam-nas até dar disenteria. Eles riem quando digo que quero ser um elefante ou uma girafa, e por quê? A beleza do mundo perdeu-se entre tantos computadores e falas absurdas, os apartamentos contêm mais objetos do que sentimento, eu não aguento isso eu não aguento isso, poesia é motivo da chacota e porque decoro poemas me chamam de louco, mãe, eu estou morrendo aqui, estou perdendo meu fôlego, o paraíso está perto? meus pés doem, cadê a água, e meus amigos, e os livros, e poesia mãe a poesia, cadê? Os Estados Unidos ainda mandam no mundo, eu preciso engolir o sistema para estudar, o metrô parece uma prisão à luz do dia, eu estou com preguiça de viver, eu desabafei demais, mas mesmo assim eu falo sozinho, meu melhor amigo são as palavras e elas ainda assim nem dizem tudo, elas só dizem um pouco. Mãe, hoje me machucaram, falaram que eu sou antissocial, e o que é ser isso, mãe? Isso é legal? É que eu só me preservo de todas as facas que me lançam, eu queria flores, e poemas, e canções; queria abraçar o mundo que sofre sem causas aparentes. Mãe, o paraíso já chegou? meus olhos estão se fechando, eu já não vejo nada… mãe, eu não sinto nada.
Floresinexatas.
I feel like I can’t take anything anymore.
me too.
O essencial é a contingência. O que quero dizer é que, por definição, a existência não é a necessidade. Existir é simplesmente estar presente; os entes aparecem, deixam que os encontremos, mas nunca podemos deduzi-los. Creio que há pessoas que compreenderam isso. Só que tentaram superar essa contingência inventando um ser necessário e causa de si próprio. Ora, nenhum ser necessário pode explicar a existência: a contingência não é uma ilusão, uma aparência que se pode dissipar; é o absoluto, por conseguinte a gratuidade perfeita. Tudo é gratuito: esse jardim, essa cidade e eu próprio. Quando ocorre que nos apercebamos disso, sentimos o estômago embrulhado, e tudo se põe a flutuar como outra noite no Rendez-vous des Cheminots: é isso a Náusea; é isso que os Salafrários – os do Coteau Vert e os outros – tentam esconder de si mesmos com sua idéia de direito. Mas que mentira pobre: ninguém possui o direito; eles são inteiramente gratuitos, como os outros homens, não conseguem deixar de se sentir demais. E em si mesmos, secretamente, são demais, isto é, amorfos e vagos, tristes.
Jean-Paul Sartre, "A Náusea".(pág.193)

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E era você. E tem sido você. E vai continuar sendo você.
Caio Fernando Abreu. (via odeiorotulos)

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Que porcaria, isso. Eu assisti essa pessoa depilando as axilas debaixo do mesmo chuveiro. Eu vi essa pessoa de pijama. Eu transei sem camisinha com essa pessoa. Eu aturei o seriado Grey’s Anatomy sempre que essa pessoa chegava antes no controle-remoto. Eu rabisquei os azulejos com batom insinuando amar para sempre essa pessoa. Fui ao supermercado às onze da noite porque essa pessoa estava a fim de comer batatinhas sorridentes. Eu me preocupei com as provas semestrais dessa pessoa. Eu baixei da internet canções de quem não gosto, como as do Jack Johnson e Guns N’ Roses, para que essa pessoa pudesse correr no parque alegremente aos sábados. Eu esfreguei à mão nas calcinhas sujas dessa pessoa. E agora essa pessoa simplesmente desfila na minha frente com outra pessoa.
Gabito Nunes.
“Já tive medo do escuro, hoje no escuro me acho… Me agacho… Fico ali…”
— Clarice Lispector.

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“Só uma coisa a favor de mim eu posso dizer: nunca feri de propósito. E também me dói quando percebo que feri. Mas tantos defeitos tenho. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim não falte.”
— Clarice Lispector.
tô levando falsos amores e comprimidos de ectasy. quero me entorpecer com o mais podre e sujo em cima de uma cama qualquer de um motel qualquer. quando eu acordar não quero lembrar de nada sem remorsos sem nojo sem roupa. e começar tudo novamente como se nada tivesse acontecido apesar da azia, do gosto de esporro na boca impregnado no céu da boca misturado com álcool e fumo. antes que tudo comece a pesar - minha desordem, meu naufrágio - repito tudo, como não houvesse ontem nem amanhã. mais uma noite, mais um cara, mais um gozo, mais azia ai minha gastrite. estou ignorando tudo, todas as regras, todos vírus, vermes. estou me ignorando. estou ignorando tudo que criei até… pensei em você, sim. sacudi a cabeça como se fosse apenas um inseto no meu ouvido. e corri, assim de repente, como um louco desvairado. corri como corria pros teus braços suados de fim de dia. teus braços que me embalava entre o engarramento e buzinas. aquela paranoia de cidade grande.
estamos infectados pelo vírus de amar à todos. você não teme, mas eu temo que morra por isso fugi me droguei me entreguei pra qualquer um que não sente nojo do meu vírus. o vírus caminha em minhas veias, amor. sinto febre fraqueza enjoos. as noites parecem longas demais e não há ectasy nem cigarros suficientes. tenho pressa, porque estou morrendo. queria te ver e mergulhar no teu ombro com cheiro amadeirado misturado com teu suor de trabalhador, mas temo. eu temo tanta coisa agora que descobri que estou morrendo. temo que nosso encontro se corrompa com meu vírus e infecte meu amor limpo por você.
se eu pudesse arrancaria nas unhas isto que me mata diariamente para que eu possa te amar sem medo, te amar apesar dos socos na cara. te amar antes que minha gastrite vire úlcera e me mate. estou apodrecendo por dentro e não quero que presencie minha definhação.
você me amaria sem medo? você relevaria minha palidez meus ossos à mostra minha boca ressacada meus dedos finos magros? ah, me socorre que não quero mais falsos amores e drogas. quero o real quero o agora, quero teu corpo sob o meu como naquelas noites intensas e eternas - onde havia saúde em mim. não quero mais o abandono não quero mais a busca incessante do teu corpo em outro corpo.
você me amaria completo? eu não me contento com teu pouco, eu quero o muito, eu quero o completo. diga que sim, diga que sim que eu volto. eu volto sem pensar, eu volto no mesmo segundo. eu cansei da minha fuga.
você aceita a morte? a minha morte? a nossa morte?