Abriu a porta e entrou. Atrás de si deixou o dia, lento, aspeto, eterno, e à sua frente a mesa da cozinha preenchia o espaço. O fogão apagado, a luz que piscava uma e outra vez até o arrancador aquecer, os bancos pediam atenção e o chão, limpo, suportava o seu peso. Pousou a saca das compras na mesa, puxou o banco e sentou-se. Com ele, sentaram-se também os sonhos, as tristezas e o aborrecimento das tarefas. Nas paredes as histórias da família encaixavam-se tal e qual os azulejos, devidamente alinhadas e separadas por um quase nada de espaço, de tempo. Respirava demoradamente, pensativamente, entre os cotovelos apoiados no tampo da mesa estava uma caneca de café quente. Não se recordava de ter preparado nada, não se recordava de se ter mexido daquele banco, não se recordava de ter aquecido a água e misturado o café solúvel naquela cabeça que agora estava à sua frente. Não recordava ter partido o pão, barrado manteiga, não recordava todas as histórias, não recordava todas as faces, vozes e momentos. Sentia-os. Sentia-os nas paredes, no ar, na boca pequena do fogão que tinha partido numa brincadeira de criança. As marcas da história estavam por todo o lado. A cozinha era o ventre da casa, ali foram nutridos e alimentados sonhos, esperanças, vivências. Foram partilhadas as mais mirabolantes histórias. Viu ali nascer o primeiro gatinho, muito pequeno, talvez branco e preto, idêntico ao que se encontrava à porta do mini mercado. Porventura seria o mesmo. Ou a sua memória. Porventura, levantar-se-ia após verter as lágrimas de hoje, vestiria as roupas de amanhã e tudo recomeçaria. Seria assim no dia seguinte e no outro até a sua história ser mais um quadradinho na parede da cozinha. #hojeeamanha #frio #quente #melgaço #istotaboméparaosoutros (em Melgaço, Portugal) https://www.instagram.com/p/Cochx6TsFS-/?igshid=NGJjMDIxMWI=













