“O Rei Leão” - Em Análise
“Estamos todos ligados, no grande ciclo da vida”. As palavras de Mufasa não poderiam fazer mais sentido na atual crise humanitária e climática que vivemos. Mas este ciclo da vida romantizado e utópico a que o clássico de 1994 deu voz através da personagem interpretada por James Earl Jones na versão original é, ele próprio, uma chamada de atenção ao colapso do real ciclo da vida, um que já há muito deixou de atuar silenciosamente.
A história de um leão que governa tudo e todos onde a luz toca, continua, vinte e cinco anos depois, a estimular lágrimas e a imprimir sorrisos. O olhar de Jon Favreau não veio corromper essa tão íntima e quente natureza da animação original, mas se o filme em tanto se assemelha ao de 1994, em tantos outros pontos se vem separar dele.
“O Rei Leão” surgiu numa época de ouro para os estúdios, uma época antecedida por um período de decadência prolongado por quase vinte anos (de 1970 a 1988) após a morte de Walt Disney. O encerramento deste ciclo para um de sucesso e reconhecimento só se proporcionaria em 1989 com a estreia de “A Pequena Sereia”, estendendo-se até 1999 e encerrando com “Tarzan”. A história de Simba emergiu na crista dessa onda e tornou-se um dos mais aclamados filmes de animação da Disney na sua idade de ouro. Na viragem do século, o aparecimento de estúdios prontos a investir em animação completamente conseguida através de técnicas digitais ofusca-lhes novamente o êxito comercial. Ainda assim, uma vez mais, a Disney consegue erguer-se. Hoje, domina grande parte da indústria. Hoje, é um monopólio.
A dificuldade de avaliar “O Rei Leão”, e para todos os efeitos grande parte das restantes reciclagens de animações clássicas nos últimos anos, prende-se justamente pela perda de originalidade em prol de interesses financeiros, onde a nostalgia se torna negócio. Não obstante, serão praticamente inegáveis as proezas tecnológicas conseguidas pelas equipas que compõem os estúdios Disney. A nova versão de “O Rei Leão” é, tal como o foi “O Livro da Selva” (2016), uma brilhante prova dessa mesma destreza, tendo o processo de produção deste novo filme sido concretizado através da incorporação de realidade virtual. O trabalho de Favreau e de toda a equipa corroborou, mais uma vez, a fascinante capacidade técnica dos estúdios e como é ténue, bastante ténue, a linha que atualmente separa a animação da imagem real. O realismo do novo “Rei Leão” é a prova dessa brilhante fusão entre o real e o fantástico e da alteração de paradigma prometida com a chegada do digital.
Por outro lado, contrariamente aos restantes remakes em que a Disney tem vindo a investir, este não é uma adaptação de animação para imagem real, mas uma adaptação de um filme de animação 2D para um de animação 3D, onde o realismo é de tal modo brutal que as fronteiras parecem esfumar-se. Este é um dos mais tecnicamente belos filmes de animação que a Disney já nos presenteou. As semelhanças a um documentário de vida selvagem são evidentes, desde os cenários visualmente deslumbrantes à atenção a detalhes tão simples quanto essenciais como o característico sacudir de orelha num felino. A história, essa, é idêntica, conhecendo apenas breves, mas riquíssimas, alterações e complementos ao argumento original para as peças se unirem de forma mais lógica e fluída. Na realidade, se esta nova versão vem limitada pela opção do realismo, vem certamente reforçada pela experiência visual e tecnológica que conquista. A emoção, sobre a qual se têm abatido fortes críticas ao filme, proporcionava-se de belíssimo modo na animação de 1994 pela exímia incorporação dos doze princípios fundamentais da animação. Mas o paradigma mudou, de facto, e se é claro esta diferença abismal entre a animação original e o filme de Jon Favreau, também poderemos reconhecer que, aqui, num contexto cinematográfico absolutamente distinto do de há vinte e cinco anos atrás, a emoção encontra-se cada vez mais centrada na experiência visual. E essa é, neste filme, abraçada novamente à música de Hans Zimmer, uma de grande calibre.
A nova perspectiva do filme de animação de 1994 é uma experiência que vale a pena ser vivida, uma vez mais, num paradigma cinematográfico distinto, num contexto diferente, onde a animação se funde com o real e emerge igualmente bela, num ciclo de magia e fantasia que nos transporta para o passado, mas também para o futuro desta “arte”. Não necessariamente melhor, não necessariamente pior, mas diferente. De modo algum a beleza do clássico de animação “O Rei Leão” foi superada, mas talvez não seja esse o objetivo. Talvez seja reviver, de outra forma, de outra perspetiva, o grande ciclo da vida…
Classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️
Catarina Gil














