Afinal, shifting é verdade ou uma mentira coletiva?
“Reality shifting”, ou apenas shifting, é uma prática que ficou popular principalmente no TikTok a partir de 2020. A proposta é que a pessoa consiga “mudar” sua consciência para uma “realidade desejada”, muitas vezes inspirada em universos fictícios como Harry Potter. Mas o que dizem as fontes acadêmicas e científicas sobre isso?
Até o momento, não existe nenhuma evidência científica de que seja possível transferir literalmente a consciência para outra realidade física ou universo paralelo. A física teórica discute hipóteses como o multiverso, mas isso é um campo altamente especulativo e não tem relação comprovada com experiências mentais individuais. A interpretação dos “muitos mundos”, proposta por Hugh Everett III, é uma interpretação da mecânica quântica, mas não afirma que seres humanos podem viajar conscientemente entre realidades.
Do ponto de vista da psicologia, experiências relatadas como shifting podem ser explicadas por fenômenos já estudados, como imaginação vívida, estados dissociativos leves e sonho lúcido. O sonho lúcido foi amplamente pesquisado por cientistas como Stephen LaBerge, que demonstrou que pessoas podem ter consciência dentro do sonho e até certo grau de controle sobre ele. Isso pode gerar experiências extremamente realistas, o que ajuda a entender por que muitas pessoas descrevem o shifting como “real”.
Outro conceito importante é o de dissociação, estudado em psicologia clínica e descrito no manual diagnóstico Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, publicado pela American Psychiatric Association. A dissociação pode envolver sensação de desconexão da realidade imediata ou imersão intensa em experiências internas. Isso não significa que a pessoa esteja “louca”, mas que o cérebro é capaz de criar experiências subjetivas muito convincentes.
Então, é verdade ou mentira coletiva? Cientificamente, não há comprovação de que shifting seja uma mudança literal de realidade. As explicações mais aceitas envolvem processos psicológicos conhecidos. Porém, isso não significa que as experiências das pessoas sejam “falsas” no sentido subjetivo. Elas podem ser emocionalmente reais e intensas, mesmo que não representem uma viagem física para outro universo.
Everett, H. “Relative State Formulation of Quantum Mechanics” (1957)
LaBerge, S. “Lucid Dreaming” (1985)
American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5ª ed., texto revisado (DSM-5-TR)
Pesquisas sobre sonho lúcido publicadas no periódico Sleep Research Society
🙋🏻♀️ — "Mas muitas pessoas já shiftou"
Realmente, muitas pessoas relatam que já “shiftaram”. Tem milhares de vídeos no TikTok e relatos em fóruns como Reddit contando experiências muito detalhadas.
A questão não é se as pessoas estão mentindo. A maioria provavelmente não está inventando. O ponto é que experiência subjetiva não é a mesma coisa que comprovação científica.
Na psicologia, já se sabe que o cérebro humano consegue criar experiências extremamente realistas. Por exemplo:
Pesquisado por Stephen LaBerge na Stanford University, o sonho lúcido mostra que a pessoa pode estar consciente dentro de um sonho e até controlar o ambiente. Muitos relatos de shifting são muito parecidos com descrições de sonhos lúcidos intensos.
Dissociação e imaginação vívida
O manual Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, publicado pela American Psychiatric Association, descreve estados dissociativos em que a pessoa pode sentir forte desconexão da realidade atual e imersão profunda em experiências internas. Isso não significa doença automaticamente, mas mostra que a mente pode criar vivências muito convincentes.
Efeito de influência social
Quando muitas pessoas compartilham experiências parecidas em uma comunidade online, isso pode reforçar expectativas e moldar como outras pessoas interpretam suas próprias experiências. Esse fenômeno é estudado dentro da psicologia social e não significa que alguém esteja “inventando”, mas que o contexto influencia a forma como a experiência é entendida.
Então, sim, muitas pessoas dizem que já shiftaram. Isso é um fato social. O que não existe até hoje é evidência científica de que alguém tenha literalmente transferido sua consciência para outro universo físico.
Experiência pessoal pode ser totalmente real para quem viveu.
Comprovação científica exige evidência objetiva, repetível e mensurável