e então há o momento, estranho, em que você encara o amor e tem vontade de fugir.
você observa a pessoa que ama enquanto ela passa o café pela manhã e pensa não ser possível ser merecedora de algo tão singular, alguém tão incrível. você se pergunta o que ela está fazendo contigo, por qual razão te escolheu. "justo eu", pensa em silêncio. alguém com tantos traumas que é difícil andar por aí sem se curvar às inseguranças. alguém cuja confiança precisa ser reconstruída, aos poucos, com a paciência de quem precisa acreditar que ainda resta motivos para continuar, permanecer.
você se questiona porque foi machucada muitas vezes. colocada para escanteio, feita de idiota, posta como louca, tida como carente, que agora, agora que ele é leve e é bom, você entra em pânico, tem vontade de recuar. é compreensível: pessoas que foram ensinadas que o amor dói têm dificuldade de aceitá-lo enquanto cura. pessoas que aprenderam o grito como única linguagem para se relacionar têm dificuldade de compreender o poder sobrenatural do silêncio.
você se sabota com medo de ser igual às outras vezes, mesmo sentindo uma faísca diferente; mesmo sendo tratada com carinho e respeito.
eu te entendo. dá mesmo um medo colossal se perceber sendo amada de verdade. ou, pelo menos, ser percebida e acolhida. é aterrorizante sentir que alguém, depois de tantas tentativas frustradas e expectativas tolhidas, consegue finalmente te olhar nos olhos sem furtar nada, sem te apagar. consegue ver em você potencial para ser mais, muito mais, do que você mesma imaginou. alguém que te vê com os olhos limpos, que te enxergam como caminho e possibilidade.
pois ela existe. independentemente do quanto já tenham errado contigo, do quanto você mesma se feriu, tentando se proteger. a chance é esta e é agora. ao menor sinal de fuga, fique. se conceda a oportunidade de viver a adrenalina, gostosa, que tem tomado conta dos teus dias ultimamente. que tem feito o amor, outra vez, te olhar de volta enquanto prepara o café pela manhã.
















