durante as férias, ninguém ouviu falar em leonardo. além de seus amigos próximos, um grupo extremamente seleto, poucos sabiam, de fato, qual era seu paradeiro. os mais maliciosos podem ter pensado que estava fugindo da polícia, e tinham certeza que ele era o culpado do assassinato, mas ele estava muito ocupado com problemas familiares para se importar com sua reputação. portanto, não surpreendeu-se com a intimação, mas, considerando a polícia de olho nele, estava mais preocupado sobre o que a investigação era. chegou na delegacia com alguns hematomas em seu rosto e também no resto do corpo — embora estes estivessem escondidos por trás das roupas.
foi recebido por dois policiais, lhe encarando com expressões severas, e não se importou em cumprimentá-los. o caminho da porta até a cadeira designada para ele foi silencioso e dedicado ao reconhecimento do espaço: notou a câmera, a pasta na frente dos dois adultos, suas expressões e, mais importante, os rostos deles; já se conheciam, mas não oficialmente. sendo observado pela polícia, eles pensavam conhecê-lo e ele também foi atrás para saber quem pesquisavam sobre ele. sentado, continuou sem cumprimentar ninguém verbalmente e apenas acenou para a delegada com um balançar de cabeça. “boa tarde, senhor odescalchi. primeiro, diga seu nome completo, sua idade e o que você faz da vida.” a mulher sugeriu, em tom de ordem, apoiando as mãos em cima da mesa. “meu nome é leonardo borgia-odescalchi, tenho dezoito anos e sou estudante em truffaut.” respondeu com casualidade, dando de ombros. “esse é o seu único trabalho?” a pergunta do homem fez leonardo sorrir.
“meu tio tem um cassino e pediu pra eu cuidar da gerência em sua ausência, mas não faço muita coisa. só tenho dezoito anos, como acabei de informar.” respondeu-lhe. sabia que não conseguiria enganá-los com uma suposta inocência, mas não daria nada incriminatório. “ok, obrigada pelo esclarecimento, senhor. você foi convocado aqui porque é testemunha da morte de eloise girard-dampierre. gostaríamos que fosse o mais objetivo que pudesse nas respostas. quão bem você conhecia a srta. girard-dampierre?”
“na verdade, não sei nada sobre ela. ela não estava presente no meu grupo de amigos.” foi sua resposta e era verdadeira. “e ela parecia saber muita coisa do senhor...” o tom da mulher, embora fosse sério, era quase sarcástico. “bom, é aí que tá, minha senhora: eu gasto meu tempo livre jogando, conversando com meus amigos, passeando com meus cachorros. se eu fosse fofoqueira como ela era, também saberia sobre ela, mas acredito que cada um tenha suas prioridades na vida.” deu de ombros, obtendo sucesso em esconder a acidez de sua frase. “você estava na Ilha de saint-marguerite quando da morte da srta. girard-dampierre?”
“quem não estava? era a festa da turma.” devolveu a pergunta, sem paciência para responder coisas óbvias. aquilo pareceu irritar a mulher, que endureceu ainda mais a expressão. “responda a pergunta, senhor odescalchi. não pedimos gracinhas.” sem sentir-se oprimido pela entonação irada da mais velha, leo bocejou preguiçosamente. “sim, eu estava.” optou por fazer o que lhes pedia, porque era o caminho mais fácil para voltar para sua casa; queria dormir ou beber. “o senhor estava na festa de passagem realizada pelos alunos da truffaut françois?” e, à essa pergunta, ele assentiu, em silêncio. “precisamos de palavras.”
“sim, eu estava presente para aquela baboseira.” respondeu, mal-humorado. o policial menos carrancudo ergueu as sobrancelhas, emitindo um gesto curioso, e ganhou a atenção do estudante. “se acha uma baboseira, por que foi? tinha algum motivo por trás?” inquiriu, e, embora não tivesse um tom acusatório, havia uma acusação velada em suas palavras. que trabalho amador, pensou. “sim, tinha um motivo. minha ex e meu amigo insistiram muito e não vi motivos para negar o convite. conheço a maioria deles há anos.” a resposta, mais uma vez, foi sincera. “então, você se lembra da srta. girard-dampierre lá naquela noite?” é claro que se lembrava. “sim, nós chegamos juntos. não propositalmente, é claro, mas ela chegou com o melhor amigo e eu cheguei com minha ex. ela falou merda de mim e, depois, me deixou em paz.” falou meia-verdade, dessa vez. eloise nunca o deixava em paz, sempre com seus olhares desconfiados e insultos na ponta da língua como se o conhecesse tão bem — não conhecia. “deve ser doloroso ouvir isso de alguém, ela fazia isso com frequência?” o policial inquiriu, um tom simpático, como se sentisse pelo tratamento que recebia. balançou a cabeça em negativa, dando de ombros. “eloise não me afetava assim, não me importo com o que pessoas distantes pensam de mim, ela não era minha amiga.”
“alguém que lhe afeta fez isso com seu rosto?” a delegava perguntou, apontando, com a caneta na mão, seu rosto machucado. tentou não demonstrar emoções, mas foi quase impossível não murchar o sorrisinho insolente. umedeceu os lábios, que também estavam machucados, antes de responder. dessa vez, eles tocaram num tópico sensível o suficiente para que ele perdesse, momentaneamente, a pose de indiferente. “sim, meu pai me afeta bastante.” respondeu, sendo sincero, embora negue aquele fato diversas vezes. “e eu não estou aqui para explicar nada sobre minha vida pessoal ou familiar, que, eu garanto, tem nada a ver com esse caso. próxima pergunta, por favor.”
“qual foi a última vez que você viu a srta. girard-dampierre naquela noite?”
“nesse momento que ela me insultou. depois disso, passei um tempo com meu amigo, valentin, e esqueci que ela existe, pra ser sincero.”
“você viu a srta. girard-dampierre na companhia de alguém naquela noite?”
“de muitas pessoas, ela tinha muitos amigos.” respondeu. se metia na vida de muitas pessoas também, pensou, mas não externou. a verdade é que nunca odiou eloise, porque, como disse às autoridades policiais, não se importava o suficiente com ela para tal. “você consegue pensar em algum motivo para a srta. girard-dampierre ter morrido além de suicídio? ela tinha inimigos, desavenças?” ah, aquela maldita pergunta. não sabia nada sobre assassinato, mas sabia que ela havia irritado muitas pessoas, ele incluso. não o suficiente para querer assustá-la ou rebater seus insultos, mas ainda era um incômodo toda vez que respiravam o mesmo ar.
“não.” começou, e soltou um risinho nasal, debochado. “quer dizer, eu sei que garotos milionários têm uma péssima reputação, no geral, e até entendo. conheci alguns cretinos ao redor do mundo, porque meus pais se mudavam muito a trabalho, e que até seriam capazes de cometer assassinato, mas os alunos de truffaut? é sério?” um outro risinho escapou de seus lábios, como se aquela ideia fosse ridícula. “para ser sincero, não acredito na capacidade deles de fazer algo assim, eles são tão... mimados e protegidos pelos pais. eu incluso, é claro. não acredito que alguém da nossa turma conseguiria matar alguém, especialmente eloise. todo mundo parecia gostar dela.” ao fim de sua sentença, soltou um suspiro demorado, de braços cruzados. os policiais lhe alertaram que ele estava liberado e, após uma longa espreguiçada despreocupada, levantou-se da cadeira e foi embora, sem olhar para trás.
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adepta do planejamento prévio enquanto esforçava-se para manter seu estado de sobriedade, comparecer ao encontro do clube de línguas naquele dia havia sido um dos seus vários atos de caso pensado. a postura quase sempre impassível ajudavam-a em não agir de maneira covarde, mas as desculpas esfarrapadas e a decisão de evitar os locais que sabia serem frequentados por leonardo não poderiam ser explicados de outra maneira. não poderia ser hipócrita, negando a genuinidade do seu interesse pelo rapaz, mas as coisas se apresentavam-se de outra maneira agora, após a morte de uma das suas melhores amigas e a reabertura do inquérito. se a polícia desconfiava de algo, então talvez as suas suspeitas não fossem tão absurdas; havia falhado em sua tentativa de proteger a integridade de eloise tanto quanto errara em continuar se envolvendo com o garoto. devia tê-la escutado, afinal. a decisão de sentar-se próxima ao borgia fora estratégica tal como o meio sorriso que dera ao fazê-lo, mas os minutos da aula pareceram correr muito mais lentamente que o normal com a escolha. talvez fosse porque nos últimos, estava ocupada em fugir do rapaz. automática a permissão recebida para deixarem a classe, a dubois foi rápida em segurá-lo pelo pulso, um aperto gentil apesar da firmeza, para o impedir de levantar e deixá-la para trás. confiava que ele não o faria, mas precisava garantir, não tinha mais como adiar a conversa. aguardou por alguns minutos, calada, até que todos deixassem o ambiente, então virou-se para leonardo, a expressão vazia. ❛ eu não queria ter ignorado seus convites ❜ seu pedido de desculpas era implícito, o tom baixo por não querer chamar atenção de alguém que por acaso pudesse passar pela porta. ❛ a gente precisa conversar ❜ murmurou, soltando-o, ciente de que seria mais fácil se não mantivesse contato. ❛ você vai me odiar por isso, mas eu preciso saber, leonardo ❜ riu baixo, desviando o olhar por um instante, antes de voltar a fixar sua atenção a encarar o rapaz. jamais poderia ter a certeza de que ele falaria a verdade, mas talvez fosse verdade que os olhos eram as janelas da alma. ❛ naquele dia, enquanto eu tentava tirar a geneviève da confusão, o que você estava fazendo? ❜ seu questionamento fora feito em um sussurro, margot muito consciente das implicações de suas palavras.
se precisasse ser sincero, correr atrás de outras pessoas não fazia o estilo de leonardo odescalchi. criado para ser uma pessoa independente e completamente egoísta, correr atrás de quem quer que seja nunca foi uma característica sua, não importando o quanto quisesse estar perto de alguém — ser autossuficiente era uma dádiva e uma maldição, dependendo do caso. no entanto, entrou num grande dilema quando margot passou a ignorá-lo e deixar de aceitar seus convites para sair. criado por pais relapsos, não se importava quando as pessoas não tinham um tempo para ele, ele entendia, mas, conforme a frequência de nãos foi aumentando, conformou-se que havia algo errado. por outro lado, ele sabia que ela estava passando por momentos difíceis e que talvez precisasse de tempo e espaço; poderia sofrer e sentir saudade o quanto fosse, respeitaria o que ela pedia implicitamente. não deixou de pensar, porém, que eloise havia conseguido, sem nem tentar, o que sempre quis: separá-los. ele, também, estava lidando com seus próprios demônios — uma prova de que seus familiares conseguiam infernizá-lo mesmo à distância — e a ciência de que a polícia estava lhe observando vinha deixando-lhe estressado e atento aos seus arredores; talvez um relacionamento, se podia denominar a dinâmica dessa forma, não fosse tão adequada naquele momento de crise. depois de diversas tentativas, leonardo apenas aceitou que estava tudo acabado e que não adiantava cercá-la e, por isso, surpreendeu-se quando sentiu seu pulso ser segurado pela única pessoa inesperada. odiou-se por ter ficado ansioso para saber o que ela queria saber dele, mas logo convenceu-se que era apenas para colocar um ponto final em algo sem desfecho oficial; não tinha nada a ver com seus sentimentos confusos, é óbvio. os minutos que passaram para que todos abandonassem a sala foram morosos e inconvenientes, quase dolorosos, mas não se aproximou dela, como teria feito numa situação normal, quando ficaram, enfim, sozinhos. “tenho certeza que teve seus motivos.” foi sua resposta depois de alguns segundos em silêncio, cobrar coisas, além do dinheiro pelas drogas, não era de seu feitio. ele entendia, é verdade, mas não doía menos só por ser compreensível. ficou em silêncio durante suas duas falas, uma angústia alastrando por seu peito enquanto não escutava o que ela tanto queria saber — e, quando ela proferiu, desejou que ela não tivesse o feito. sabia o que ela estava deixando entrelinhas e precisou segurar o impulso latente de levantar de sua cadeira e deixá-la sozinha, tão absurda aquela pergunta soava aos seus ouvidos. sabia que sua reputação não lhe ajudava, mas chegou a pensar que ele a conhecia melhor que a maioria do resto da escola. “você está mesmo perguntando o que eu acho que está perguntando?” sua voz não continha exasperação, mas estava clara sua indignação. trincou o maxilar, balançando a cabeça, e desviou o olhar do rosto dela para o teto por curtos segundos. expirou o ar preso em seu pulmão antes de voltar a falar, incapaz de controlar a irritação. “enquanto você tentava convencer a sua amiga a não brigar, eu estava tentando apartar uma briga física dos meus dois melhores amigos. era isso que queria saber?” referia-se à valentin e wolfgang, claro. não perguntaria explicitamente se ela queria saber se ele havia matado eloise, assim como ela não o fez.
O dia seguinte ao Dia do Armistício na Truffaut não trouxeram a calma de volta para Wolfgang, apesar de ser o que ele desejou com muita força na noite anterior. Depois de descobrir sobre a gravidez da sua namorada falecida e que, ainda por cima, seus amigos mais próximos escondiam dele esse fato, o Mateschitz estava maluco de vontade de voltar a boxear. Não se importava mais com o braço machucado, mesmo que fosse momentaneamente. Só queria aliviar aquela fúria interior. Antes que pudesse fazer algo do qual se arrependesse — seja acabar fodendo ainda mais seu braço ou falando coisas a Holly das quais poderia querer retirar dali um ou dois dias — Wolf mandou uma mensagem para o melhor amigo dizendo que ia precisar passar a noite na casa dele. Não se sentia confiante em passar a noite no seu próprio apartamento sem explodir, mesmo que fosse provável que a Cotillard fosse para casa de Belle ou de outra amiga. Ao chegar no apartamento do Odescalchi, ele possuía um objetivo em mente: descobrir se o garoto também era uma das pessoas que vinham lhe escondendo uma verdade tão importante quanto a que descobrira na noite anterior. ❝ — Ei, valeu por me receber do nada assim.❞ — cumprimentou, apesar do sorriso ainda estar ausente da sua face. Foi entrando no apartamento familiar depois de tantos anos de amizade. ❝ — Eu preciso te perguntar uma coisa… Séria.❞ — falou, o maxilar cerrado.
depois de ser deixado em casa por holly e seu motorista, odescalchi imaginou que teria um pouco de paz de espírito. ele não contava, porém, que sua mente passaria boa parte de sua noite trabalhando em teorias acerca do que havia acontecido na noite do penhasco e, mais importante, no que o anônimo, seja ele quem for, queria com aquela história toda. além disso, a pequena pegadinha com seu carro também lhe deixou alerta sobre o que poderia estar acontecendo e só conseguiu pegar no sono quando os primeiros raios de sol refletiam na janela de seu quarto. o dia prolongou-se devagar, com alguns problemas familiares para resolver, e não hesitou antes de aceitar que o melhor amigo passasse um tempo ali — depois de tanto tempo, não precisava aceitar mais nada, eram família. abriu a porta do apartamento para ele, sendo seguido por um dos seus cachorros, e apenas balançou a cabeça em resposta. “nessun problema.” murmurou, em sua língua materna. sem problemas. com tudo que aconteceu, sua maior preocupação era, sem dúvidas, wolfgang. estava ciente de seu envolvimento com a falecida e, embora detestasse eloise, sentiu muito pela perda do melhor amigo. não estranhou a falta da habitual leveza nas expressões do austríaco, porque qualquer um ficaria assim depois de um áudio como aquele; isso não impediu que ele se preocupasse, decerto. “claro, qualquer coisa.” deu de ombros ao fechar a porta com o pé, afundando o corpo numa das poltronas de sua sala de estar. não se atreveria a perguntá-lo se ele estava bem ou não, não quando sabia a resposta. “o que foi?”
em consideração ao fato de que nunca quis estar ali, sendo o único motivo suas obrigações para com o jornal da escola e dar apoio moral para os amigos, a primeira coisa que fez quando as luzes se acenderam e a chuva deu uma trégua foi sair do prédio da escola. se bem que, àquele ponto, não mais sabia se queria ir para casa, sua casa. sua mente pensava demais no que acontecera no ginásio e nas implicações que o vídeo teria sobre os depoimentos prestados para a polícia de cannes em meados de setembro. seu ímpeto era de chegar em cada pessoa que podia ser distinguida no vídeo gravado por serena — as que importavam para ela, é claro — e perguntar o que, exatamente, tinham dito para a polícia. mas, claro, sabia que nenhum deles deveria estar bem para revistar o tópico como ela vinha fazendo com tanto afinco. o celular que não lhe pertencia, inclusive, parecia adicionar uns dez quilos amais na mochila em que carregava seus pertences. olhou para o celular, enviando duas mensagens. uma pra isabelle stuyvesant, avisando que passaria a noite no apartamento dela ( estivesse ela lá ou não ) e outra para wolfgang avisando que dormiria fora e perguntando como ele estava. encerrava a ligação com o motorista para informar onde, exatamente, ela esperaria por ele quando reconheceu leonardo há poucos metros dali. ❛ salut, monsieur odescalchi. ❜ — exprimiu um sorriso que não condizia com seu humor. ❛ você sozinho, perdido, uma hora dessas da noite. não acha meio perigoso? ❜ — brincou, e então franziu o cenho ao detectar algo na expressão de @leonzrdo. ❛ leo, ‘tá tudo bem? aconteceu alguma coisa? ❜
leonardo não escondia o quanto desgostava de eventos escolares, num geral, e costumava passar toda a extensão das mesmas num canto, afastado dos demais. não gostava de chamar atenção ou de estar no centro dos cômodos — e, tendo dois melhores amigos tão extrovertidos, era um grande problema —, mas a proposta do armistice day havia lhe chamado atenção o suficiente para que quisesse participar. no entanto, o calor, causado pelo excesso de roupas de material pesado, já estava lhe deixando irritadiço e a queda de energia apenas piorou a situação — e então o áudio aconteceu. reconheceu as vozes, obviamente, e preocupou-se com o estado dos amigos, mas, como era de seu feitio, não lhes cercou com cuidados e preocupação: era bom em esperar. ainda que se recusasse a admitir, as lembranças daquelas noite foram reativadas e estava estressado, tanto pela situação quanto pelas ameaças que vinha recebendo; não se importava em mentir para se proteger, mas detestava ter se metido numa circunstância onde não tinha o controle absoluto. a percepção de que haviam furado os pneus de seu carro veio conforme se aproximava do veículo e não reprimiu alguns xingamentos, antes de se certificar de investigar quem havia feito isso. sem muitas opções, esperou que holly saísse de dentro do instituto, o tronco recostado no carro dela, para que ela lhe desse uma carona. não sabia se estava disposto a lidar com outras pessoas naquele momento e imaginava que os envolvidos no áudio não queriam ser incomodados. não conseguiu sorrir abertamente na direção da cotillard, mas esboçou um sorriso discreto e mínimo, ainda que não sentisse vontade. “salut, mademoiselle cotillard.” respondeu, descruzando os braços e largando o corpo do carro alheio. a pergunta não lhe surpreendeu nem incomodou, ciente de que os dois, juntamente de wolfgang, conseguiam se entender com olhares e expressões. “alguém furou os pneus do meu carro.” soltou um risinho nasal sem humor, inconformado. em sua cabeça, aquela havia sido uma ação pessoal. “não sei se foi o filho da puta do anônimo ou algum escroto que não tem coragem de me desafiar pessoalmente. ou os dois.” não obstante sua entonação estivesse estável e baixa, a irritação era reconhecível para quem o conhecia tão bem quanto holly. raras eram as vezes que o odescalchi se alterava de verdade. “tô cansado, porra.”
sendo filha de abella e chandler beauchamp, chloé havia aprendido a lidar com certo nível de desprezo. desde muito pequena era ignorada por seus pais quando cometia o menor dos desapontamentos aos mais velhos, portanto ser ignorada não costumava ser algo estranho. entretanto, ser ignorada por leonardo havia a irado. faziam alguns bons dias que ela não possuía uma noite tranquila e completa de sono, as olheiras que adornavam seus olhos azuis eram prova daquilo. ela não possuía sequer uma pilula de calmante, não confiaria no produto de qualquer um e não podia pedir ao médico de sua família. inicialmente, o uso de substâncias por parte de chloé eram raros, eventualmente ela se via em uma situação onde experimentava algo novo. fumar maconha era algo extremamente raro, visto que ela havia lido uma matéria que dizia que danos irreversíveis ao cérebro podiam ser causados por uso de cannabis durante a adolescência. as coisas eram assim até o dia quatro de julho, a fatídica noite que tornou difícil para si encarar as outras noites. sentia seu coração palpitar ao adentrar na residência do rapaz; não sabia como descrever seus sentimentos além da agonia. ❝ ━━ que ótimo que se lembrou que somos parceiros de negócios, achei que tivesse se esquecido nos últimos dias. se a porra da federal tivesse te investigando, aposto que você iria pra cadeia.❞ seu tom era áspero, algo nada comum para chloé. sua voz sempre era calma e pacífica, raramente se deixava levar por suas emoções como naquele momento. além disso, era irracional achava que polícia federal iria investigar leo, mas não estava racionando propriamente naquele momento. ❝ ━━ aconteceu! eu não consigo dormir direito há dias, estou como a jennifer de jennifer’s body quando ela não comia nenhum homem. eu estou me sentindo uma merda e estou com uma dor no estômago fodida! para completar, tudo que você me arranjou acabou e eu não tenho nem a porra de um antialérgico para ter uma onda!❞ disparou de forma rápida, sua fala se cessou apenas quando o ar faltou aos seus pulmões. chloé posicionou ambas as mãos na cintura e respirou profundamente com o maxilar trancado, fitou o rapaz com um sorriso amarelo. ❝ ━━ eu só preciso que você me dê algo para dormir e algo para que eu possa curtir a festa… maconha, md, pó, tanto faz!❞
durante sua vida inteira, leonardo escutou diversas vezes que não possuía morais e valores e que não tinha caráter, e, embora concordasse em algum grau, não se importava com o que diziam sobre ele; o que pessoas que não o conheciam sabiam sobre ele? além do mais, nunca havia se esforçado para melhorar sua reputação na escola e tampouco tinha interesse em começar a fazê-lo. independente de suas morais deturpadas e de sua enorme indiferença em relação aos estudantes de truffaut — exceto um grupo seleto, decerto —, ele ainda se preocupava com os viciados que batiam em sua porta mensalmente. detestava a sensação de ter contribuído para a ruína deles e isso prejudicava sua paz, coisa que prezava demasiadamente. chloé, no entanto, era diferente. não era apenas por ela estar perdida no “caminho das drogas”, a amizade dos dois também contava, e muito, em sua distância. ele estava ciente que não poderia apenas descartá-la e dizer que não lhe venderia mais drogas, porque precisava se certificar que ela não iria atrás de outras drogas, advindas de pessoas questionáveis, e não poderia pedir ajuda a ninguém; respeitava a decisão dela de manter-se discreta e até admirava aquele traço em seus trejeitos. ergueu as sobrancelhas em reação à sua ameaça implícita, reprimindo a vontade de respirar fundo. não tinha muita paciência para conversas passiva-agressivas e costumava preferir ir direto ao ponto. “mas eles estão.” deu de ombros, como se não fosse nada demais. não era uma certeza, obviamente, mas ele sabia que era uma probabilidade alta. vinha sendo há meses e sua desconfiança apenas piorou após a morte de eloise. e ali estava: a violência tão bem mesclada na fala da beauchamp que leo não poderia ignorar nem se tentasse muito. “não vai dar.” disse, depois de um suspiro baixinho. afastou-se dela morosamente, dando alguns passos para trás, como um covarde. “eu acho que você devia parar com seus hábitos, chloé. olhe seu estado, não posso te ajudar mais a se destruir.”
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sucessores de uma longa linhagem nobre italiana, os borgia-odescalchi são uma família de políticos e ativistas dos direitos humanos espalhados pela europa e américa do norte. atualmente detentores de uma fortuna de cento e sete bilhões de euros, adquiridos por herança e pelo trabalho dos progenitores, os dois sobrenomes aparecem anualmente na lista da forbes e são citados em todas as listas possíveis de bilionários. são, ao todo, sete filhos e foram criados, principalmente, pelo tio, galileu. a família odescalchi, inclusive, é conhecida por seus nomes exóticos, inspirados em pintores italianos. embora tenham nascido na itália, a família passou a vida mudando de países, em decorrência do emprego da mãe, anastasia. fixaram-se em londres, no reino unido, há pouco mais de nove anos quando michelangelo, o pai, foi eleito primeiro-ministro.
MICHELANGELO ODESCALCHI ( 55, idris elba ) — o patriarca do clã, verdadeira face da marca da família. iniciou sua vida profissional como secretário do presidente da república italiana num estágio (fornecido, em primeira mão, pelo nepotismo) e foi subindo conforme suas ambições expandiam-se. depois de alguns anos, passou a ser secretário do exterior e braço direito do então primeiro-ministro, e também seu melhor amigo, onde aprendeu muito sobre política; anos depois, conquistou o país com sua luta por justiça ao apresentar provas forjadas sobre o amigo. já possuía, também, as graças da família real, amigos de longa data, e foi com esse apoio que chegou ao cargo de primeiro-ministro do reino unido. é carrasco e um ótimo mentiroso, conquistando qualquer um que queira com seus elogios e sorrisos, mas quem o conhece, sabe que ele é ardiloso. não foi um pai presente nem um marido exemplar, mas faz o que pode para manter a família unida, utilizando de seus meios autoritários para tal.
ANASTASIA BORGIA ( 53, thandie newton ) — falar que anastasia é a verdadeira manda regras da família é eufemismo (e redundância). tem pulso firme e uma autoridade inquestionável em qualquer âmbito da vida; todos a respeitam, seja por medo ou por acreditarem em sua suposta bondade. sempre foi ensinada a ser racional e fria, e, portanto, um homem tão parecido consigo foi atraente em demasia aos seus olhos. no entanto, não passou disso: atração. nunca houve amor ou paixão entre eles, mas nenhum dos dois parecia se importar. desde pequena, percebeu o quanto as pessoas se solidarizavam com altruísmo e empatia e assumiu essa personalidade para si. navegou pelas águas políticas italianas e inglesas, seus dois países favoritos, antes de seguir a carreira que sempre almejou: na onu. depois de alguns sobrenomes proferidos e pouco trabalho feito, tornou-se secetária-geral — seu mandato acaba em quatro anos. é uma mãe ausente, como o marido, mas sempre fez questão de ser carinhosa quando estava em casa e com tempo.
GALILEU ODESCALCHI ( 47, isaiah mustafa ) — originalmente o rejeitado da família, galileu nunca casou ou teve filhos, mas tem grande orgulho de ter criado os sobrinhos enquanto seus pais estavam seguindo suas ambições. era promotor e agora trabalha para o irmão, com quem tem um histórico de rivalidade, como seu advogado, desde o começo da campanha de michelangelo. é uma pessoa emocionalmente indisponível e nunca teve muita vontade de se apegar a alguém ou de ter filhos: sua vida sempre havia sido cuidar dos sobrinhos, por quem muito nutria afeto. no entanto, apesar de ser apaixonado por eles, não faz o estilo dócil e brincalhão; seus sobrinhos sobreviveram aos pais, duas pessoas completamente egoístas e manipuladoras, porque galileu lhes ensinou a como lidar com pessoas tóxicas, em especial seu sobrinho mais novo, leonardo.
MONALISA BORGIA-ODESCALCHI ( 32, tessa thompson ) — primogênita e dona de uma personalidade marcante, monalisa foi a única gravidez não-planejada. seus pais ainda não queriam filhos, por estarem montando suas carreiras, mas não deixou de ser muito amada — anos depois de nascer. teve uma primeira infância atribulada, causada pela falta de dedicação e de tempo de seus pais, mas, assim, aprendeu a lidar com rejeição. como irmã mais velha, sempre cuidou dos demais e os protegeu de possíveis males, sejam eles seus pais ou a mídia pretensiosa. é uma advogada de sucesso, lutando pelas causas que acredita, e saiu de perto dos pais para fugir de suas mentiras e seu controle. mora na itália, perto de seu avô, e trabalha com pessoas pobres.
PAOLO BORGIA-ODESCALCHI ( 31, winston duke ) — paolo foi o filho de ouro por muitos anos: inteligente, manipulador e carismático, era tudo que seu pai poderia sonhar num filho. não ligava para sua falta de escrúpulos, afinal, ele não era muito diferente. no entanto, quanto mais o primeiro menino da casa crescia, mais seus olhos se abriam para o que sua família representava e na falta de caráter de todos. depois de se formar em relações internacionais, não voltou mais para casa e sequer aparece em aniversários e celebrações de fim de ano. mantém contato apenas com a irmã mais velha e os três mais novos, por não confiar muito na lealdade dos demais com os pais. por ter sido o preferido, sabe de muitos dos esquemas de corrupção de michelangelo.
NICCOLO BORGIA-ODESCALCHI ( 30, alfie enoch ) — se mesmo no meio de lixo, flores podem nascer, niccolo é a prova viva disso. nunca pareceu ter sido contaminado pela aura negativa de sua família, optando sempre por ser positivo e bondoso — exatamente como seus pais dizem ser, ele é. tímido e altruísta, niccolo sempre lutou pelas outras pessoas, desde pequeno, e nada que os mais velhos pudessem dizer conseguiram corromper a bondade em seu coração. nunca ligou para classe social ou posições de poder e, portanto, sua relação com o pai sempre foi complicada. é advogado, assim como a irmã, e trabalha para ajudar a tirar pessoas negras presas injustamente (e que não têm condições de pagar um advogado bom). embora seja uma pessoa genuinamente boa, não fala com os pais há anos, assim como seus irmãos.
ELISABETTA BORGIA-ODESCALCHI ( 28, zoe kravitz ) — diferente dos irmãos mais velhos, não seguiu uma carreira política e optou por fazer o que sabe de melhor: usa a imagem para benefício próprio. com pais tão conhecidos pela mídia, seria tolice dela (e, também, do resto da prole) não se aproveitar disso para autopromoção. elisabetta é uma digital influencer e tem uma legião de seguidores significativa. de todos os irmãos, é a mais egoísta e não costuma se importar muito com os problemas familiares, continuando a morar com os pais por pura conveniência — ela sabe que precisa deles mais do que eles dela, então é a filha favorita.
ARTEMISIA BORGIA-ODESCALCHI ( 27, laura harrier ) — a queridinha dos tabloides e das matérias sensacionalistas, artie é a cota rebelde da família. nunca se deu muito bem com os pais e o motivo é simples: odeia o quanto sempre foram relapsos; precisava da atenção deles. está sempre presente em protestos (inclusive, em protestos contra o mandato de seu pai) e sua ficha é muito suja, culpa de todas as vezes que desacatou as autoridades. é, também, a rainha das festas e está sempre sendo acusada de portar a síndrome do peter pan. não tem muito interesse numa carreira depois que a mãe lhe impediu de ser musicista (não é o verdadeiro dom, segundo anastasia) e passa seus dias compondo, em segredo, para grandes artistas em nova york — bem longe da família.
RAFAEL BORGIA-ODESCALCHI ( 24, algee smith ) — assim como artemisia, rafael nunca foi uma pessoa com laços familiares muito estreitos. na realidade, com a exceção de elisabetta, a prole era uma família unida e independente de seus pais. ele, mais que os anteriores, implorava aos céus para que michelangelo e anastasia fossem embora de casa e os deixassem com o tio, porque, bem, ele sempre foi muito mais pai do que os outros dois. cresceu revoltado, irado, com problemas na hora de controlar a raiva e se envolvendo em diversas brigas (mais verbais do que físicas), mas a música consegue ajudá-lo a superar seus problemas, enquanto se nega a procurar terapia. atualmente, mora em nova york com artemisia, visto que são muito próximos, e estão sempre passando em cannes ou paris para visitar o irmão mais novo, leonardo.
Se dependesse de Nadine, ela já não estaria mais naquele ginásio desde o momento que percebeu a mudança do clima, num instante em que havia saído para a área externa para tomar um ar, algumas horas mais cedo. Ela havia sentido a frieza na brisa, parecendo lâminas afiadas raspando suas narinas, numa promessa de que poderia cortá-la até os ossos, se não fosse por toda aquela fantasia de Rainha Elizabeth lhe cobrindo o corpo — ela achou um motivo ali para ser grata pela capa dramática que lhe descia os ombros e arrastava em cauda pelo chão.
O cair da noite trouxe maior intensidade no que parecia uma chuva qualquer. Todos sabiam que a força do som da chuva caindo não deveria significar algo simples. Nadine estava no meio de sua décima explicação sobre como Reino Unido, do qual a Inglaterra era parte, servia-se de uma democracia parlamentar, onde o povo elegia o governo para representá-los, em conjunto à monarquia constitucional, com os poderes limitados e imparcialidade da Rainha — a quem Nadine representava sem muita vontade; foi basicamente quando ela percebeu que ninguém queria ouvir de fato sobre divisões de parlamentos, só queria uma distração para não pensar o pior acerca da chuva torrencial do lado de fora. Alguns alunos mais espertos já deveriam estar abrigados em suas respectivas casa àquela altura. Os infelizes é que ficaram ali para o que viria.
Nadine percebeu o mal pressentimento, quando pegou o telefone celular e não conseguiu se concentrar sobre o que fazer, ao ouvir Leonardo Borgia-Odescalchi lhe chamar pelo nome num eco distante, depois dela ter usado de todos os esforços para manter aquele encontro acadêmico o mais superficial possível. Ela quase inventou uma desculpa para sair dali, mas todas as luzes do ginásio se apagaram no segundo seguinte e ela paralisou, diante do breu. ❝ — Leonardo? ❞ Ela chamou, tentando encontrá-lo ao erguer a luz do visor do celular. O embrulho no estômago e o aperto no coração agiam como anestesia em Nadine, que não conseguiu se mover um centímetro de onde estava, buscando o Borgia na escuridão.
se precisasse ser completamente sincero, leonardo diria que, na verdade, não esperava nenhum tipo de paz em truffaut. claro, depois de tantos olhares dos outros sob si e de tanta tensão — e de uma menina morta, por deus —, ele parou de desejar o caos como antes. claro, admirava ao longe e até apreciava em certos níveis, mas tudo que era relacionado à eloise parecia deixá-lo com uma enxaqueca terrível ao fim do dia. no entanto, conforme as horas se passavam e tudo permanecia tranquilo, exceto apenas pela tempestade que se aproximava, permitiu-se ficar esperançoso que nada daria errado — até o apagão. estava posicionado num canto do estande, apoiando seu braço numa das poltronas vazias e assistindo nadine apresentar seu trabalho com mais atenção do que gostaria de admitir. a relação dos dois estava, no mínimo, estranha e o borgia não podia deixar de pensar que, mesmo morta, eloise conseguiu separá-los; deve ter morrido feliz, afinal. mas, certamente, não era o tipo de pensamento que alguém externava. assim que as luzes se apagaram, endireitou a postura e tateou os bolsos da calça à procura de seu celular. assim que apertou a destra no aparelho, sentindo-se minimamente seguro por estar munido deste, escutou a voz tão conhecida da ex (se é que podia chamá-la assim) e não hesitou em se aproximar, ignorando todas as complicações em que estavam inseridos. tocou de leve no pulso dela, para que ela pudesse reconhecê-lo. “oi, estou aqui.” murmurou, um tom mais baixo do que o seu normal, quiçá delicado. “você está bem?” inquiriu, largando a pele alheia e resistindo ao impulso de afastar-se. no fundo, também estava apreensivo, mas não se deixava demonstrar; ainda não, ela parecia precisar dele.
Era bom tem uma folguinha do seu estande para ir visitar os demais. Começou pelo início, na Alemanha e depois seguindo para a Áustria. Quando chegou lá, encontrou Leo todo caracterizado de guarda da Rainha. ❝ — Nice outfit, where’s the queen?❞ — perguntou em inglês, brincando. Parou para analisar junto com ele as comidas típicas da Áustria. ❝ — Tafelspitz, liptauer? O que acha que são? Spitz… Não é uma raça de cachorro? Que horror, será que é tipo cozido de cachorro? Meu deus.❞ — fingiu choque, soltando uma risada.
embora não falasse abertamente a respeito, leonardo adorou a infância. viajou para mais países do que conseguia se lembrar e se divertiu bastante, tornando-se um grande admirador das diversas culturas; aquele evento, aliás, estava sendo um jeito incrível de dissociação para tudo de ruim que vinha acontecendo e um grande lazer. estava no estande da áustria para, além de conhecer outras culturas, prestigiar seu melhor amigo com seu projeto. a presença de geneviève, porém, roubou-lhe a atenção quase completamente, girando o corpo em sua direção para fitá-la. “well, i’m looking at her right now.” respondeu, num tom brincalhão, em sua língua materna. soltou um risinho ao ouvir seus comentários, desviando seu olhar do rosto dela para os pratos com nomes peculiares. “se wolf estivesse por perto, ele poderia nos ajudar...” comentou, semicerrando os olhos à procura de algo que já conhecesse. “ah, experimenta esse! sachertorte.” comentou, servindo-se da especiaria e estendendo um pedaço do bolo, com um garfo, na altura dos lábios da d’harcourt. outro sorriso, dessa vez mais discreto, apareceu na extremidade de sua boca. “esse eu já comi, prometo que vai gostar!”
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Poderia dizer que ultimamente Wolfgang estava mais calmo do que o de costume; era um efeito direto do tanto de medicamento que estava tomando, principalmente dos analgésicos que já deveria ter parado de tomar, porém não conseguia, já que estava constantemente testando os limites da sua lesão e forçando o braço machucado. Por isso que as coisas ao redor pareciam mais fúteis do que nunca, e olha que ele não era a pessoa mais profunda do mundo. Depois de checar o celular com as novas mensagens do E durante o almoço, Wolfie lembrou em como aquilo tudo era escroto e sentiu aquela chama de ódio antigo reacender em seu peito, pensando alto: ❝ — Que porra, será que essa gente não tem mais nada para fazer? Eu só queria comer em paz por um dia sem ter que aturar drama alheio.❞ — exclamou, sabendo que agora atraira o olhar da pessoa com quem dividia a mesa.
um verdadeiro amante do caos, pouco sentia pena quando este se instaurava dentro das paredes de truffaut e fazia seus colegas de turma agir como verdadeiros animais. exceto, é claro, quando as confusões afetavam direta ou indiretamente os seus amigos mais próximos; aí, sim, tentava ficar menos alheio ao que quer que estivesse acontecendo. a matéria de maxine e penelope chegou-lhe aos ouvidos, mas a única coisa que pensou foi o quão escroto eles dois haviam sido com geneviève — não via a necessidade de comentar sobre o assunto. não havia recebido nenhuma mensagem, para sua sorte, mas as pessoas estavam inquietas o suficiente para que ele desconfiasse que o anônimo havia mostrado suas garrinhas mais uma vez. filho da puta. quando aproximou-se de wolfgang no horário do almoço, escutou o que ele dizia, assentindo. “então, deveria ter se matriculado em outra escola. truffaut deve ter alguma maldição de merda ou algo assim.” deu de ombros, depositando a bandeja na mesa ao sentar-se. “o que foi dessa vez? o mesmo babaca mandando mensagens?” inquiriu forjando indiferença ao dar de ombros, embora, no fundo, existisse certo teor preocupado em sua entonação. “se for, fui poupado dessa vez.”
Tudo bem que já havia semanas que sua vida não era o que se podia considerar normal. O mundo que tinha virado de cabeça para baixo após descobrir sobre a sujeira dos pais apenas acabou por se espatifar em pedaços no chão com as notícias sobre Maxine e Penelope. Entre um drama e outro, Geneviève acabou abandonando completamente o celular; não tinha estruturas para aquele tanto de gente querendo saber como estava a corna, lhe dando olhares de pena por trás da tela. Contudo, naquela noite se lembrou que ficou de responder Leo e chamá-lo no número novo. Doida por uma distração, principalmente o tipo de distração que ele podia dar, a d’Harcourt digitou avidamente no celular.
[ message to Leo ☠️. 24.11.2020 @ 20:01 ]: oi
[ message to Leo ☠️. 24.11.2020 @ 20:01 ]: quer/pode dar uma volta?
[ message to Leo ☠️. 24.11.2020 @ 20:02 ]: ou eu posso ir aí, o que vc preferir
leonardo não podia considerar-se uma pessoa muito viciada em aplicativos de mensagens. não tinha paciência, não gostava da pressão implícita de responder o tempo todo e, principalmente, não gostava muito de conversar com qualquer um. manter-se afastado de seus clientes, inclusive, era uma verdadeira bênção, especialmente quando estes aparentavam ter certo prazer em importuná-lo em todo momento. um sorriso discreto e verdadeiro surgiu na face masculina ao ver a mensagem e não demorou muito tempo para responder-lhe. geneviève estava, sem dúvidas, entre as exceções do odescalchi em relação à sua indiferença com mensagens de texto.
parado, ao lado da porta, esperando a saída de seu melhor amigo de infância, leonardo brincava distraidamente com o anel de caveira em seu anelar. se qualquer um lhe questionasse — e, sendo sincero, duvidava que alguém iria —, diria que sim, ele deveria estar dentro da sala, também; era arrogante o suficiente para se permitir o privilégio de faltar algumas aulas de exatas, sua maior facilidade dentre as áreas. camuflando-se, como de costume, após o sinal do fim da aula física, esperou que a maioria dos alunos passasse até que seu alvo emergisse à frente do seu campo de visão. puxou @vtls pelo braço, com uma delicadeza reservada apenas para o britânico e sua gêmea, para que saíssem do aglomerado de estudantes e ninguém pudesse ouvir o que tinha a lhe dizer; não possuía nenhum segredo de estado, no entanto, apenas portava uma natureza reservada desde a infância. “ei. achei que essa aula não fosse acabar nunca.” estalou a língua num muxoxo, os sotaques italiano e britânico misturando-se conforme proferia cada palavra. “fiquei te esperando, queria te mostrar algo.” comentou, passando a mão na testa. “você tem um talento nato com arte, então acho que ninguém mais é tão adequado quanto.” deu de ombros. referia-se, aliás, a alguns desenhos que fazia em seu tempo livre — não era um segredo, mas, também, não era algo que espalhava aos quatro ventos. poucos sabiam e atlas estava, sem dúvidas, nesse clube seleto. “o que acha de ir lá em casa? podemos jogar uns video games e você me dá sua opinião. talvez até estudar juntos o que teve hoje nessa aula aí.” era apenas uma desculpa, sendo sincero. só queria passar um tempo de qualidade na companhia do amigo.
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leonardo não é uma pessoa muito talentosa na hora de lidar com os mais variados tipos de pessoa, isso é um fato. a tarefa de socializar com os demais políticos, amigos e inimigos da família, pertencia aos irmãos mais velhos e ele apenas ficava no canto, observando e absorvendo informações; era muito bom em observar, decerto. a falta de necessidade de conversas longa foi uma das coisas que o motivara a seguir o rumo que escolhera e, sendo completamente sincero, não sentia muita falta de laços fortes, exceto os que já tinha formado. a chegada de chloé em sua vida foi súbita e ele precisou ignorar muitas das suas desconfianças para que a loira pudesse ser, de fato, aceita em sua vida pessoal, e não apenas na profissional. desconfiado por natureza, lutou (e ainda luta, em seus piores dias) para não se deixar levar pela paranoia de ser alguém que queria lhe fazer mal — embora fazer merda seja, sim, da natureza humana. seu apego com ela fez tão bem quanto mal, porque ele sabia o que estava acontecendo com ela: conhecia os sinais. a bem da verdade, não queria deixá-la de lado e descartá-la como se fosse um pedaço de lixo, mas não sabia como lidar com ela ou com suas ligações e mensagens desesperadas; estava preocupado e se importar era algo ao qual nunca pôde se dar ao luxo. passou uma temporada em londres, na companhia da família, para resolver assuntos pessoais e, para sua sorte, não ficou muito tempo no celular para que percebesse as diversas tentativas dela de se comunicar com ele. já em sua casa, permitiu que @ambitchiiious entrasse, preparando-se para a pior reação possível. estava vestido num robe de seda, despreocupado, após ter passado sua tarde cozinhando para anuviar a mente. “ora, ora, que honra ter minha informante favorita na minha casa!” cumprimentou, abrindo os braços para os lados, forjando uma expressão surpresa. talvez se tentasse ser simpático, ela se acalmasse e não quebrasse nenhum vaso caro em sua cabeça. “desculpe pelo sumiço, eu estava viajando e não tive tempo de fazer ligações. aconteceu alguma coisa na minha ausência?”