03/26: A Vegetariana, Han Kang (2014)
Esse livro, um presente identitário da minha amiga Hayat, eu tava com muita vontade de ler, mais pelo título do que por qualquer outra coisa. Eu sou vegetariana desde 2018 e, até então, o único livro de ficção que eu li que empregava isso como ponto da narrativa tinha sido.... Frankenstein, da Mary Shelley.
Nesse livro, um dos inúmeros símbolos utilizados é a recusa do monstro em comer carne. Isso vem como reflexo das crueldades que ele observa e as quais é submetido durante a história. E esse símbolo também tem seus motivos históricos; tem a ver com as visões da Mary Shelley e dos outros românticos com a natureza, e novas noções de humanidade a partir do iluminismo e da tal era moderna. Nessa época, o seu marido (e colaborador), Percy Bysshe Shelley, expôs essas ideias no ensaio A Vindication of Natural Diet. Como visto no título, na visão dele, o que não era natural era consumir carne.
Isso é o oposto do que é dito pra Yeonghye, protagonista de A Vegetariana. Ela aparentemente não tem motivos ideológicos ou filosóficos pra mudar de dieta; de acordo com o seu marido, que narra a primeira parte, tudo começa depois que ela tem um pesadelo extremamente violento. Nos pensamentos erráticos que são escritos no livro, podemos ver só que a Yeonghye espera que, eliminando a carne e o sangue do seu estômago, ela consiga eliminá-lo dos seus sonhos.
Os argumentos que ela ouve nessa primeira parte, do marido, dos colegas do marido, dos pais e parentes, me trouxeram um dejà vu fortíssimo do primeiro ano em que eu parei de comer carne. O que todas as perguntas de pessoas preocupadas com sua saúde e a evolução onívora da raça humana escondem é uma grande irritação com essa recusa. Nessa mesma parte, o marido de Yeonghye reclama de outra recusa, do uso de sutiã, outra coisa simbolicamente ligada a um certo aprisionamento. No livro, as escolhas da protagonista irritam muito: como é que ela ousa não fazer essa coisa que todos nós fazemos e, além disso, não trazer nenhuma explicação?
Yeonghye é uma personagem inescrutável tanto para as pessoas à sua volta quanto para o leitor. O livro nunca é narrado por ela, mas por uma pessoa diferente em cada parte, primeiro o marido, depois o cunhado, depois a irmã. Ao longo da história, cada um deles usa a protagonista e suas ações como espelho da própria consciência. Para o marido, a Yeonghye é um símbolo de como, mesmo tendo feito todas as escolhas "certas", ele vive uma existência frustrada e exasperada em busca de um sucesso econômico e social que não vem; no decorrer da história, ela se torna um obstáculo e ele pede o divórcio. O cunhado vê nela uma musa que o tiraria de uma seca artística, mas também uma possibilidade de escape da vida cotidiana e de um casamento insosso. Já a irmã vê uma espécie de espelho distorcido e, nos dando o maior contexto sobre a vida das duas, imagina uma ideia de como ela se comportaria se não estivesse completamente integrada à ordem social.
Claro que, pra Yeonghye, deixar de comer carne é o início do estágio final de uma longa trajetória de anulação de seus desejos, vontades e personalidade em nome de ser boa filha, irmã e esposa. Esse processo de enlouquecimento é acompanhado pelos olhos dos outros, que veem nela uma figura de pedra enfurecedora. Essa recusa meio niilista dela parece perguntar "por que todos nós precisamos continuar fazendo isso?" Na primeira parte, o marido descreve Yeonghye como uma personalidade "sem charmes, nem defeitos", citando isso como o que o fez se casar; na terceira, ela diz à irmã que acredita ser uma árvore e não uma pessoa. Será que ser uma mulher ideal pode ser como ser um vegetal?
Os dois primeiros pontos de vista, do marido e do cunhado, são enfurecedores, mas muito efetivos. Pros dois, as mulheres em suas vidas não passam de objetos, o que torna muito natural que eles exerçam violências contra elas ou se abstenham ao ver alguém exercendo-as. Eles são pessoas muito diferentes, um é trabalhador de escritório e o outro artista, mas, no fundo, eles possuem as mesmas ideias sobre submissão e disponibilidade sexual feminina. As cenas em que eles estupram suas respectivas esposas salientam isso.
Assim, por mais que seja um método muito radical e esquisito, esse desejo da Yeonghye de exercer controle sobre o próprio corpo nos parece justificado. A Vegetariana foi uma leitura rápida, um pouco chocante e que eu ainda não entendi muito direito, mas é um daqueles que não é de entender e é de sentir. E eu acho que senti.












