A casca que o amor deixou
Existe uma geração inteira aprendendo a não sentir. Não porque nasceu assim, mas porque foi ensinada, aos poucos, que sentir demais é fraqueza, que querer uma só pessoa é ingenuidade, e que o amor, no jeito mais honesto que ele pode existir, é antiquado.
A monogamia virou piada. Virou pauta de debate, objeto de desconstrução, símbolo de uma suposta limitação emocional. E quem ainda carrega dentro de si o desejo genuíno de pertencer a uma pessoa, de olhar pro mesmo rosto toda manhã e encontrar o lar, sente vergonha disso. Como se sentir muito fosse um defeito de fábrica.
Mas o que ninguém conta é o preço que se paga por fingir que não importa.
Cada experiência que passa pelo corpo sem passar pela alma vai deixando um rastro. Não de crescimento, não de liberdade, mas de distância, de um esfriamento lento, imperceptível, que vai construindo uma casca sem que a gente perceba. E quando a gente percebe, já está olhando pra dentro de si e não reconhecendo mais quem era quando ainda sabia amar sem medo.
O celibato, pra muitos, não é escolha política. Não é manifesto. É sobrevivência. É o corpo dizendo chega, não aguento mais ser tocado por mãos que não me conhecem, não aguento mais intimidade que dura uma noite e evapora antes do café. É preferir o silêncio ao barulho de uma conexão vazia.
E o mais pesado de tudo isso é que a superficialidade não chegou de uma vez. Ela chegou disfarçada de evolução, de modernidade, de saúde emocional. Foi entrando devagar, normalizando o descartável, romantizando o desapego, até que um dia a gente acordou e descobriu que não sabe mais como chegar perto de alguém sem já estar pensando na saída.
O amor profundo não morreu. Ele foi sendo enterrado, camada por camada, debaixo de tudo que disseram que ele não deveria ser.
Mas ainda tem gente que sente. Ainda tem gente que, no fundo, só quer isso: uma presença que fique.











