These violent delights have violent ends // P.O.V
Fumaça.
Fumaça, fumaça e mais fumaça.
Loki já tinha chegado à conclusão de que naquele bar não valia de nada a lei que proíbe fumar em locais fechados. Na verdade, achava que nem ao menos uma vírgula presente na constituição era levada em conta ali. Não que ele ligasse realmente, com seu Marlboro entre os lábios e olhos vermelhos por culpa de algum maconheiro idiota preguiçosamente largado no sofá perto de onde estava.
Apoiando-se em um taco de sinuca e analisando o posicionamento das bolas de forma quase desinteressada, Loki movia quase imperceptivelmente sua cabeça no ritmo da música, que julgou ser algum sucesso britânico dos anos setenta, oitenta, ou coisa do tipo. Ele não era um adepto ao New Wave para dizer com certeza.
“Hey, garoto, se você não jogar logo, vamos passar sua vez. Não que vá fazer alguma diferença, já que você está perdendo miseravelmente.” O loiro olhou para o cara alto que parecia gastar boa parte de seu tempo com academia e bronzeamento e piscou de forma lenta, tragando seu cigarro com as feições irritantemente inexpressivas enquanto andava até a mesa e se posicionava. “Na verdade, no seu lugar, eu já teria entregado o dinheiro e desistido enquanto a humilhação não foi completa.”
Uma risada baixa soou no fundo da garganta de Woodward, enquanto entortava os lábios para falar e calculava as probabilidades que o jogo lhe oferecia. “Tem razão, velhote...” Com um movimento rápido acertou o bolão e se levantou para observar as expressões nos rostos de todos os jogadores enquanto, gradativamente, cada uma das bolas que restaram sobre a mesa iam descendo caçapa abaixo como peças de dominó que caem ao bater umas nas outras. Segurou a bituca entre o indicador e o polegar, amassando a ponta da mesma contra um cinzeiro sobre a mesa onde também estava a cerveja e assoprando mais fumaça para aquele estabelecimento, como se já não estivesse supersaturado. “Seria muita humilhação perder para pessoas como vocês.”
Os homens olhavam do loiro para a mesa completamente confusos enquanto ele deixava o taco recolhia as notas empilhadas na lateral da superfície de madeira, fazendo um cumprimento com a mão semelhante a uma continência enquanto enfiava o dinheiro no bolso. “Foi uma honra esmagar vocês, me chamem pra ganhar de novo qualquer hora dessas. É assim que eu pago as minhas contas.”
Sorriu da forma mais sacana que conseguiu e deu uma piscadela, antes de virar-se na direção da saída do bar. Entretanto, foi cercado por um dos caras encorpados que desafiara.
Ergueu as sobrancelhas, terminando de beber o que restara de sua cerveja na garrafa e inclinando a cabeça levemente para o lado. “Posso ajudar?”
O mais velho agarrou Loki pela gola, murmurando com um hálito insuportável contra seu rosto: “Você roubou.”
Como resposta, o loiro torceu o nariz e deu tapinhas leves nas mãos do bêbado barrigudo, como quem pedisse que o soltasse. “Calma aí, ursão. Eu nunca disse que não sabia jogar, vocês que preferiram acreditar nisso enquanto eu não ‘tava usando a matemática. Probabilidade e geometria, combinados com estratégia. Ah, com uma ajudinha da física também.” Virou o rosto para um cara de pele escura e feições rudes do outro lado da mesa, que ainda segurava um taco de sinuca e tinha tatuagens que denunciavam seu tempo na marinha décadas antes. “Sabe como é, não é, Dwayne?”
Sentiu seu corpo ser sacudido e forçou-se a mais uma vez olhar na direção do bêbado que aparentemente não conhecia escovas de dentes. “Não me importa como você fez, garoto, você vai devolver nosso dinheiro. E vai devolver agora.”
Sorriu maroto e assentiu. “Claro, me solta e eu te entrego tudo. Sem tirar nem por.”
O homem observou-lhe desconfiado, mas deixou que saísse de seu aperto, empurrando-o de forma rude e ficando em uma pose defensiva. Loki arrumou sua jaqueta e murmurou um agradecimento antes de, com um movimento rápido, acertar a cabeça do grisalho com a garrafa de cerveja, levando-o a ir de encontro à mesa.
Deu uma risada alta antes de começar a correr, passando por debaixo dos braços de um cara que tentou lhe segurar e socando outro. “TOO SLOW!”
Calculou seu caminho em direção à saída e, antes que começasse a agir, sentiu seu peito e estômago se apertando, atingindo-o com um pressentimento ruim.
A distração quase lhe rendeu um olho roxo, mas conseguiu desviar mesmo assim.
Ainda sentindo-se agoniado, focou em chegar em sua moto, utilizando o mantra em sua mente que havia acabado de iniciar —o qual repetia o nome de seu irmão gêmeo inúmeras vezes e fazia com que quase se desesperasse para chegar até ele— como motivação.
Era para ele estar no hospital... Lá não era supostamente um lugar seguro?
Loki tinha de chegar lá o mais rápido possível.
O caos que havia iniciado era um grande empecilho, mas já passara por situações semelhantes antes, então não hesitou em começar a desviar de quem quer que viesse em sua direção. Normalmente, abriria o caminho na base da força, mas precisava se salvar ao máximo para o caso de ter de usar o físico mais tarde.
Com uma rasteira, conseguiu livrar-se do último homem que pôs-se em sua frente, lançando-se pela porta apenas para sentir uma dor aguda em seu pescoço. Levou a mão ao local e grunhiu quando dores semelhantes atingiram-lhe o peito, dificultando sua respiração. “Thor, por favor, por favor, por favor...”
Correu para sua Harley o quão rápido conseguiu, o hospital não ficava longe. Pelo menos esperava que não, estava desorientado demais para se lembrar.
Montou na motocicleta e cambaleou, sentindo-se tonto pelas pontadas escruciantes, porém forçou-se a manter-se firme.
O ronco alto do motor não lhe causou o prazer usual, o capacete não foi abotoado e sua visão estava embaçada por lágrimas grossas e quentes que encharcavam suas bochechas. Sua mão direita forçava o acelerador o máximo possível, seus movimentos eram mecânicos e sua mente lhe avisava que não havia mais nada que pudesse fazer.
Gritou com toda a força que restava em seus pulmões, enquanto a imagem da área mais habitada da ilha tomava conta dos seus arredores. À distância podia ver o hospital e repetia para si mesmo as palavras “Por favor”, recusando-se a acreditar na sensação oscilante que tomava conta de suas veias, como se algo não identificado que fosse necessário para sua existência fraquejasse, como se dentro de seu corpo tivesse uma lâmpada como único ponto de luz e ela estivesse acesa por uma corrente muito fraca de energia.
Quando entrou no estacionamento, por pouco não conseguiu parar, tentando freiar aos poucos, mas acabando por derrapar e abandonar a motocicleta no chão.
Irrompeu pelas portas de vidro e gritou como nunca gritara antes pelo nome de seu irmão.
“CADÊ ELE?” Olhava desnorteado para as pessoas ao seu redor, apertando entre os dedos a camiseta, como se o ato pudesse liberar a pressão em seu peito, e arranhando a lateral do próprio pescoço.
Tinha pequenos relances dos rostos assustados na sala de espera, de enfermeiros tentando lhe segurar. De repente, a dor ficou insuportável, fazendo com que um gutural rasgasse sua garganta e seus joelhos cedessem. Era a porra da dor da ligação de almas sendo rompida.
Estava preso em si mesmo, mas não o bastante para ter em algum ponto de sua mente a consciência de alguém atingindo-lhe com uma agulha. Tentou lutar contra, não queria, não podia ser sedado agora.
Entretanto, mesmo com sua resistência, sentiu a consciência se esvair. A dor ainda estava lá, e, se seu corpo já não o respondia antes, agora desligara-se por completo. Seu irmão estava morto e não havia nada que pudesse fazer quanto a isso.











